Vila A Foz do Iguaçu- O bairro que é quase uma cidade

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Foz do Iguaçu na década de 70 não tinha tanta notoriedade na mídia. Com pouco menos de 60 mil habitantes, a cidade procurava uma identidade. Com a chegada da Itaipu, um grande projeto de habitação foi estabelecido. Foz do Iguaçu dobrou de tamanho e com a conclusão das três vilas a cidade ganhou mais de 40 mil novos moradores, mais do que a população de cidades vizinhas Em 26 de fevereiro de 1975 as Vilas foram construídas. A primeira foi a Vila C, depois a Vila A que foi dividida em 3 partes: Vila A 1,  que começa na Rua Garibaldi até Hildemar Leite França; Vila A 2, que vai da Rua Hildemar até a Avenida Paraná; Vila A 3, que vai da Av.Paraná até a Av.Tancredo Neves e, por fim,  a Vila B. A Vila A foi construída como vila intermediária para os técnicos de nível médio, a Vila C abrigava os trabalhadores com cargos mais baixos e a Vila B foi montada para os trabalhadores da engenharia e chefia. A distribuição das casas era feita a partir da função dos funcionários. A Vila A teve 20 modelos diferentes, com casas de 2 a 3 quartos para atender diversos tipos de barrageiros. A regra era simples: quanto maior o cargo, melhor a moradia. A Vila C era a maior na época, com 2900 casas; a Vila A com 2.200 e a Vila B com 221. Quando as Vilas surgiram Foz do Iguaçu não tinha condomínio fechado, as Vilas foram uma novidade, parecia uma outra cidade com a estrutura e organização já existentes.

Por Silvio Meireles

Vila A

Nem todas as Vilas tinham o mesmo desenho. A Vila A ficou com hospital, escola, parques, comércios, quadras de esportes e bancos. Havia tudo o que fosse necessário para o funcionário não se afastar do bairro. O casal, Dilto e Elisabeti moram na Vila A há mais de 20 anos, ele é funcionário aposentado da Itaipu e já é proprietário da casa em que mora. Eles frequentam o Gramadão há 5 anos para caminhar e descansar. Ele afirma que o espaço é muito bom para o lazer, tem muito verde e ar puro.  O casal gosta muito de morar no bairro. “É um lugar muito tranquilo. Antes aqui era uma vila residencial, hoje é um grande e importante bairro de Foz do Iguaçu”. Ele diz que quase não precisa se afastar, pois tem de tudo. Com tantas vantagens, o casal nem pensa em sair de lá.

José Sérgio Pereira, 49 anos, também é da Vila A, já mora com a família no bairro há 12 anos, e todo esse tempo na mesma casa. Ele diz que não conseguiu comprar a moradia e paga aluguel, pois como não trabalhou na Usina, não tem prioridade de compra. “Tenho muita vontade de comprar, desde o dia que cheguei aqui, mas isso ainda não foi possível e nem sei quando isso poderá acontecer,” lamenta. Alguns vizinhos mais antigos de Sérgio nunca conseguiram comprar a morada. Algumas estão abandonadas há anos, como a casa vizinha à dele, que há seis anos está jogada às traças. Para ele, o bairro é um dos pulmões de Foz, é um lugar tranquilo e gostoso de morar. Ele e a família esperam ficar por lá ainda um bom tempo.

Jandeci Agripino da Silva

Aos 73 anos, o ex-barrageiro de Itaipu esbanja energia. Antes de vir para Foz do Iguaçu ele trabalhou na usina de Ilha Solteira, no Estado de São Paulo. Em 1980, ele estava de mudança para outra usina em Paranaguá. Mas, antes de ir, atendeu ao convite de amigos para visitar a Itaipu e conhecer as condições de trabalho. Quando conheceu a oferta de Itaipu, ele comparou e achou que estava melhor do que a usina de Guarapuava e já ficou por aqui. Depois, a empresa trouxe a família dele para Foz. Aqui ele trabalhou como desenhista. O engenheiro fazia os cálculos e o desenho era feito por Sr. Jandeci. “Quando cheguei, só era escavação e pedra”, lembra. Ele é morador da Vila há 30 anos. Antes de morar na Vila A, ele e a família já estavam acostumados com o estilo de moradia, pois já haviam residido em duas vilas de diferentes usinas pelo Brasil. Quando chegou a Itaipu, a usina estava lotada, não havia moradia disponível. A empresa alugou uma casa para ele. Depois de 3 anos abriu uma vaga na área, na vila do lado paraguaio. Depois de 3 anos no país vizinho, ele recebeu a notícia que iria mudar para Vila A em Foz, novidade que lhe causou muita alegria. Jandeci diz que foi melhor interagir com os vizinhos nas vilas do lado paraguaio do que do brasileiro. “As pessoas eram mais amigas”. A vida na vila era segura e tranquila, ele se diz privilegiado por fazer parte da história da Usina e que não se arrepende de nada, faria tudo novamente.

