Van Gogh e a sublimação através da arte

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Por: Heleno Licurgo – sociólogo, professor, fotógrafo e artista plástico.
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Poucos grandes nomes das artes plásticas são cercados por tantas histórias e estórias como Vincent van Gogh (1853–1890). Dos graves problemas mentais, possivelmente esquizofrenia, passando por desilusões amorosas, solidão, pobreza, fome, alcoolismo, mutilação da orelha (ela não foi decepada), até a infecção por sífilis nos bordéis de Antuérpia e o suicídio com um tiro no peito, a vida de Van Gogh é cheia de tribulações e desafios. Dificuldades que ele superou, sempre com a ajuda de seu irmão Theo, como fica atestado pelas mais de 800 cartas trocadas entre eles.

Porém não façamos foco sobre a vida dele, mas sobre sua arte, seu estilo cheio de cores fortes e belíssimas, de uma gestualidade expressa nas pinceladas grossas e marcadas sobre a tela. Uma arte tão expressiva que a apatia não é possível frente a suas obras. Essas, veículos das emoções mais profundas do artista, não são apenas belas, contemplativas, turbulentas, grandiosas, mas também taciturnas, depressivas, inquietantes e casmurras.

A despeito da sua enorme popularidade, o que não é ruim por si só, a obra de Van Gogh abre uma fenda na psique do artista e a expõe nua e crua aos espectadores. E essa é uma característica de suma importância na arte, pois o artista não é apenas um hábil produtor, mas um expositor da sua psique, suas paixões, aflições, desejos e sonhos, nos quais vemos espelhos de nós mesmos em uma comunhão humana, que estabelece um fluxo de mão dupla no qual artista e público se revelam, descobrem-se e se transformam continuamente.

Van Gogh realiza com as próprias obras uma “Sublimação ” (Sublimierung) pela estética, aqui entendida como uma transformação positiva da libido (certamente não toda) para a arte, pois a Sublimação depende da forma como a pessoa se relaciona com o ato criador (no caso, de obras de arte), para que seja classificada como tal. No caso de Van Gogh, a pintura é uma transformação positiva da pulsão (Trieb) em uma arte que expõe a beleza do mundo para além do olhar biológico, abrindo o que poderíamos chamar de “olhar psicológico ” sobre o mundo.

A pintura de Van Gogh exibe a sua capacidade de recriar o mundo natural, incluindo os seres humanos, com toda a sua força criativa e originalidade. Ele é capaz de relevar o mundo e as pessoas que nele habitam de uma forma tão dramática que capturam nossos olhares e despertam uma admiração profunda, que leva à reverência a um gênio criativo inigualável, tanto que o seu estilo não recebeu tentativas de cópia ou suporte. Ele segue único, destacado entre todos os demais grandes artistas da humanidade.

“Os comedores de batatas” (1885) é a primeira obra de arte de Van Gogh, inclusive para ele mesmo. Ela demonstra muito claramente o interesse do autor pela classe trabalhadora, pelos excluídos. Interesse que ele já havia deixado muito claro quando foi pastor, em 1879, entre os mineiros (a profissão com a menor expectativa de vida do século 19) da vila de Petit Wasmes, Bélgica.

“O esqueleto fumante” (1886) é a primeira obra de Van Gogh que expressa um real tormento psicológico do autor. Ela é resultado da sua diagnose com sífilis, doença mortal no século 19. Nela, pela primeira vez, aparece a característica energia do autor, visível em suas pinceladas marcadas, rápidas e grossas. Na obra, vemos um memento mori por meio da reinterpretação do ser humano e seu certo e inescapável destino, a morte. Porém as cores, assim como no “Os comedores de batatas”, ainda que sejam poucas, quase monocromáticas, e muito escuras, pois, eram espelhos de uma psique taciturna e, também, por ele ainda não ter tomado contato com a profusão de cores trazida pela revolução do impressionismo.

