Matéria publicada originalmente na edição 113 da Revista 100fronteiras, fevereiro de 2015.

A primeira vez que ouvi falar do Goalball fiquei tentando imaginar que tipo de esporte era e principalmente como era jogado. Assim, quando cheguei ao Centro da Juventude do Jardim Naipi de Foz do Iguaçu e vi os atletas treinando, entendi que o jogo apesar de ser bem diferente dos tradicionais é também muito interessante.

Então vou fazer você entender como funciona: imagine uma quadra e um grupo de atletas que entre os equipamentos de jogo utilizam uma venda nos olhos. Não há barulhos externos, e o único ruído é o de uma bola – um pouco maior que a de basquete – com guizos. Eles ficam alinhados – três de cada lado – atentos ao som da bola e não podem deixar que ela passe a linha que está atrás deles, se não o gol é marcado. Agora tente imaginar um jogo assim. Conseguiu? Essa prática esportiva não é muito conhecida, mas foi criada há mais de 60 anos e “salva” a vida de muitas pessoas que têm deficiência visual.

Goalball

História do Goallball

Após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, surgiu na Alemanha um esporte desenvolvido para deficientes visuais. O austríaco Hans Lorezen e o alemão Sepp Reindle, em um esforço para reabilitar os soldados que perderam a visão, criaram o goalball. O esporte foi apresentado ao mundo em 1976 nas Olimpíadas de Toronto, no Canadá, passando, desde então, a pertencer aos Jogos Paraolímpicos, e de lá para cá está presente em mais de cem países.

Por meio de um convênio com a Associação dos Deficientes Visuais de Foz do Iguaçu (Adevifoz), o coordenador do Centro da Juventude do Jardim Naipi, Orlando Werlang Júnior, iniciou o esporte na cidade com o Projeto Goalball em Foz.

“Eu sou o tipo de cara que ouve uma ideia e coloca ela em prática. Eu ouvi essa ideia de uma profissional e achei muito interessante. Fui fazer levantamento de dados para ver se ia ter demanda e, descobrindo que tinha demanda, comecei”.

Assim, conversou com a equipe que trabalha com ele no Centro da Juventude e foram até a Adevifoz para concretizar o projeto. Com isso, os deficientes visuais, que já realizavam atividades na associação, começaram a praticar o goalball – único esporte feito especialmente para cegos, tanto com falta de visão total quanto parcial.

O esporte

Roberto José dos Santos trabalha como técnico dessa modalidade desde que o projeto iniciou na cidade. Ele é voluntário, juntamente com outro professor, e diz que o projeto conta com a ajuda da prefeitura na compra do uniforme e no transporte quando eles vão para outros lugares.

“Para poder jogar eles têm que ter coordenação motora, tato para escutar, porque eles jogam através da orientação do barulho (guizo) que tá na bola”, explica o técnico que lembra ainda que há equipes femininas e masculinas.

É um esporte que não apresenta limite de idade para participar. Roberto ressalta, ainda, que o goalball é o único trabalho esportivo para deficientes visuais em Foz do Iguaçu.

Pessoas que encontraram no esporte a esperança de uma nova vida

Em Foz do Iguaçu, pessoas que nasceram cegas ou perderam a visão por algum motivo participam da Associação dos Deficientes Visuais (Adevifoz), que disponibiliza aulas de Braille, cursos e outros projetos de inclusão e socialização como o goalball, que é em parceria com o Centro da Juventude.

Jair Marques é uma dessas pessoas que perderam a visão, quando tinha 22 anos, por causa de um choque térmico no trabalho. Chegou a fazer cirurgia, mas não adiantou, teve perda total de visão e hoje, quase 20 anos depois, achou no esporte uma maneira de recomeçar a vida.

Ele participa a um ano do projeto e já fez bastantes amizades.

“Através da associação a gente conseguiu o jogo do goalball. A autoestima da gente é bem melhor”, conta. Jair, que tem 41 anos e após o acidente se aposentou pela empresa, tem dois filhos e mora sozinho.

Apesar de ter ficado um tempo sem trabalhar, hoje, por meio da Adevifoz, estuda Braille na escola da Ponte da Amizade, faz curso de logística, aula de dança de salão, culinária e aula de violão. Mesmo com tantas atividades, o esporte ainda é sua maior paixão.

“Agora estou focado mais no goalball”, admite ao contar, ainda, que foi aluno-destaque e ganhou um troféu pela modalidade.

Elisane Beltrame tem 30 anos e perdeu a visão com 22 anos devido a um tumor no cérebro que atingiu o nervo óptico. Ficou cega totalmente e, por três anos, não saiu de casa. Mas há mais de um ano conheceu o projeto do goalball e, então, viu no esporte a motivação que precisava.

“Quando apareceu eu fiquei quase louca, eu pensei ‘ai meu Deus, eu não acredito, não acredito’. Eu corria, eu chutava a bola de tanta felicidade sabe.” Ela, que jogava vôlei antes de perder a visão, achou que nunca mais fosse tocar em uma bola, mas agora não vê a hora de chegar o dia para ir até a quadra treinar. “Não falto. Só se eu tiver doente, mas não falto. Eu me jogo, me arrebento toda, dou meu sangue”, conta.

Edenir Monteiro tem 21 anos e nasceu com problemas de visão. Ele enxerga 80% com o olho direito e apenas 2% com o esquerdo, assim tendo visão parcial. Participa do projeto há um ano e também conheceu o esporte por meio da associação. Não imaginava que um cego podia jogar bola e, quando descobriu, interessou-se e não quis parar.

Para ele, esse projeto ajudou no desenvolvimento dos outros sentidos do corpo.

“Mudou muita coisa, a destreza de usar a audição e outros sentidos, porque ali a gente fica totalmente com o olho tapado.” Sobre o fato de ele ter visão parcial, isso não lhe dá vantagem na hora do jogo por que, como citado anteriormente, todos jogam vendados.

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

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