Voos na Tríplice Fronteira

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Por: Fábio Canhete

Fotos: Rogério Avelino, Fábio Canhete e Roger Meireles

O cenário do mundo da aviação no Brasil está bem volátil nestes últimos meses. É possível, por exemplo, que quando você ler este texto muita coisa tenha acontecido e o cenário mudado, como a questão da cobrança de bagagem. Outro ponto é em relação à liberação para que controladores estrangeiros possam ter companhias aéreas no Brasil. A empresa que saiu na frente foi a Air Europa, que solicitou permissão para realizar voos domésticos no país. Vamos voltar a falar nesse assunto no decorrer do nosso texto.

Em meio ao mar de novidades, a “quebra técnica” da Avianca Brasil mexeu com o setor; uma companhia aérea que aos poucos vai sumir acabou abrindo lacunas e deixando o mercado mais concentrado neste momento.  E o reflexo está vindo no bolso do passageiro, afinal menos concorrência, maiores os valores. O preço das passagens aéreas nas principais rotas da companhia já registrou alta de até 140%.

Um levantamento da Voopter, plataforma que faz comparação de preço de bilhetes, mostra por exemplo que o trecho entre os aeroportos Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e de Salvador foi o que teve a tarifa mais elevada entre as rotas analisadas. O valor médio da passagem passou de R$ 574,14, em abril de 2018, para R$ 1.377,32, no mesmo mês deste ano – um aumento de 139,89%.

Foz do Iguaçu também teve seu volume de pousos e decolagens afetado com a saída da companhia, pois três voos diários pararam de operar no aeroporto. Em meio a tudo isso, o trade turístico correu para reverter o prejuízo e conseguiu garantir novos voos para repor a oferta. Negociações com a Azul Linhas Aéreas e com a Gol irão ampliar a conectividade com Guarulhos, na região metropolitana da capital paulista.

O nosso aeroporto pegou carona na política de redução do ICMS do querosene de aviação no estado de São Paulo. Estima-se que, com a redução 25% para 12%, em 1º de junho, tenha aumentado em mais de 400 voos por lá.

Falando em ICMS, no Paraná, em 2014, houve uma mudança na política desse imposto, que subiu de 12% para 18%, e o efeito foi imediato, com queda no número de voos, principalmente para Curitiba. Antes, três companhias faziam o trecho diariamente; atualmente só a Azul mantém, com a Latam fazendo um voo semanal.

Em contrapartida, o estado adotou uma estratégia para ampliar voos regionais: reduziu o ICMS sobre o querosene de aviação em dois pontos percentuais a cada nova rota criada nos aeroportos do Paraná. O incentivo fiscal vai até o limite de 8%.

A política escalonada está sendo o filé-mignon para a Azul Linhas Aéreas, porque com esse subsídio ela diminuiu os custos nas bases tradicionais como Foz do Iguaçu, Curitiba, Maringá e Londrina, e hoje voa sozinha para os municípios de Pato Branco, Cascavel, Toledo e Ponta Grossa. Quer chegar ainda a Umuarama em breve e estuda Guarapuava. Em cidades sem concorrência, ela pratica os preços que lhe convém, ou seja, você tem a comodidade de ter um aeroporto ao seu lado, mas precisa pagar por isso hoje.

Atualmente a alíquota está em 16% em geral, porém existe a promessa da atual gestão do Governo do Estado para diminuir esse percentual em troca de mais conectividade. Em entrevista a um site do setor turístico, o vice-governador do estado, Darci Piana, afirmou que já há conversas nesse sentido. “Estamos em fase final de negociação com as companhias aéreas para baixarmos o ICMS sobre o QAV”, explicou.

Flexibilização de capital estrangeiro

O principal argumento pela liberação de capital estrangeiro no controle acionário das empresas aéreas é tentar estimular a vinda de novas empresas e consequentemente aumentar a concorrência. Com mais companhias no mercado, a ideia é que o preço caia. Agora há a possibilidade da vinda de companhias chamadas low cost, de baixo custo, nas quais os custos do bilhete são pequenos e todo e qualquer serviço, como remarcação de assentos, comida, entre outros, é cobrado à parte de quem voa.

