Há tempos assistimos, perplexos ou resignados, ao embate entre a liberdade de expressão e os limites que uma sociedade democrática impõe a si mesma para preservar a convivência civilizada. Com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal, que formou maioria para responsabilizar redes sociais pelo conteúdo de seus usuários, abre-se mais um capítulo desse enredo tenso, incômodo e profundamente atual.

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É preciso dizer sem rodeios, a internet ainda é, em muitos aspectos, uma terra de ninguém. Mas transformar as plataformas em fiadoras da moral pública, sem critérios objetivos, é um risco que não pode ser subestimado. Estamos diante de um campo minado onde o excesso de liberdade pode virar pretexto para o caos, e o excesso de regulação, uma trilha para o autoritarismo digital.

O argumento central da decisão, o de que as plataformas têm poder editorial e, portanto, responsabilidade sobre o que nelas se publica, é compreensível. Afinal, algoritmos não são neutros, e o alcance das postagens depende, sim, de escolhas técnicas deliberadas. No entanto, extrapolar essa lógica para permitir que governos ou cortes passem a definir o que pode ou não circular, especialmente de maneira abstrata, nos aproxima perigosamente de uma sociedade onde a vigilância se disfarça de virtude.

Não se trata aqui de defender o vale-tudo. Há, obviamente, conteúdos que ferem o pacto democrático, como incitação à violência, racismo, pornografia infantil e golpes contra a saúde pública. O problema é quando o conceito de “desinformação” se torna elástico, moldando-se aos humores políticos do momento. O que hoje parece justo, amanhã pode ser usado para silenciar dissensos incômodos, sobretudo os que desagradam quem está no poder, qualquer poder.

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A regulação do espaço digital deve existir, sim, mas precisa ser construída com base em princípios universais, ampla participação da sociedade civil e garantias explícitas de que a liberdade de expressão não será suprimida sob o manto da boa intenção. Quem decide o que é verdade? Quem garante que a régua usada para o outro não será usada, mais adiante, contra si mesmo?

A democracia, e repito o que já escrevi em outros contextos, é barulhenta, imperfeita e, às vezes, irritante. Mas não há alternativa melhor. E isso inclui tolerar opiniões abjetas, desde que não transbordem para a violência. Não se defende a liberdade para o que se gosta, ela só existe de fato quando vale também para o que nos desagrada.

Entre o código das plataformas e o silêncio imposto por decisões judiciais, cabe ao cidadão vigiar com olhos abertos. Nenhum algoritmo pode substituir o senso crítico, nenhuma Corte deve substituir a consciência coletiva, e nenhuma democracia sobrevive sem o ruído necessário da divergência.

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João Zisman, economista com pós-graduação em Ciências Políticas e Gestão Pública, é jornalista por profissão. Natural de Recife-PE, tem 57 anos e vive em Brasília há mais de 30 anos. Pai de quatro filhos e avô de uma neta, Zisman combina sua experiência de vida com décadas de atuação em comunicação e marketing, destacando-se na criação de estratégias que combinam planejamento apurado e execução eficaz. Como jornalista político e analista, desenvolveu uma capacidade de traduzir cenários complexos em narrativas claras e assertivas, sempre alinhadas aos objetivos de seus projetos.

No setor público, atuou como assessor especial do Ministro da Ação Social e da Casa Civil da Presidência, além de ter colaborado diretamente com o vice-governador do Distrito Federal. Atualmente, é assessor especial na Secretaria de Relações Internacionais do DF, onde contribui para ampliar as conexões institucionais e promover parcerias estratégicas, fortalecendo a visibilidade e os projetos da capital. Essa vivência lhe proporcionou uma compreensão das dinâmicas entre o setor público e a iniciativa privada, qualificando sua atuação em diversos cenários.

Ao longo de sua carreira, Zisman também acumulou passagens relevantes pelo rádio e pela televisão, onde foi âncora, comentarista e produtor de conteúdo. Essa experiência o conectou a um público diversificado e reforçou sua habilidade em comunicar de forma eficiente e adaptada a diferentes meios e contextos.

Sua experiência em comunicação é complementada pela habilidade em gerenciamento de crises, um diferencial importante que permite antecipar cenários, mitigar impactos e preservar reputações. Com uma visão estratégica apurada, Zisman também se destaca pela capacidade de identificar oportunidades em meio a desafios, desenvolvendo soluções inovadoras e práticas. Seja na análise de contextos políticos ou na execução de ações de comunicação, seu trabalho é orientado por resultados que equilibram inovação, eficiência e pragmatismo.

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