Tríplice Fronteira e as mudanças climáticas

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Tempestades e alagamentos causaram prejuízo superior a US$ 40 milhões entre 2013 e 2017

Por: Bruno Soares 

Fotos: Roger Meireles

Fazia um calor insuportável no início da tarde daquela terça-feira, 19 de fevereiro. De férias na casa do pai, em Foz do Iguaçu, André, de 9 anos, assistia a vídeos no computador no quarto que fica nos fundos da casa de sua avó, na Vila Yolanda, um dos bairros tradicionais da cidade que é conhecida como Terra das Cataratas. De uma hora para outra, o tempo fechou. O céu, até então azul, enegreceu. Ventos fortes passaram a cortar as árvores de forma repentina e cada vez com mais violência. A chuva começou a cair torrencialmente e, em menos de cinco minutos de tempestade, a energia elétrica no bairro acabou.

O temporal durou cerca de 45 minutos. Tempo suficiente para deixar um rastro de destruição e prejuízos em praticamente toda a cidade. De acordo com o Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar), as rajadas de vento chegaram a 66,2 quilômetros por hora, acompanhadas de 16,6 milímetros de chuva.

“Eu tive muito medo. Os raios caíam e faziam um estrondo enorme. Parecia que o mundo iria acabar e que eu estava vivendo dentro de um filme de ação”, relembrou a criança. Após o fim da chuva, o cenário nas ruas confirmava a opinião do menino: dezenas de árvores tombadas, placas metálicas contorcidas como se fossem folhas, casas destelhadas, pessoas desabrigadas…

O filme de ação imaginado por André ganhava contornos de realidade na vida das pessoas. “O que nos deixa com mais medo é que isso está acontecendo cada vez com mais frequência. Isso não acontecia antes, não dessa forma”, afirmou Lunide Alonso de Souza, uma senhora de 70 anos que teve de reforçar seu telhado por medo de novas tempestades.

Nos últimos quatro meses, chuvas fortes caíram na cidade praticamente todas as semanas. Estudo realizado pela Universidade de Leeds, uma das mais respeitadas do Reino Unido, estima que, entre 2013 e 2017, a região de fronteira tríplice entre Brasil, Paraguai e Argentina tenha amargado mais de US$ 40 milhões em prejuízos causados por eventos climáticos nas cidades de Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú.

Realizada em 15 meses, a pesquisa foi publicada em maio do ano passado. “O projeto surgiu da necessidade de compreender como fortalecer a resiliência climática de cidades vizinhas, a modo de sugerir medidas de proteção contra eventos climáticos adversos e propiciar uma cultura de redução de riscos de desastres”, consta no documento, publicado em português, espanhol e inglês.

Diante dos aspectos geográficos e meteorológicos da Tríplice Fronteira, os pesquisadores concluíram que a região poderá ser no futuro palco de tornados. “As tendências históricas sugerem que os padrões climáticos têm mudado na região durante as últimas cinco décadas. Os resultados mostram que o volume anual de água de chuva aumentou neste período, o que indica que tempestades serão cada vez mais fortes e mais intensas. É importante ressaltar que as cidades estão localizadas em uma zona propensa a tormentas elétricas, e é provável que tornados possam afetar estas cidades no futuro”, alerta a pesquisa inglesa.

Para salvar vidas e evitar mais prejuízos, os pesquisadores sugerem a cooperação entre as três cidades como alternativa de redução de danos. Responsável por coordenar a Defesa Civil em Foz do Iguaçu, Evaldo Guimarães participou dos debates durante a realização da pesquisa. Entre as alternativas indicadas, está a formalização de um protocolo de cooperação trinacional entre o Corpo de Bombeiros dos três municípios vizinhos. A iniciativa ainda não foi formalizada, mas já serve de norte para uma ajuda mútua entre as três cidades. Em Foz do Iguaçu, considerada a menos vulnerável, as ações são paliativas. O mesmo ocorre em Ciudad del Este e Puerto Iguazú.

Ao concluir o estudo, os pesquisadores propuseram 18 soluções por município, com um total de 54 propostas para a Tríplice Fronteira. As soluções estão agrupadas em quatro categorias: infraestrutura verde de medidas e infiltração; medidas de prevenção e resposta; medidas de eficiência; e medidas de cooperação. O estudo não foi incorporado integralmente por nenhuma das cidades em suas políticas de combate e prevenção a eventos climáticos.

“Esperamos que as pessoas tenham mais consciência da importância que tem o meio ambiente. As mudanças estão ocorrendo, e o poder público precisa estar atento. Se nada for feito, todos iremos sofrer as consequências, seja de qual país for”, finalizou a senhora de 70 anos.




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