No último texto da coluna minha convidada foi a Caroline Almeida e falamos sobre empreendedorismo feminino. 

Na pauta de hoje trago outra mulher forte e de muita personalidade, a Jade, para falar sobre transição de carreira. 

Não me contive, antes de começar esse texto pesquisei um pouco sobre a pedra Jade, como o nome de minha convidada e não muito diferente do significado dessa pedra, é a personalidade de Jade. Durante a entrevista, pude perceber o quanto ela é desenvolta,   comunicativa e de uma vibração linda.  Para ser sincera, se eu me encontrei duas vezes com ela pessoalmente, foi muito. Somos amigas virtuais há uns 10 anos, adicionamo-nos nas redes depois de uma festa de amigos em comum e de lá pra cá acompanho o trabalho dela virtualmente e a admiro muito. 

Jade Melina Zamarchi tem 30 anos, é formada em Direito, atuou como Advogada durante alguns anos e transicionou para a carreira de Gastronomia, mais especificamente confeitaria. Atualmente, ela faz o primeiro curso superior gratuito de Gastronomia daqui do Estado, pelo Instituto Federal do Paraná e é Chef de Confeitaria no Bona Trattoria.

Chef de Confeitaria – Jade Melina Zamarchi

A pauta sobre transição de carreira foi sugerida pela própria Jade, que já recebeu diversas mensagens perguntando sobre o assunto e pedindo ajuda. Ela viu que esse era um tema importante, que deveria ser discutido e aberto para que mais pessoas pudessem se inspirar e entender que a transição não é fácil e precisa dedicação, coragem e força, mas que no final vale a pena. 

Comecei esta entrevista perguntando quem era a Jade, para que você, leitor, se sentisse mais familiarizado com ela; logo depois as perguntas são a respeito da carreira e já entramos no assunto da transição. 

Leia a entrevista na íntegra: 

Quem é a Jade? 

Desde criança sou uma pessoa curiosa e isso me levou a todas as escolhas que fiz na minha vida, tanto de carreira quanto pessoal. Sempre fui levada pela curiosidade, tudo que podia fazer, como eu poderia fazer. Se aquilo existe e alguém faz, eu também consigo. E foi assim que eu fui indo atrás das coisas. A Jade é curiosa e criativa, além de ser muito exigente com as coisas. É por isso que eu estou na confeitaria, essa área exige muito e você precisa ser muito técnico, cuidadoso, delicado, detalhista e são coisas que eu sou na maior parte da minha vida, de um modo geral. 

O que levou você a escolher a faculdade de Direito? Era uma vontade sua?

Não era uma vontade minha. Todas as minhas opções quando eu estava no terceiro ano eram voltadas e ligadas com arte; pensei em cursar Gastronomia sim, mas ela estava nas últimas opções. Queria fazer Cinema, mas além de não ter aqui eu não tinha condições de estudar fora. O que tinha de faculdade pública, nesse período na cidade, era a Unioeste. Das opções que tinham, eu me identifiquei com Direito, por causa das matérias que eram história e gramática. Acabei não passando, por pouco, na faculdade estadual. Então esperei seis meses, até conseguir um emprego e pagar uma faculdade particular.

Como a confeitaria entrou na sua vida?

Depois que me formei, eu trabalhei como advogada no meu escritório, mas eu estava infeliz. É preciso ter perfil, aptidão e ao mesmo tempo, isso tem que fechar com seus valores pessoais e comigo não fechou. Sempre estava muito decepcionada e isso começou a afetar tudo. Em um determinado momento, uma das sócias deixou a empresa e eu aproveitei para quebrar a sociedade também. 

