Todo dia a rotina se repete. De manhã eu levanto, tomo banho, me visto e vou, alegremente, trabalhar no Grupo 100fronteiras. Ao chegar, saúdo meus colegas: duas moças estagiárias oriundas de Foz do Iguaçu, uma pernambucana, um paranaense negro não retinto, um paulistano branco hispânico e, claro, meus superiores: Lilian, uma paraguaia casada com Carlos, um gaúcho de ascendência alemã e Denys, um iguaçuense da Tríplice Fronteira (como ele mesmo menciona em sua rede social), fruto do amor desta paraguaia e deste gaúcho.
Como aprendo com todos eles! Somos diferentes em origens e vivências sociais, iguais em propósito: desenvolver um trabalho de excelência de mídia e comunicação que valorize a diversidade presente na Tríplice Fronteira e se mostra em nós. Em nossa micro diversidade o preconceito não tem vez, tampouco o racismo. Isto falo com propriedade, pois como mulher negra, da Baixada Fluminense (meritiense, pra ser mais exata), vascaína – com orgulho de torcer pra um time cuja bandeira é o respeito, igualdade e inclusão e que foi um dos primeiros no Brasil a admitir negros, pois futebol era esporte de elite no começo do século XX -, de origem periférica, que conhece e sofreu na pele o racismo, afirmo que nunca fui tratada com diferença e abuso de poder por meus superiores e fico muito tranquila por trabalhar em um lugar cujas competências profissionais importam mais que minha aparência.
Muitas pessoas não compreendem o peso de um Dia da Consciência Negra, pois acreditam que todas as etnias devem ser celebradas. Não é errado, mas trazemos à tona este dia porque, devido aos casos crescentes de racismo no Brasil e, considerando que pouco mais de 55% da população brasileira é negra (IBGE, censo de 2022), vale mencionar que apenas uma abolição da escravatura não bastou, pois todo o processo após este ato foi muito prejudicial, socialmente. A liberdade carregou consigo problemas sociais que até hoje são vistos: a marginalização e a exclusão de uma expressiva parcela da população que não teve direito a escolas, que mesmo depois da escravidão continuou apanhando (lembremos da Revolta da Chibata [1910] e seu líder, o Almirante negro, Marinheiro João Cândido Felisberto), que tiveram sua cultura criminalizada com a Lei da Vadiagem (1890) sem direito à liberdade de expressão, sem direito a qualquer pedaço de terra, fora outros exemplos de exclusão social.
Na capital do (ex) império, Rio de Janeiro, a república prometia trazer novos ares (novos?). Havia uma questão social e urbana a resolver. O que foi feito? Uma politica de urbanização que impulsionou a favelização da cidade do Rio de Janeiro; um projeto de urbanização do prefeito Pereira Passos (1902-1906), cuja proposta deixaria o Rio de Janeiro com a cara de Paris: alargando avenidas e acabando com cortiços na zona central da cidade. Com a expulsão, pessoas foram obrigadas a ocupar outros territórios não planejados, como as encostas dos morros. De uma prática não fiscalizada nasceu a favela: sem infraestrutura, sem assistência, apenas a vontade de sobreviver e resistir. Ao longo dos anos as políticas públicas não se preocuparam em resolver tais questões porque, simplesmente, era conveniente “esquecer” que havia outras pessoas que necessitavam de estrutura. E essas pessoas, em sua esmagadora maioria, eram negras.
Engana-se quem pensa que nós, negros, queremos diferenças. Ao contrário! Queremos união e respeito! A cor da pele não define o indivíduo, embora haja uma elite classista que, antes de conhecer, julga pela imediata leitura fenotípica baseada em suas ideias preestabelecidas a respeito do que é o negro no Brasil: meros reprodutores, trabalhadores sem valor, ignorantes, etc.
Em Foz do Iguaçu somos menos de 10% de negros/pardos. A multiculturalidade local da qual nos orgulhamos não freia as práticas e o pensamento racista das instituições ou pessoas. É só conversar com qualquer negro que possua algum letramento racial para perceber que a realidade é cruel e o racismo está no pensamento do amigo ao lado. Me considero uma pessoa de sorte por ter encontrado aqui empregadores que valorizam minhas competências curriculares, pois não é o que acontece com frequência. Ainda há muito o que fazer para que a população negra encontre a devida dignidade, não apenas nas políticas públicas, mas no modo de vida: a tranquilidade de não ser visto como “mais um marginal” e que tenhamos, todos, a chance de sermos reconhecidos por nossos bons feitos laborais, sociais e culturais. Temos logrado ótimos exemplos de pessoas aqui em Foz do Iguaçu que atuam na causa antirracista e celebramos estas atuações de impacto a favor de uma sociedade justa.
Mencionando o pastor e ativista Martin Luther King: “I have a dream” (Eu tenho um sonho). Pouco mais de 60 anos após estas palavras serem proferidas e ganharem o mundo inteiro, eu compartilho do mesmo sonho: o dia que nossa sociedade evolua a ponto de sermos todos vistos com humanidade, iguais e que alcancemos a maturidade social de nos reconhecermos como semelhantes e próximos, sem qualquer sentimento de superioridade ou subjugação. E que vivamos, verdadeiramente, sem preconceitos, sem fronteiras!
“Ebony and ivory live together in perfect harmony
Side by side on my piano keyboard, oh Lord, why don’t we?” (Ebony and Ivory, canção de Paul McCartney e Stevie Wonder)



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