Na Europa essas empresas viraram febre, e o preço da passagem aérea é bem mais em conta. Isso aumentou a oferta e fez grandes empresas tradicionais se “mexerem”; algumas criaram subsidiárias de baixo custo para concorrer no mercado bem disputado.

Na Argentina, por exemplo, depois da flexibilização, houve uma “explosão” de empresas que mexeu com o mercado de lá. E elas já começam a olhar perspectivas para o Brasil. A Norwegian europeia deve iniciar neste ano fazendo a ligação do Galeão a Londres. Este será o primeiro voo low cost intercontinental no Brasil. A Virgin Atlantic segue o mesmo caminho.

Talvez enquanto você lê esta matéria o leque de interessados já seja muito maior, e a Terra das Cataratas deverá beneficiar-se disso. Além do mais, essas empresas optam por rotas “secundárias” e aeroportos com taxas menores.

A antiga base aérea da região metropolitana de Buenos Aires virou o paraíso das empresas de baixo custo. Foi criado um terminal de passageiros no aeroporto El Palomar que se transformou em hub (ponto de conexão) da Flybondi e também da JetSmart Argentina. Custos menores tendem a se refletir no preço do bilhete aéreo.

Essas empresas adoram operar em destinos turísticos. Puerto Iguazú, na Argentina, foi atendida durante anos somente por duas empresas: Aerolíneas Argentinas e Latam. Agora as companhias de baixo custo entraram com tudo no mercado do país, e o aeroporto da cidade vizinha já conta com a Norwegian, Flybondi e Andes (e em breve a JetSmart), que abriram um leque de opções.

Por falar em Puerto Iguazú, lá eles têm muito o que comemorar com a ampliação da pista e do terminal de passageiros. Saem na frente. E neste ano iniciam as operações da Air Europa em Puerto Iguazú. Inicialmente era para ser em um voo triangular com Montevidéu, no Uruguai, mas a empresa refez o planejamento e agora o voo será com Assunção, no Paraguai. Isso gera uma grande expectativa porque será a única conexão direta com a Europa.

Já o nosso terminal em breve ficará novo em folha, mas precisa de uma pista maior. Interesse de voos maiores há e é o que garante o secretário de Turismo de Foz do Iguaçu, Gilmar Piolla. Nossa cidade tem uma localização estratégica que propicia conexões com outros países latino-americanos. Voos para Santiago, Montevidéu, Assunção, Santa Cruz de La Sierra, e quem sabe até Miami, podem tornar-se viáveis, contudo ainda é preciso diminuir o custo da taxa de embarque por passageiro. Classificado como aeroporto de Categoria 1, a taxa internacional por pessoa é de R$ 115,82, enquanto para um voo nacional o preço é de R$ 32,95.

Está em trâmite o Projeto de Lei nº 5070/2016, que prevê um tratamento tarifário igualitário entre voos domésticos e internacionais que tenham como origem ou destino cidades gêmeas fronteiriças – aquelas localizadas uma ao lado da outra, mas em países diferentes. Ou seja, tarifas menores, opções maiores. O projeto ainda precisa ser analisado em caráter conclusivo pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), entretanto os ventos estão favoráveis.

Volta e veto da liberação da bagagem

Em meio a discussões no Congresso, foi revertido o processo que cobrava o despacho de bagagem. No passado essa taxa foi anunciada como um benefício ao passageiro que previa queda nos preços, o que não aconteceu. De acordo com os números da ANAC, ano passado o país teve aumento de 1% na média de valores tarifários, ficando em 374,12. No mesmo período, as aéreas lucraram R$ 1 bilhão com a cobrança de malas e marcação de assentos. Apesar da aprovação pelo Congresso Nacional, o presidente Jair Bolsonaro vetou a gratuidade das bagagens, ou seja, a cobrança continuará.



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


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