Veganismo: um estilo de vida saudável

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Por: Patrícia Buche

O consumo de carnes existe há milhões de anos, e essa “paixão” pelo alimento é algo que está no cardápio da maior parte das pessoas mundo afora. E para alimentar essa população, cerca de 70 bilhões de animais terrestres são mortos anualmente, conforme dados do site sejavegano.com. No Brasil, a mesma fonte informa que mais de 90 animais são mortos em apenas um segundo. Segundo um levantamento feito em 2017 pela OCDE (Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil é o sexto maior consumidor de carnes do mundo, com cerca de 78 quilos de carne per capita ao ano. A produção de carne bovina é a segunda maior do planeta, com 9,5 milhões de toneladas, atrás apenas dos EUA, que produzem 12,08 milhões de toneladas, conforme destaca o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

E é com base nesses fatores e em tantos outros que muitas pessoas estão deixando de consumir produtos de origem animal e aderindo à dieta vegana, aquela isenta de qualquer alimento derivado de animais. Essa filosofia inclui também evitar artigos de vestuário que contenham peles e desaprovar a exploração animal para qualquer fim. “Eu tinha sido vegetariana por quase um ano, na adolescência, mas não sabia comer direito e acabei deixando de lado. Em 2014, descobri intolerância à lactose e alergia à proteína do leite e parei com laticínios em geral. Dois anos depois, fiquei muito doente e não conseguia mais comer carne vermelha. Achei que era a deixa para retomar o desejo antigo de não comer mais animais e parei por completo. Mudou não só minha alimentação, mas o estilo de vida e a relação com os animais e com a natureza”, relata a jornalista Stela Guimarães, de 41 anos e vegana há quatro.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo IBOPE Inteligência em abril de 2018, encomendada pela SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira), 14% da população brasileira se declara vegetariana. Os quase 30 milhões de vegetarianos representam aumento de 75% em comparação com a mesma pesquisa feita em 2012.

Além de contribuir para a preservação animal, o estilo vegano também traz grandes benefícios à saúde, pois consiste em uma dieta rica em fibras e proteínas, conforme destaca a nutricionista especialista em nutrição vegana Clarice Piacentini de Andrade Mitrano. “A alimentação de um vegano deve ter como base o consumo de hortaliças, verduras, frutas, oleaginosas, leguminosas e cereais integrais, preferencialmente todos orgânicos. O consumo de industrializados deve ser esporádico, assim como o consumo de açúcares, frituras e álcool, sobretudo aqueles com carências nutricionais”, destaca.

Os nutrientes para se ter maior cuidado são: cálcio, ferro, zinco, cromo, vitamina D, vitamina B12 e ômega 3.

Focada na alimentação vegana, Stela leva hoje uma vida bastante saudável. “Minha qualidade de vida melhorou muito porque procuro saber a procedência de tudo o que como e sou mais saudável. Meus exames comprovam isso. Só reponho vitamina B12 duas vezes por ano. Em relação às proteínas, nunca precisei repô-las artificialmente, pois elas nunca ficaram abaixo do normal; muito pelo contrário, elas são sempre altas, e raramente fico doente. Hoje minha alimentação é à base de grãos, sementes, verduras, cogumelos e frutas, e não sinto falta alguma do sabor das carnes”, declara.

Entre as principais vantagens da alimentação vegana, a nutricionista Clarice destaca:

– Maior consumo de alimentos antioxidantes:  aumentam a imunidade, retardam os efeitos do envelhecimento e combatem os radicais livres;

– Maior consumo de fibras: melhoram o funcionamento gastrintestinal, previnem patologias intestinais e reduzem os níveis de colesterol e de triglicerídeos;

– Maior consumo de fitoquímicos e substâncias bioativas: combatem radicais livres, aumentam a imunidade e previnem o câncer;

– Menor consumo de industrializados: por esse motivo a sua alimentação é mais saudável, baseada em alimentos in natura e minimamente processados;

– Menor acúmulo de gordura visceral: a gordura visceral predispõe a doenças coronarianas, resistência à insulina, hipertensão arterial, aumento das taxas de colesterol e triglicerídeos, maior acúmulo de gordura ao redor do fígado, entre outros fatores.

No entanto, para aderir à dieta vegana, é preciso procurar um especialista e seguir um acompanhamento nutricional, pois cada corpo reage de uma forma e é necessário avaliar a carência de determinados nutrientes e como eles podem interferir na saúde. “Os indivíduos que pretendem se tornar veganos geralmente fazem cortes drásticos alimentares e não fazem escolhas nutricionais saudáveis e inteligentes por falta de conhecimento técnico. Por esse motivo é essencial procurar a ajuda e o conhecimento de um nutricionista que faça a orientação da melhor forma possível dentro da capacidade e realidade do paciente”, frisa Clarice.

Em Foz do Iguaçu, a Miss Laura foi uma das empresas de alimentação pioneiras em trabalhar com itens veganos no cardápio. “Estreamos o nosso cardápio de pratos à la carte com sete opções 100% veganas, sem glúten e sem leite. Hoje já ampliamos a nossa linha de pratos, com a finalidade de atender diversos públicos, sempre pensando na alimentação inclusiva, saborosa e nutritiva. Temos vários itens veganos como: coxinha de legumes, nhoque, bolos, tortas, trufas, docinhos, lasanha de espinafre, pão sem queijo [pãozinho de batata salsa tipo pão de queijo], hambúrguer de lentilha, pratos brasileirinhos, pão vegano, sopas, caldos, brusqueta, estrogonofe de cogumelos, risoto de cogumelos, risoto de rúcula com tomate seco, feijoada vegana, sucos diversos, cafés, bebidas quentes, iogurte de coco, pizzas, sorvete e muito mais”, ressalta a nutricionista da Miss Laura, Pauline Godoi.

Em conjunto com a alimentação é possível também realizar atividades físicas que contribuem para uma vida ainda mais saudável. O professor de idiomas Enrique Vergara, 31 anos, segue uma alimentação baseada em plantas há pouco mais de um ano e, além de só comer alimentos saudáveis, também descobriu os benefícios da calistenia – uma disciplina esportiva que utiliza o próprio peso do corpo para trabalhar força, resistência, flexibilidade e controle, por meio de exercícios como barra, agachamentos e isométricos, avançando para movimentos mais dinâmicos conhecidos como freestyle. “Como trata-se de uma disciplina que não precisa de máquinas nem pesos externos, é ideal para praticar em casa ou no parque. A prática regular desse tipo de exercício, junto com uma alimentação saudável, tem feito uma grande diferença na minha vida. Tenho mais energia, me sinto melhor que nunca, e me ajudou também a aumentar os meus conhecimentos sobre saúde. Aprendi a fazer boas escolhas na hora de comer e agora sou o meu próprio personal trainer”, destaca.

Então se você se sentiu tocado a mudar seus hábitos alimentares e ainda contribuir pelo bem animal, procure um especialista e converse com quem já segue essa dieta para obter mais informações. “Para quem tem dúvidas, posso garantir que é possível comer muito bem e de forma saudável sem ter que matar nenhum animal. Os animais sentem dores, sofrem, estabelecem relações com outros seres e podem ser poupados se as pessoas desenvolverem o gosto pela culinária baseada em vegetais. É possível se surpreender com os variados sabores e, garanto, é muito gratificante olhar para os bichos sabendo que você não contribui para o sofrimento deles”, finaliza Stela.

Stela e a convivência consciente com os animais

 



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


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