Quem vive em Foz do Iguaçu está familiarizado com duas importantes obras de infraestrutura: a primeira delas é a Ponte da Integração (que é a segunda ponte criada entre o Brasil e o Paraguai na Tríplice Fronteira) e a segunda obra é a Perimetral Leste, um conjunto de obras de melhoria de acesso e circulação de pessoas e veículos.

Nessa série sobre os anos 40, temos visto que nem sempre o acesso terrestre foi o mais viável. A ausência de uma boa estrada tornava Foz do Iguaçu isolada de outras partes do Paraná. A ligação direta com Curitiba era um anseio antigo. Aos habitantes da fronteira interessava ter acesso mais fácil a produtos e serviços diversos.

Primórdios

A rodovia BR-277 começa no litoral do Paraná e termina na fronteira com o Paraguai. A Ponte da Amizade foi inaugurada em 1965, alguns anos antes do asfalto cobrir toda a rodovia do lado brasileiro. Como boa parte das estradas, em geral, a BR não foi construída toda de uma só vez. Na verdade, as rodovias passam por diferentes estágios em diferentes trechos.

O primeiro estágio é a abertura de uma picada, depois de uma estrada de terra. Na sequência, pode-se despejar pedras (macadamizar), asfaltar, duplicar, etc. Geralmente, os trechos de uma estrada acompanham o desenvolvimento de um lugar. Em 1940, por exemplo, de Paranaguá, passando por Curitiba e Ponta Grossa até Guarapuava a estrada era boa para os padrões da época.

O trecho rodoviário entre Guarapuava e Foz do Iguaçu foi aberto na forma de picada pelos agentes da Colônia Militar, em 1889. Alguns anos depois veio a fiação do telégrafo que passou a ser um marco desse caminho. Uma estrada “carroçável” foi aberta pelo governo do Paraná em 1920.

Vale notar que não tinha como trafegar por essa estrada na estação chuvosa. Depois da chuva, crescia o mato e as dificuldades aumentavam.

Fonte: Acervo do IBGE

Por um documento do IBGE, sabemos que, em 1948, de Foz do Iguaçu a Curitiba, 332 km de estrada era de “terra melhorada”. Também havia serviço de ônibus entre Ponta Grossa e Cascavel. Em geral, é razoável aceitar que o acesso terrestre estava consolidado no final dos anos 40. Isso permitia um tráfego cada vez maior de veículos pela estrada para Guarapuava

BR-277: Estrada Estratégica

O trecho oeste da BR-277 também foi conhecido como “Estrada Estratégica”. Não foi possível checar se era apenas uma referência comum, ou se pretendia nomear dessa forma a rodovia. O que se sabe é que, de fato, a estrada fez parte de estratégias federais para a fronteira do Paraná com o Paraguai. A começar pela “Comissão Estratégica” que fundou a Colônia Militar na foz do rio Iguaçu.

No final dos anos 30, um novo olhar para a “Estrada Estratégica” integrou os planos da criação do Parque Nacional do Iguaçu. No ano de 1940, um motorista aventureiro, Maurício Jauquim, que pretendia viajar de Laranjeiras do Sul à Foz do Iguaçu relatou que “no hotel de Jacó Cavagnari” encontrou outro colega “chofer”. De acordo com sua descrição, o colega era motorista do engenheiro que trabalhava no “novo traçado” da então estrada estratégica.

Ângelo Murgel foi o arquiteto das edificações do Parque Nacional do Iguaçu. Em uma palestra no Rio de Janeiro, proferida em 1944, esclareceu ao público sobre as obras em andamento para a implementação do parque. Dentre elas, estava em andamento a rodovia “Laranjeira-Cascavel”. O depoimento de Maurício e a palestra de Murgel indicam o trecho da BR-277 que estava em construção nos primeiros anos da década de 40.

Espionagem nazista

A estrada estratégica também atraiu o interesse de nazistas durante a II Guerra Mundial. Em 1941, um documento do Consulado Alemão solicita informações sobre “firma ou companhia que faz a construção de estradas em Foz do Iguaçu”. Não foi possível compreender o contexto dessa solicitação, mas é, sem dúvidas, uma “peça” de quebra-cabeças da espionagem nazista.

