Separados por uma ponte

Quando a Ponte Internacional da Amizade teve bloqueado o acesso de ir e vir do país vizinho, não foi apenas um estilo de vida e um local turístico e comercial que se perdeu. Famílias se separaram, mesmo estando a poucos quilômetros de distância, e em meio a uma pandemia sem precedentes a saudade é a companhia mais próxima.

A capa de maio da Revista 100fronteiras retrata a realidade que os moradores da Tríplice Fronteira estão vivendo neste momento. Com as pontes fechadas, o comércio de Ciudad del Este sofre sem a presença de turistas e compradores brasileiros que cruzavam a ponte diariamente a trabalho ou lazer. Nessa situação se encontram também famílias que tiveram de se separar de forma brusca, sem ao menos preparar-se para os dias que viriam.

“Moro em CDE há três anos e cinco meses e estou sem ver meus filhos e neto há mais de dois meses. Nos víamos com frequência quatro vezes por semana. Quando soube que a ponte iria fechar, inicialmente era por 15 dias, mas devido ao agravamento da pandemia se estendeu, e ficar longe da minha família era algo inimaginável. No início eu não acreditava no que estava acontecendo, mas hoje vejo que isso tudo nos faz valorizar ainda mais um simples abraço das pessoas que amamos.” Esse é o depoimento da empresária Rosa Aide Duarte Marquezini, que assim como muitas outras pessoas está distante fisicamente dos filhos.

Ela encontra alento na tela do celular, por meio do qual diariamente conversa com eles. “Procuro não pensar muito, mas quando a saudades bate não penso duas vezes para ligar e dizer o quanto estou com saudades e amo eles. É triste não poder participar dos últimos meses de gestação da minha nora e muito menos poder vivenciar o nascimento do meu segundo neto. Mas o que nos conforta é saber que estão todos bem e logo que tudo isso passar estaremos juntos novamente como sempre”, relata, esperançosa.

Quem também está longe dos filhos, dos netos e da mãe, de 82 anos, é a fotógrafa Liamara Melhorança Priski, que mora em CDE há 32 anos e não vê a família desde o dia 15 de março. “Estou longe dos meus filhos, nora, neta, irmãos, sobrinhos e da minha mãe. A gente se via pelo menos duas vezes por semana, e desde o fechamento da fronteira os dias são difíceis longe das pessoas que amamos, principalmente pela minha mãe que tem 82 anos e vive sozinha, pela minha neta que completou 1 ano, e não podemos festejar juntos. Tantos planos, sonhos e desejos que vão ficando pra trás.”

Além da saudade, que é inevitável neste momento, as pessoas que moram do outro lado da fronteira ou que moram aqui, mas têm comércio lá, estão apreensivas quanto ao futuro. “No começo foi desesperador, pois dois dias antes eu tinha investido US$ 25 mil em mercadorias. Moro em Foz, mas tenho empresa alimentícia no Paraguai, e agora está complicado pelo fato que tenho que pagar aluguel da empresa, salário aos funcionários, e estou sem faturamento”, explica o empresário Marcio Antonio Marques.

Ele relata ainda que tem esperança na reabertura da ponte, porém que isso não depende só da pandemia no Paraguai, e sim do principal receio do governo paraguaio em abrir a fronteira que é como está a pandemia no Brasil. “Olha, está se encaminhando para algo muito assustador, por vários motivos, entre eles o que vai acarretar muitas pessoas passando necessidades financeiras, já que boa parte da população de Foz do Iguaçu vive do movimento que temos na fronteira [turismo de compras], e do outro lado da fronteira também causará uma crise financeira maior ainda pelo fato que por a fronteira estar fechada, além de não estar trabalhando, os preços de alimentos estão superaltos.”

Esse sentimento é compartilhado pelo construtor civil Marcio Leonardo Vier, que mora em Los Cedrales, a 25km de CDE, mas está em Foz trabalhando desde que a ponte fechou, permanecendo assim longe da esposa e da filha. “Eu vinha todos os dias trabalhar em Foz do Iguaçu porque meu trabalho é aqui. E esses dias distante da minha família estão sendo muito difíceis. Tenho esperança que reabra a ponte, mas acredito que a população terá que adaptar outros meios pra fugir da crise econômica.”

Seja pela saudade ou pelo medo quando ao futuro, todos estão juntos nessa, desejando que logo a situação melhore, esperando ansiosamente um abraço caloroso da família.

Lembrando que o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, disse recentemente: “Não podemos ainda abrir a fronteira enquanto há uma propagação importante do vírus em nossos países irmãos e vizinhos. (…) O último que vamos fazer é abrir a fronteira e a abertura de escolas e colégios. Estes são os focos mais vulneráveis”.

Fotos: Paulo Lisboa

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