Foto: Assessoria.

A UNILA está participando do enfrentamento da Covid-19 na aldeia Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, onde 63 indígenas apresentaram resultado positivo para a doença, segundo dados da Vigilância Epidemiológica de São Miguel do Iguaçu, nesta terça-feira (30). Professores e estudantes do curso de Medicina estão fazendo o acompanhamento dos doentes, e o Observatório da Temática Indígena na América Latina (OBIAL), coordenado pelo professor Clovis Brighenti, está realizando o monitoramento da situação na aldeia.

No Ocoy, vivem em torno de 200 famílias – cerca de 900 pessoas –, segundo Brighenti. O primeiro caso da doença foi registrado no dia 17. Dois dias depois, o Ministério Público convocou uma reunião com diversas entidades e órgãos púbicos, incluindo a UNILA, para debater as possíveis ações de enfrentamento da pandemia na aldeia e criar uma força-tarefa para o atendimento aos indígenas.

“Nós sabíamos que os indígenas estavam tomando todos os cuidados com a Covid-19. O primeiro caso chegou através de pessoas que são obrigadas – é o sustento delas – a sair para trabalhar diariamente, mas não foi por descuido da comunidade, desleixo”, ressalva Brighenti. “Se não houvesse esses casos de trabalhadores que saem das aldeias, seria possível retardar a doença um pouco mais, ou quem sabe ela nem chegasse. Eles são bem isolados territorialmente”, explica.

Os infectados estão sendo mantidos isolados na escola da aldeia, que está com o acesso bloqueado. Somente é liberada a entrada de profissionais de saúde, de alimentos e de suprimentos de emergência. Os médicos e professores do curso de Medicina da UNILA Wilma Arze, Luiz Fernando Zarpelon e Roberto de Almeida estiveram na aldeia, juntamente com estudantes, para avaliar os indígenas no final de semana do dia 21 de junho e para traçar estratégias de atendimento. A professora Wilma e alguns alunos estão indo todos os dias à aldeia e passaram o último final de semana (de sexta a domingo) fazendo testes nos moradores do local.

“Estamos numa força-tarefa na aldeia, porque eles estão sem médico”, comenta. Além da equipe da UNILA, uma enfermeira da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) está fazendo o atendimento aos doentes. O trabalho dos professores de Medicina, ressalta Brighenti, que inicialmente seria o de orientar a comunidade, foi ampliado porque o médico que atende a comunidade do Ocoy está afastado – ele tem mais de 60 anos e é do grupo de risco para a Covid-19. Um novo profissional está sendo contratado pela Sesai.

O Observatório está distribuindo máscaras, alimentos e outros insumos para os indígenas. No final de maio, um lote de 50 litros de álcool glicerinado foi doado pela UNILA à Sesai.

“Estamos ajudando a monitorar a situação e fornecendo uma ajuda mais emergencial, para atender este momento. Estamos somando esforços”, afirma Clovis Brighenti, lembrando que os órgãos responsáveis pelo atendimento às aldeias são a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Sesai.

Já foram distribuídas 200 máscaras, mas a ideia é chegar a mil, uma para cada pessoa da aldeia. O professor explica que outros grupos também estão providenciando máscaras, e a intenção é que cada morador possa ter duas ou três.

“Estamos monitorando, vendo o que mais está precisando, as urgências, quais estão sendo atendidas, quais não, para poder fazer uma atuação mais precisa também a partir do contexto deles”, reforça. Indígenas que são alunos da UNILA receberam treinamento das equipes de saúde e estão ajudando a orientar os demais moradores da aldeia sobre o modo correto de utilizar as máscaras e de como higienizá-las.

Protocolo

Para orientar as pessoas que irão fazer atendimentos na aldeia, os integrantes do OBIAL elaboraram um protocolo com informações sobre a cultura e o modo de viver dos guaranis.

“Fizemos o protocolo para evitar preconceito e falta de compreensão e para alertar sobre a necessidade de ouvir os indígenas. É um documento sobre o que fazer para que essa população seja atendida com urgência e para que seja bem atendida, mas sem que sejam violados nos direitos deles, nas práticas, porque isso é um risco bastante grande”, completa. Os guaranis, diz ele, têm seus próprios médicos, os rezadores, e rituais de cura e de identificação de enfermidades. Nesses rituais, o tabaco é parte fundamental. “O protocolo ajuda com algumas orientações básicas, especialmente agora, que eles estão numa situação de vulnerabilidade. É preciso ouvi-los, construir juntos uma proposta.” Com o avanço da doença, o professor teme que os rituais tenham de ser evitados. “O risco que tem agora é esses médicos deles serem proibidos de atender, porque são as pessoas mais idosas, perigam se contaminar”, explicou.

Clóvis Brighenti conta que, em junho, o OBIAL já havia se manifestado pedindo a liberação dos indígenas que trabalhavam no frigorífico da Cooperativa Lar, em Medianeira.

“A gente sabia do perigo do trabalho em frigoríficos. E os indígenas são considerados grupo de risco, não por questões de saúde, mas, especialmente, em relação à questão da vivência comunitária”, comentou, explicando que a vida comunitária dos guaranis é intensa e que o conceito de casa, para eles, estaria relacionado à ideia de aldeia, de vida em comunidade.

Além da UNILA, Funai e Sesai, integram a força tarefa, coordenada pelo Ministério Público, a Prefeitura de São Miguel do Iguaçu, Defesa Civil, Itaipu Binacional e Superintendência Geral de Diálogo e Interação Social.

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