Como começou sua atuação na área do patrimônio histórico?
Em 2018, fui designada para atuar como parecerista histórica devido à minha formação em História. A cidade ainda não possuía um setor exclusivo de patrimônio, então foi firmado um acordo de cooperação entre secretarias. Desde então, atuo ao lado da Diana, parecerista arquitetônica. Nosso trabalho é regulamentado pela Lei Municipal 4.470/2016.
O que a Lei 4.470 prevê, além da emissão de pareceres?
Ela estabelece que o município também é responsável por promover a educação patrimonial, tanto nas escolas quanto na comunidade. Em 2025, implementamos o Programa de Educação Patrimonial, focado inicialmente nos alunos do 3º ano. Desenvolvemos um circuito guiado pelo centro histórico, integrando história, geografia e arte.
Qual o objetivo desse programa?
Queremos que as crianças conheçam a história da cidade, desenvolvam o sentimento de pertencimento e entendam que Foz também é delas. Muitas são migrantes ou filhas de migrantes e não conhecem nem o centro da cidade. Então ver um prédio histórico, entender seu contexto, desperta nelas a identificação com o espaço e consequentemente um orgulho pela história.
E como está o andamento dos tombamentos no município?
De 24 pedidos de tombamento já realizados, 14 processos foram concluídos. Apenas dois prédios estão oficialmente escritos no Livro do Tombo: o Obelisco das Três Fronteiras e a antiga Câmara Municipal. O Colégio Bartolomeu Mitre também está para ser inscrito no livro tombo. Outros, como o prédio da Fundação Cultural e o Teatro Barracão, já estão homologados, aguardando apenas a inscrição formal.
A população compreende o que é o tombamento?
No início, não. Havia muito preconceito e desinformação — as pessoas achavam que iriam perder seus imóveis. Na verdade, o tombamento traz benefícios, inclusive tributários, e não impede o uso do imóvel. A manutenção é permitida, desde que acompanhada pelas instruções técnicas do CEPAC.
Quais os critérios para tombar um bem?
O principal é o valor histórico para a comunidade. O bem precisa ter uma singularidade, algo que o torne especial e representativo. Todos os critérios seguem as diretrizes do IPHAN, da Constituição Federal e da Lei Municipal 4.470.
Como funciona o processo de tombamento?
Qualquer cidadão pode protocolar um pedido. Não precisa apresentar levantamento histórico prévio. Após a solicitação, fazemos a análise técnica e encaminhamos para o CEPAC, que delibera sobre o tombamento. Atualmente, o tempo médio de tramitação é de três a quatro meses.
O programa também visa formar professores e atender outros públicos?
Sim. A partir do segundo semestre, iniciaremos formações continuadas com professores, para ampliar o circuito para além do centro — incluindo lugares como a Aldeia Arapy, quilombos, o Parque Nacional, entre outros. Também receberemos em agosto visitas de agentes da Guarda Municipal, que participarão de formações técnicas.
Existe a intenção de transformar o centro histórico em ponto turístico?
Sim. Sugerimos a criação de um centro histórico turístico, nos moldes de cidades como Paraty e Ouro Preto. Também estamos desenvolvendo folders e pretendemos instalar totens informativos nos pontos históricos, para orientar moradores e turistas, em um segundo momento.
Quais os maiores desafios enfrentados?
O principal desafio ainda é a falta de verba para restauração, sinalização e expansão das ações. Outro ponto é a desinformação histórica: muitos documentos foram perdidos ou descartados e as histórias dos pioneiros se perdem com o tempo. A preservação exige também um trabalho contínuo de memória e escuta da comunidade.
Onde geralmente você encontra os dados relevantes sobre a história da cidade, para nortear seu trabalho?
Cerca de 90% das informações sobre a história de Foz do Iguaçu eu encontrei na Revista 100fronteiras, com base nas reportagens que vocês produzem. Os conteúdos são confiáveis, completos e serviram de ponto de partida para localizar fontes e embasar pareceres. Vocês são, de fato, uma ferramenta valiosa para a preservação da história local.
E quanto ao patrimônio imaterial? Há avanços nessa frente?
Ainda não houve pedidos oficiais, mas pretendemos avançar nisso. Festas, tradições e saberes populares, como as festas juninas, fazem parte da memória coletiva e merecem ser reconhecidos. É um campo muito rico a ser explorado.
Como você define a importância desse trabalho para a cidade?
Com uma frase que resume nosso propósito:
“Educar para o patrimônio é educar para o cuidado, para a valorização da memória coletiva e para o respeito à diversidade cultural.”
Nosso trabalho é integrar histórias, formar cidadãos conscientes e fortalecer a identidade de Foz do Iguaçu, respeitando suas raízes e multiplicidade.


.gif)