Nesta semana, presenciei em um consultório médico uma cena que traduz, com simplicidade, a complexidade linguística da vida na fronteira. A paciente falava espanhol, seu acompanhante se expressava em guarani misturado com espanhol, e a secretária respondia em português. Cada um utilizava sua própria língua e, ainda assim, todos se entendiam.
A comunicação foi fluida e ninguém precisou traduzir. Este episódio revela o que já faz parte do cotidiano em Foz do Iguaçu: o encontro constante entre línguas, culturas e modos de falar. Trata se de um verdadeiro ato translíngue, um continuum linguístico que não respeita fronteiras rígidas, mas se constrói na prática, na convivência e na necessidade de comunicação no cotidiano da cidade. A mistura de línguas não é um fenômeno novo nem exclusivo das regiões fronteiriças. A história mostra que os idiomas sempre se influenciaram mutuamente, de uma forma ou outra e nesta coluna já comentamos em varias oportunidades sobre as influencias das línguas.
O historiador Peter Burke lembra que línguas africanas contribuíram com inúmeras palavras ao português, como orixá e quilombo, o que chamamos do pretugues, por exemplo, na influencia das línguas africanas no português. O contato entre a Europa e o mundo muçulmano introduziu termos árabes como bazar, harém, sultão e muezim. No Mediterrâneo, comerciantes utilizavam a chamada língua franca, uma combinação de veneziano, árabe, português e outros idiomas. A verdade é que vivemos entre línguas, porque a vida e linguagem.
Basta observar os cartazes da cidade, ouvir as conversas nas ruas ou entrar em qualquer espaço público. A cidade pode ser traduzida em muitas línguas e essa diversidade não é um problema, mas uma riqueza fundamental para o crescimento da região, inclusive pensando na integração regional entre as fronteiras. Eu mesma conheço poucas palavras em guarani, mas todas aprendi no cotidiano da fronteira, na escuta atenta de conviver em um espaço diverso. O nome da nossa cidade, Foz do Iguaçu, assim como Puerto Iguazú e as Cataratas do Iguazú, tem origem guarani.
As línguas carregam histórias, memórias e significados, não são apenas palavras vazias. Misturar línguas é natural. As línguas estão em movimento, assim como as pessoas que as falam, circulamos, trocamos experiencias e também significados. Na fronteira, aprendemos que comunicar-se é também conviver, negociar sentidos e reconhecer o outro. Só é preciso saber olhar e aprender a nos escutar.
As línguas de Foz de Iguaçu




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