Em 1996, o Dr. Saulo Ferreira concedeu uma rara entrevista. Pioneiro do Ministério Público Estadual em Foz do Iguaçu (e no Paraná), o Dr. Saulo explicou que uma viagem de Curitiba a Foz do Iguaçu não era necessariamente um sofrimento. Pelo contrário, pelo Rio Paraná, tanto por São Paulo quanto por Posadas, a viagem era “confortavelmente de navio”.

Ao contrário do conforto proporcionado pela navegação, o acesso terrestre era uma epopeia. Somente de Cascavel a Foz do Iguaçu levava-se 26 horas. Era preciso atravessar rios e, às vezes, até mesmo derrubar árvores que se formavam no caminho. Nos meses mais chuvosos do ano, era simplesmente impossível usar a estrada “carroçável”.

Chegar e sair

Se você fosse um morador de Foz do Iguaçu em 1940, teria motivos diversos para sair da cidade. Em algum momento, ia ser preciso visitar um parente, ir a um evento social (casamento, batizado ou velório) ou até mesmo procurar ajuda médica.

Para isso, basicamente havia três rotas. A mais econômica era também a mais difícil. Era preciso atravessar o “sertão” até Guarapuava de carroça. Dependendo dos animais, do peso e das condições do tempo, a viagem poderia durar duas semanas ou um mês. A Estrada Velha para Guarapuava foi aberta na década de 1920.

A segunda rota foi estabelecida no início de 1900 com o desenvolvimento da navegação a vapor e da ferrovia no Brasil e na Argentina. O embarque para Posadas (Argentina) era feito no Porto Oficial de Foz do Iguaçu ou no porto do lado argentino da fronteira. De Posadas a viagem prosseguia de trem até Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

A Argentina tinha livre navegação no Rio Paraná até Guaíra (as Sete Quedas literalmente impediam a navegação contínua). Essa navegação livre foi possível depois dos acordos pós Guerra da Tríplice Aliança (1870). O Brasil teve permissão para navegar por rios argentinos e ter acesso ao Mato Grosso, em troca a Argentina navegava livremente pelo Rio Paraná.

Conexão São Paulo

Nos anos 40, além da dificultosa rota terrestre e da consolidada rota fluvial por Posadas, uma nova rota passou a ser cada vez mais comum. Semelhante ao trajeto pela Argentina, a rota por São Paulo combinava o uso de navegação e ferrovia. 

O embarque nos vapores argentinos era feito no Porto Oficial de Foz do Iguaçu. Os “navios” (como eram chamadas as embarcações), subiam o rio até Porto Mendes (hoje um distrito de Marechal Cândido Rondon). Os passageiros, então, desembarcavam e seguiam até Guaíra por uma pequena ferrovia construída em 1917 para contornar as Sete Quedas.

Porto Mendes
Estação Ferroviária de Porto Mendes, em Marechal Cândido Rondon, inaugurada em 1917.
Crédito da foto: http://www.estacoesferroviarias.com.br/guaira/portomendes.html

De Guaíra até o Porto Tibiriçá, na cidade paulista de Presidente Epitácio, a navegação era feita em barcos brasileiros – não tão confortáveis quanto os barcos argentinos do trajeto anterior. De Presidente Epitácio, era possível acessar Sorocaba, um importante ramal ferroviário a partir do qual se poderia viajar por trem para outras partes do Brasil.

Os usuários do sistema ferroviário brasileiro conheciam bem os guias Levi. Eram revistas mensais, publicadas de 1897 a 1984 que tinham por objetivo divulgar as rotas ferroviárias e também conectar pessoas e suas necessidades a produtos existentes no parque industrial paulista.
Na edição de julho de 1940, o guia divulgava um serviço de turismo às Sete Quedas e Cataratas do Iguaçu.

Guia Levi de julho de 1940, com trajetos e preços de “excursões” turísticas às Cataratas e Sete Quedas
Crédito da foto: http://www.estacoesferroviarias.com.br/guaira/portomendes.html

Sete Quedas e Cataratas

Nessa série sobre os anos 40, temos argumentado que Foz do Iguaçu se tornou uma cidade turística e “de futuro” a partir dos investimentos federais destinados ao Parque Nacional do Iguaçu. Mais do que a construção das passarelas no entorno das Cataratas, o acesso à cidade foi melhorado com a reforma do Porto Oficial e a construção do Aeroporto.