É atribuída a Van Gogh a invenção da sampling, a técnica de tomar de obras de artes já existentes, ou fragmentos destas, para a criação de novas obras. Sua primeira criação com essa técnica é o “Retrato de Père Tanguy” (1887). Nele, vemos uma profusão de cores claras, brilhosas com um fundo composto por gravuras japonesas. Essas já eram muito admiradas e requisitadas na época, e também exercem um grande encantamento em Van Gogh.

Assim, Van Gogh toma a sua admiração pelos impressionistas, em suas cores luminosas e vibrantes, pela gravura japonesa, com o destaque à natureza e às pessoas comuns, mistura tudo isso e gera a si mesmo, como artista, desenvolvendo seu estilo próprio inconfundível e tão admirado. Inclusive, é nesse momento que ele passa a assinar com seu primeiro nome, Vincent.

Nesse momento, Vincent precisa de um ambiente inspirador, com cores vivas, en plein air. É 1888, e ele terá apenas mais dois anos de vida. Arles (Sul da França) será a cidade onde ele irá encontrar a atmosfera ideal. Ali, pintará as suas obras mais famosas, que marcaram a arte para sempre. É o momento da “Fase Amarela”, radiante, luminosa e vivaz, com os seus belos girassóis e campos de trigo dourados. Porém é também a fase final de sua vida, na qual suas obras demonstram a profunda solidão em que se encontra, especialmente as naturezas mortas e os autorretratos.

Seus autorretratos são especiais, principalmente os pintados entre 1888 e 1890. Neles, vemos o autor expressando si mesmo e a chegada inevitável da morte, não por meio de subterfúgios que escondem o eu, mas por meio de si mesmo. São retratos de si mesmo morrendo dia após dia. Cada obra é um espelho de um momento que antecede o não existir, o não ser. É como se ele tentasse agarrar-se à vida, eternizando si mesmo nas telas. Mas não pensemos na obra de Oscar Wilde, pois ela só será publicada em julho de 1890, mesmo mês de morte de Vincent.

Após 1889, internado em Saint-Rémy, isolado, em grande sofrimento psicológico, nasce a “Fase Azul”. Melancólica, turbilhonada, perturbadora, blues. Essa é uma fase em que seus sofrimentos são expressados e sublimados por meio da pintura. Nesse ano, dois autorretratos em profundo azul com fundos turbilhonados são as testemunhas desse estado mental conturbado que antecede o seu suicídio em 1890.

Vincent pintava a realidade, porém não fazia um realismo, mas “desnaturalizava” o mundo cotidiano por meio de suas pinceladas rápidas e grossas, construindo uma impressão expressiva sobre o que via ao seu redor, dando relevo a cada objeto destacado flutuando em um mar de cores. Ele é um artista recriador do mundo ao seu redor por meio de seus gestos eternizados em óleos sobre tela.

Filme sobre Van Gogh concorreu ao Oscar

O filme “No portal da eternidade” conta a trajetória de um dos maiores artistas da história. Após sofrer com o ostracismo e a rejeição de suas pinturas em galerias de arte, Vincent van Gogh decide ouvir o conselho de seu mentor, Paul Gauguin, e se mudar para Arles, no Sul da França. Lá, lutando contra os avanços da loucura, da depressão e das pressões sociais, o pintor holandês adentra uma das fases mais conturbadas e prolíficas de sua curta, porém meteórica trajetória.

Neste ano, o filme concorreu ao Oscar, e o ator Willem Dafoe, que interpreta o pintor holandês Vincent van Gogh, concorreu ao Oscar de melhor ator. “O filme foi a oportunidade para falar sobre tudo; sobre o processo criativo; sobre fazer qualquer coisa. Não é apenas Van Gogh que estamos abordando, mas quão difícil é somente manter sua própria voz interior”, destaca Julian Schnabe, diretor do filme.

 




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