Sem limites de velocidade na Vila A

Os eventos esportivos de nível internacional não são uma novidade em Foz do Iguaçu, poucos sabem que a Vila A foi palco de corridas.  A Fórmula Ford teve a região Trinacional como cenário. A Itaipu apoiou a corrida, em 1989, permitindo o evento nas ruas da Vila A. As pacatas ruas, que antes passavam pedestres, carros e ciclistas, foram interditadas para a passagem dos carros mais velozes da época. Os proprietários das casas em frente às ruas que viraram pistas tiveram o privilégio de assistir às corridas de camarote, da varanda ou da calçada de casa.  E, esse não foi um evento de categoria amador. No asfalto da Vila, correram grandes nomes do automobilismo mundial como: Christian Fittipaldi e Rubens Barrichello.

Velocidade limitada na Vila A

Quem nunca foi para as ruas tranquilas da Vila A aprender a dirigir? É difícil achar uma motorista que tirou carteira em Foz e que não visitou o bairro para umas aulas práticas. A procura é tanta que alguns lugares já estão preparados para isso, com barreiras para baliza e sinalização adequada. Com clima agradável, sem trânsito e com muito espaço, as ruas de lá são salas de aulas para novos motoristas.

O Gramadão
                         

Um dos poucos lugares de lazer e eventos na cidade. O local reserva uma boa estrutura para eventos gratuitos. Por lá já passaram os melhores cantores brasileiros.  O Gramadão não é só ponto de referência, mas também um lugar de lazer para a família. Mesmo sem shows, é frequentado por moradores que fazem piqueniques, levam as crianças para brincar ou praticar esportes. É possível, também, correr um pouco, usar a academia ao ar livre e depois tomar uma água de coco geladinha. Com o movimento de visitantes, diversos vendedores de alimentos se instalaram no acostamento.

As pessoas que frequentam o espaço podem sempre encontrar o “Tio do coco”, de 60 anos de idade, trabalhando todos os dias por lá. Há quatro anos ele serve aos visitantes com coco vindo direto do nordeste. Ele liga o rádio da caminhonete, arma uma rede azul e espera a clientela, que logo aparece.  “Tio do coco” diz gostar muito do que faz, pois tem contato com muita gente todos os dias e se alegra em fornecer o produto que hidrata os frequentadores.  “Eu adoro estar aqui neste ambiente saudável e bonito”. O espaço é aberto a todos, sem distinção. Além de shows com bandas locais e nacionais de diferentes ritmos, o palco serve também para eventos religiosos e festas sociais.

Mudança na cultura da Vila

No ano de 2003, a Itaipu Binacional começou um programa de vendas das casas para os funcionários, o que deu início as modificações. Os que compraram, deixaram a casa como queriam, aumentaram o espaço interno e alteraram a fachada, foi o início da descaracterização das Vilas. A vila C tinha um destino diferente, ela foi feita para ser destruída após a conclusão das obras e não permanecer como bairro. Um grande parque iria substituir as moradas. Mas, como o Brasil estava em crise na área da construção civil, muitos barrageiros não tinham para onde ir. E, por isso, ficaram em Foz. Foi nesse momento que a Usina desistiu do projeto de lazer para a região. Logo em seguida, as casas na Vila A foram disponibilizadas e por último as da Vila B. Hoje, é possível comprar casas nas vilas, mas a prioridade é para funcionários, considerando, ainda, que eles só podem negociar com terceiros depois de 30 meses da data de aquisição legal. Alguns trabalhadores ainda não compraram as que moradias em que residem. Com a chegada de novos moradores que não trabalharam na Itaipu, o clima foi mudado. Antes, eram companheiros de trabalho que interagiam na Usina, normalmente vizinhos. Posteriormente, com as vendas de casas, pessoas de diferentes profissões se instalaram no local, o que ocasionou uma mudança no clima do Bairro. Os novos moradores não conheciam o contexto das Vilas e não se misturavam com os antigos residentes. Surgiu um novo hábito: a construção de muros, cada vez mais altos.

Um lugar rico em natureza

Quem mora na Vila A até já se acostumou com o clima de floresta que o bairro possui. Moradores afirmam que até mesmo no verão escaldante o clima de lá é mais fresco. Durante o anoitecer, uma variedade de aves dá vida ao céu da Vila à procura de árvores para dormir. As mais altas já são moradas de papagaios e periquitos, que fazem uma sinfonia quando chegam e saem. Em alguns pontos o verde é predominante, milhares de metros quadrados de muito verde oferecem trilhas, com direito a cachoeiras e cânion.

Por: Silvio Meireles @ Imagens: Silvio Meireles












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