As Cataratas do Iguaçu entraram para a história muito antes de se tornarem um destino turístico mundial. Em 1542, uma expedição espanhola liderada por Álvar Núñez Cabeza de Vaca passou pela região quase por acaso. Ele havia sido nomeado governador da Província do Rio da Prata e seguia rumo a Assunção, no Paraguai. Em vez de usar o caminho mais comum, desembarcou no litoral de Santa Catarina e avançou por terra, acompanhado por povos originários.
Foi assim que chegou a um grande obstáculo no caminho: as quedas do rio Iguaçu. Esse encontro foi registrado anos depois em um livro publicado na Espanha, em 1555 — o primeiro relato europeu conhecido sobre as Cataratas. A viagem acontecia em plena “era dos conquistadores”, quando a disputa por territórios e riquezas guiava a ação de espanhóis nas Américas. As quedas eram vistas apenas como um “mal paso”, um desafio a superar.
Mesmo assim, o secretário de Cabeza de Vaca, Pedro Hernández, deixou descrições que reconhecemos até hoje: falou de rochas altas, do barulho forte da água e da espuma que subia no ar. Depois de contornar as Cataratas, a expedição seguiu até a foz do rio Iguaçu, onde hoje está o Marco das Três Fronteiras. Lá encontraram um grande grupo indígena, mas sem confronto. O episódio mais triste da jornada foi a morte de um dos espanhóis, levado pela correnteza do rio Paraná.


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Micael Alvino da Silva – Doutor em História (USP) e Professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Autor do livro Santos Dumont nas Cataratas, publicado pela Editora da Unila e Instituto 100fronteiras
JANEIRO DE 2026
História das Cataratas: Félix de Azara
Quase dois séculos e meio depois de Cabeza de Vaca passar pelas Cataratas do Iguaçu, outro importante representante do Império Espanhol chegou à região. No início de 1780, Félix de Azara recebeu a missão de viajar às fronteiras sul-americanas para ajudar a definir os limites entre as colônias de Espanha e Portugal. Mesmo sem a presença dos delegados portugueses, Azara decidiu cumprir seu trabalho percorrendo rios, matas e cachoeiras.
Nascido no Reino de Aragão e formado em engenharia e carreira militar, Azara passou 20 anos na América do Sul. Tornou-se mais conhecido no Paraguai e na Argentina do que no Brasil, mas seus registros também marcaram a história das Cataratas do Iguaçu. Em seu livro Viagens pela América Meridional, descreveu o rio Paraná, o rio Iguaçu e várias quedas d’água da região. Entre elas, os imponentes Saltos del Guayrá — as futuras Sete Quedas — que o impressionaram profundamente.
Sobre as Cataratas do Iguaçu, Azara destacou três elementos que continuam encantando os visitantes: o barulho intenso da água, a névoa que sobe das quedas e a espuma que forma arco-íris. Comparou o espetáculo natural com os Saltos del Guayrá e até com o famoso Salto do Niágara, avaliando a altura, o volume e as rochas de cada um.
Ao final de sua missão, Azara concluiu sozinho a demarcação que deveria ter sido feita em conjunto com Portugal. Para ele, a demora portuguesa era estratégica, semelhante ao destino que teve o antigo Tratado de Tordesilhas.
Félix de Azara e Cabeza de Vaca deixaram os primeiros relatos das Cataratas — cada um à sua maneira, em épocas distintas. No próximo capítulo, avançaremos quase cem anos para conhecer novos observadores desse cenário extraordinário.
FEVEREIRO DE 2026
História das Cataratas: Alejo Peyret
Quase cem anos após Félix de Azara, o francês Alejo Peyret chegou à região das Cataratas do Iguaçu com uma missão oficial do governo argentino. Intelectual e político, ele deveria estudar a Província de Missiones e indicar locais para futuras colônias agrícolas. Ao viajar pela fronteira, observou um cenário bem diferente daquele visto pelos exploradores coloniais: agora era a divisão entre Argentina, Paraguai e Império do Brasil.
Peyret registrou suas impressões em cartas que depois foram publicadas no livro Cartas de Missiones (1881). Seu relato sobre as Cataratas tem um tom muito mais poético que o de viajantes anteriores. Guiado por exploradores locais, enfrentou embarcações frágeis, neblina, tempestades e a cheia do rio. No trecho final, ele e seus auxiliares caminharam pelas pedras escorregadias até acampar perto das quedas, onde já ouviam o rugido da água.
Ao amanhecer, seguiram viagem e Peyret descreveu o momento em que avistaram uma “nuvem de espuma” iluminada por um arco-íris de “várias cores”, destacando-se sobre a “deslumbrante brancura” da queda d’água.
Mesmo em missão técnica, ele pensou no futuro do turismo. Sugeriu melhorar os acessos e até recomendou que os visitantes levassem um bordão de caminhada, como nos Alpes europeus. Para ele, apenas uma “força coletiva” poderia transformar o local. Peyret acreditava que, com apoio do Estado, as Cataratas seriam visitadas como o famoso Niágara.


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