Após o rompimento da sociedade eu não tinha mais renda e ficava reclamando com meus amigos, então eles falavam: “Jade, ninguém vai te dar dinheiro. Faz alguma coisa pra gente comer que nós compramos e você vai ter um dinheiro extra”. Até que um dia eu fiz pães de mel, ficaram muito bons e decidi vendê-los. Minha primeira cliente foi minha amiga, Caroline Silva. No primeiro mês eu tinha trinta forminhas de pão de mel, no segundo mês eu já estava com cem. Eu não tinha feito propaganda, foi tudo boca a boca. Isso me sustentou durante oito meses, até eu ir para Curitiba e escolher definitivamente o que eu queria da minha vida. Fui sem emprego, com dinheiro para passar dois meses, mas logo comecei a trabalhar em confeitaria e aos poucos fui me inserindo na cozinha. Foi um choque, pois antes eu trabalhava para mim, dentro de casa. A cozinha às vezes, pode ser um ambiente muito tóxico, principalmente para nós, mulheres. A gente sofre muito abuso e o machismo dentro da cozinha, é algo muito absurdo. Somos educados à ferro e fogo. Esses programas onde vejo chefs gritando com as pessoas, é uma das coisas que eu mais luto contra e que mais me revoltam nesse ambiente. Porque você não vê pessoas sendo tratadas assim dentro de escritório, por exemplo. Imagine um chefe gritando com você, dentro de um escritório, como às vezes acontece na cozinha, você jamais toleraria. Então, por que nós toleramos dentro da cozinha?

Quando você decidiu trocar o Direito pela Confeitaria? E quais foram as dificuldades?

Eu conversei com uma psicóloga na fase de transição. É preciso ter coragem e perseverança nessa etapa, muitas vezes não vai ser como você espera. A cozinha não foi como eu esperava, eu estava muito confusa. Investimos financeiramente, como eu fiz com a faculdade de Direito e como simplesmente podemos deixar tudo isso de lado? Principalmente pessoas como eu, que não têm muito dinheiro. As minhas escolhas tinham que dar certo. 

Algo que a psicóloga falou para mim, é que não podemos deixar a engrenagem parar de funcionar, se você decidiu fazer outra coisa, não largue de uma vez. Gire a engrenagem, continue um pouco aqui e um pouco ali, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, até o momento de sentir segurança para fazer a transição. Não deixe parar e quando perceber já estará inserido nessa nova carreira; assim, você adquire conhecimento necessário para concluir o que estava fazendo e começar o novo. Isso deu certo para mim. 

Como você imagina seu futuro?

Penso em terminar a faculdade de Gastronomia, ser professora e paralelamente, criar um negócio próprio. 

Quero sair das cozinhas para ensinar. Todas as pessoas que eu tive a oportunidade de ensinar, na cozinha, me disseram que consigo passar conhecimento. Eu encontrei o objetivo do meu trabalho, que é ensinar pessoas a se enxergarem como bons profissionais.

No momento estou de férias do Bona e a Jordana, minha auxiliar, fez três bolos lindos para o aniversário do restaurante, trabalhando pela primeira vez com confeitaria. Ela me mandou fotos dos bolos e me agradeceu, dizendo que enquanto fazia a montagem, lembrava de tudo que eu tinha ensinado. Esse é o real motivo do meu trabalho e de querer ser professora. É maravilhoso você sentir que uma pessoa, com sua ajuda, está se desenvolvendo, você regou e ela está florescendo. 

Quais os desafios de ser uma Chef de Confeitaria?

É a primeira vez que estou em um cargo de chefia dentro de cozinha. O mais desafiador é lidar com pessoas, ter que estimulá-las é muito complicado, é preciso ser sensível. É muita responsabilidade e cobrança, além de ter que cobrar do outro. A nível de cozinha, a responsabilidade além de técnica também é sanitária; é preciso verificar tudo, desde a data de validade, etiquetamento correto dos produtos, até os custos das receitas. O cargo de chefia em restaurante é fazer essa parte chata, mas é ótimo pela experiência. Se um dia abrir um negócio próprio, saberei como fazer.

Quais dicas você dá para quem pensa em fazer a transição de carreira?

Tem que ser honesto consigo mesmo, o que você deseja para sua vida? Onde quer chegar? Se você não tem um objetivo, seja ele qual for, você nunca vai saber o que fazer. Toda carreira tem um leque muito grande do que fazer, é preciso descobrir especificamente onde e com o que você quer trabalhar. Se você pensa em ser designer de bolo, que é um nicho interessante dentro da área de eventos, como você vai aprender? Não precisa necessariamente ser em uma faculdade de gastronomia, às vezes, é melhor investir o dinheiro em um curso específico. Então, o principal é traçar um plano, analisar seu orçamento, conversar com profissionais da área e tentar conciliar as duas profissões, até o momento de estar preparado para fazer o salto. 