Documento do Consulado Alemão. (Fonte: Acervo do Arquivo Público do Paraná)

Estratégia americana

Como parte dos acordos pelo apoio aos Estados Unidos na II Guerra Mundial, o Brasil recebeu máquinas e equipamentos para construção de obras de infraestrutura. Com base em um relatório de 1943 que destacava a “influência argentina”, um militar americano sugeriu que o equipamento americano fosse empregado em melhorias na rota “from Curytiba to Iguassu”. A meta era afastar a Argentina do oeste do Paraná.

Montagem com partes do documento militar americano. Fonte: Acervo do National Archives and Records Administration (fotografado pelo historiador Dennison de Oliveira, da UFPR).

A ligação Brasil-Paraguai

Nos anos 40 o Brasil e o Paraguai iniciaram um processo de aproximação política. Getúlio Vargas visitou Asunción e assinou uma série de acordos bilaterais. Na década seguinte, a parceria se consolidou com o tratado para construção da ponte entre ambos os países. A Ponte da Amizade era um elo na ligação terrestre de Asunción ao Oceano Atlântico.

Assim como do lado paraguaio chegou uma rodovia ligando a capital do país à Ponte da Amizade, do lado brasileiro a BR-277 se tornou ainda mais estratégica. Seu completo asfaltamento ocorreu em 1969. E, as demandas para essa rodovia ainda persistem. A sua completa duplicação é um exemplo dessas demandas.

A construção rota “Asunción-Paranaguá” foi uma estratégia conjunta do Brasil e do Paraguai. O Paraguai recebeu o reclamado acesso ao mar por via terrestre. O Brasil substituiu a Argentina na influência sobre o país vizinho. Além disso, essa aproximação iniciada nos anos 50 resultou também na construção da Itaipu Binacional e no comércio franco em Ciudad del Este.

Projetos de colonização

Em geral, a abertura de uma estrada leva a uma ocupação do território. Antes da existência de uma estrada regular no final dos anos 40, o problema do difícil acesso por terra trazia dificuldades às iniciativas de atrair novos habitantes para a região. No próprio traçado da BR-277, por exemplo, é possível observar o surgimento de povoados que logo se transformariam nas cidades entre Foz do Iguaçu e Cascavel.

Como sugere o historiador Frederico Freitas, é possível falar em “projetos de colonização ao longo da BR-277”. Portanto, não foi coincidência que a colonização de São Miguel do Iguaçu, por exemplo, tenha iniciado em 1948. Na sequência, Matelândia (1950), Santa Terezinha (1952), entre outros, também tiveram início. Vale destacar que, naquela época, todo o território da BR-277 até Cascavel pertencia a Foz do Iguaçu.

Em abril de 1918, Miguel Matte solicitou ao governo do Paraná uma autorização para localizar e trazer colonos do Rio Grande do Sul “descendentes de antigos colonos estrangeiros”. Na requisição, pedia 50 mil hectares de terras devolutas o mais próximo possível da sede do município de Foz do Iguaçu.

Requisição de Miguel Matte, datada de 1918. Fonte: Arquivo Público do Paraná.

Em 1931, foi publicado em Curitiba um pequeno livro com o título “Foz do Iguassú”. Na capa, a foto das Cataratas. O livro é uma apologia às férteis terras do oeste do Paraná. Pela sua conclusão, sabemos que se tratava de 12 mil hectares e o leitor era quase intimado “rumo, pois, às terras da Foz do Iguassú”.

A rodovia

A estratégica BR-277 completa 57 anos de inauguração do seu completo asfaltamento. Trata-se de uma estrada de inquestionável importância. Por meio dela, os produtos e as pessoas chegam e saem de Foz do Iguaçu e da Tríplice Fronteira. Definitivamente, o acesso terrestre proporcionado pela rodovia encerrou a “era da navegação”, que predominou até os anos 60.

De forma muito acelerada, a estrada de terra tornou-se rodovia asfaltada. Grandes áreas de floresta cederam espaço para terras mecanizadas ou cidades urbanizadas de considerável porte como Foz do Iguaçu e Cascavel. Em menos de 50 anos, pequenos povoados se tornaram cidades. E a rodovia foi central nesse processo.

BR-277 em Foz do Iguaçu
BR-277 em Foz. (Foto: Roger Meireles)

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