O Governo do Paraná também investiu pesado em Foz do Iguaçu. Em alguns anos, construiu os principais prédios públicos da cidade: a prefeitura, a delegacia e o Hotel Cassino. Como consequência, também houve ações da iniciativa privada. No mencionado Guia Levi de julho de 1940, a Companhia de Navegação São Paulo-Mato Grosso oferecia um serviço de turismo.

Na propaganda, um mapa ferroviário era utilizado para explicar o acesso às Sete Quedas e às Cataratas do Iguaçu. A ilustração é acompanhada da expressão “excursões completas com partida e volta a São Paulo”. Portanto, nos anos 40, o turismo de brasileiros passou a ser incorporado ao turismo que nos anos anteriores era praticamente vindo de Buenos Aires.

Um detalhe que não pode passar despercebido é que o turismo como atividade profissional se desenvolvia considerando os dois locais: Sete Quedas e Cataratas. Em 1953, o jornal local “A Notícia” reproduziu um trecho de um “Guia rodoviário” que ia ainda mais além. As Cataratas proporcionam um “espetáculo deslumbrante” e as Sete Quedas a “maior catarata do globo”.

O Guia foi um pouco mais longe. Fez menção à possibilidade de visitação às “ruínas da histórica Ciudad Real del Guayrá, estabelecida em 1557 por jesuítas espanhóis e mais tarde destruídas pelos mamelucos de São Paulo”.

Recorte do jornal A Notícia (30/11/1953), reproduzindo informações do “Guia Rodoviário”.

Um turista

Em janeiro de 1942, Paulo Augusto Rockel, um professor de 27 anos foi presenteado com uma viagem à Sete Quedas e às Cataratas. Ele era funcionário da empresa Mate Laranjeira e atuava na cidade de Campanário (hoje imediações de Dourados, Mato Grosso do Sul). A viagem foi uma recompensa pelos serviços prestados.

Rockel era um turista convencional. Não dispunha de muitos recursos financeiros, então não se hospedou no Hotel Cassino. Ficou no “hotel” (que hoje chamaríamos de pousada) de Otávio Vaz. Infelizmente sua viagem teve um final dramático porque ele foi parar na Delegacia de Polícia. Acusado de fazer comentários positivos ao nazismo, foi “fichado” pelo delegado.

O turista não ficou preso e, no mês seguinte, escreveu para Curitiba a fim de pedir que sua ficha fosse excluída dos registros policiais. Na carta, além desse pedido, descreveu como foi a visita a Guaíra e à Foz do Iguaçu. Para ele, Sete Quedas proporcionou uma “impressão indescritível”, enquanto que as Cataratas tinham “muito maior romantismo ainda”. E finalizou: “vale a pena fazer essas viagens”.

Carta do turista Paulo Rockel relatando viagem em 1942.
Fonte: Arquivo Público do Paraná

A principal rota

O rio Paraná seguiu como a principal rota de acesso à região até a conclusão da BR277. Por muito tempo, chegar na Tríplice Fronteira envolvia viagens de trem e de barco. Isso não significa que a viagem tivesse que ser penosa. Pelo contrário, de Guaíra a Foz do Iguaçu, alguns barcos argentinos ofereciam um conforto formidável para a época.

Assim como o Dr. Saulo Ferreira defendeu na entrevista mencionada no início dessa matéria, no Guia Levi havia um destaque para a navegação abaixo das Sete Quedas. No trecho São Paulo-Guaíra, a qualidade dos barcos parecia ser convencional, mas “de Porto Mendes ao Iguassú”, o diferencial era os “confortáveis vapores argentinos”.

Comentários

2 Comentários

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  1. Ótima matéria! Aproveitando o assunto Rio Paraná, sugiro uma matéria sobre o Beira Foz, em que etapa, expectativa de início, etc. Lembrando que o projeto é uma das prioridades elencadas no Acelera Foz. Abraço.

  2. Belo resgate! Sobre a rara entrevista concedida pelo dr Saulo Ferreira, em 1996, eu fui a repórter que conversou com ele. A entrevista foi publicada na Gazeta do Iguaçu. Aliás, engraçadíssimo o episódio. Ele me enrolando e eu ali, sentada do lado, vendo com ele a novela das seis, a da sete… conversando amistosamente, nos intervalos comerciais. E o gravador, ligado. Fim da novela me levantei e ele recomendou que eu voltasse outro dia pra entrevista “porque hoje eu não estou muito animado”. Dei uma risada e avisei, ligando o gravador: “ já tenho a entrevista!”. Ele riu, fez qualquer comentário, e eu voltei pra redação.