Finalizo a entrevista concordando com a Jade em relação ao planejamento e também sobre fazer a engrenagem girar antes de migrar entre carreiras de uma hora para outra. No meu texto de apresentação, falei que transito entre as áreas de cerimonial/eventos e marketing. Antes da pandemia, trabalhava fixo com produção de conteúdo e nos finais de semana com cerimonial de casamento. Diferente da Jade, que não se sentia bem em uma das carreiras, eu amo essas duas áreas que estão juntas na minha engrenagem. Sei que em algum momento uma delas pode sair desse maquinário todo e mesmo assim, essa engrenagem vai continuar funcionando com a outra peça principal. 

O importante é você ter foco e intercalar, até se sentir preparado; entendendo bem sobre tudo aquilo que funciona na área que vai migrar, para não se lançar com tantas dúvidas e conseguindo se manter financeiramente sem riscos futuros. É claro que nem tudo é tão fácil, na prática é muito diferente. Se preparar, dentro das suas possibilidades, é a chave para tudo ocorrer bem.

Após o término da entrevista, ainda conversamos um tempo e acho interessante inserir uma parte que a Jade falou durante essa conversa e que é válida para abrir a mente e ser mais positivo em relação a um trabalho que você não esteja gostando no momento: 

O ponto de vista emocional tem que ser levado em consideração, não é fácil; portanto é preciso se perguntar o porquê de estar fazendo isso e qual é a sua motivação. Às vezes, vai trocar de carreira e ganhar menos, mas sua satisfação pessoal e o valor emocional que vai ter será melhor. É preciso ter um objetivo e estar muito claro sobre a transição. 

Quando se acha essa resposta, você trabalha melhor. Todas as profissões são importantes e dignas. Quando se trabalha satisfeito, o trabalho sai bom. Eu agradeço às pessoas que trabalham na limpeza, o cara que lava a louça no restaurante, porque se esse cara não lavasse a louça, a gente não poderia cozinhar; não que a gente não possa lavar a louça, mas porque não temos tempo. Esse é o apoio que temos, é uma rede de apoio entre os profissionais. Você vê a diferença de uma pessoa que trabalha contente e que sabe a motivação de estar fazendo isso. “Eu não estou lavando a louça só por lavar, tenho um objetivo com isso, eu quero melhorar minha profissão depois”, então, quando se trabalha motivada e entende o objetivo, as coisas ficam melhores e o clima organizacional também. Mesmo que não tenha seu trabalho dos sonhos mas um dia você vai ter tente entender o motivo do que você está fazendo ali, entregue-se e faça bem feito.

Depois disso, conversamos por mais alguns minutos, sobre vários assuntos e finalizamos nossa chamada de vídeo, que foi muito enriquecedora e inspiradora. 

Espero que você tenha se sentido inspirado durante a leitura e que de alguma forma tenha te ajudado a pensar melhor e organizar as ideias, caso esteja pensando nessa transição de carreira. 

Como ajuda extra, aproveito para indicar um vídeo no Youtube do Leonardo Senna Zelinski, que fala sobre esse tema e pode ajudar. Leonardo é de Foz do Iguaçu, é um jovem inteligente, com muitas ideias e com muito potencial para crescer. Transicionou da área de Física para o mundo da fotografia, vídeos e artes. Neste vídeo, ele explica um pouco sobre a transição, que ainda é recente e é possível entender que ele também não deixou a engrenagem parar, conciliando as duas carreiras antes de decidir por apenas uma. Assista:

Para você, deixo meu abraço e o desejo de muita inspiração e força! Que esse texto tenha feito você se sentir empolgado e motivado a traçar seus sonhos e desejos. 

Colunista Barbara Jayane / Revisão: Verônica Furtado/ Fotos: Bruna do Nascimento

Até o próximo post! 

Barbara Jayane

Turismóloga, formada pela União Dinâmica de Faculdades Cataratas. Trabalhou como produtora de conteúdo na área de marketing de destino, no segmento de turismo. Atualmente é responsável pela área de Marketing em setor de confecções e cama, mesa e banho, além de desenvolver projeto secundário de cerimonial em festas e eventos.

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