18 de março de 2020. O dia em que a Tríplice Fronteira parou. Devido a pandemia, as portas do comércio foram fechadas. A fronteira mais movimentada do país deu lugar ao silêncio, e o que jamais poderíamos imaginar acontecer aconteceu: a 100fronteiras tornou-se “com fronteiras”, literalmente. As pontes que ligam o Brasil à Argentina e ao Paraguai foram fechadas temporariamente. No entanto, lá atrás não fazíamos ideia de quantos dias ficaríamos sem ver nossos hermanos argentinos e paraguaios.

O turismo, tão pujante na cidade, também parou. Vivemos dias de medo, insegurança e incertezas quanto ao futuro. Perdemos amigos. Pessoas queridas da comunidade que nos deixaram devido a essa grave doença que chegou à nossa cidade, assim como a todas as partes do mundo, e ceifou vidas. Sentimos na pele o vazio que a pandemia trouxe: vazio da vida, vazio do movimento tão particular que a região trinacional proporcionava.

No entanto, foi em meio a esse vácuo que o fio de esperança nasceu para trazer cor aos dias cinzas que surgiram com o “novo normal”. E passado um ano desde a chegada da pandemia de coronavírus à nossa rotina, nunca é demais relembrar algumas das ações solidárias que contribuíram para amenizar o caos e trazer esperança de que em breve tudo isso passará.

Mãos solidárias unidas por uma mesma causa

Uma das cenas que mais impactaram a fronteira quando as pontes foram fechadas era a chegada dos paraguaios e argentinos às pontes da Amizade e da Fraternidade, que vinham de diversos estados brasileiros na intenção de retornarem aos seus países, porém acabavam barrados, tendo de ficar por dias acampados no local à espera de autorização para poderem voltar em segurança a seus respectivos países.

Diante desse cenário caótico, a comunidade iguaçuense, por meio de ações solidárias, buscou atender essas pessoas com doação de comida e de cobertor.

Marmita Solidária

“Demos assistência aos irmãos paraguaios. Eles necessitavam de alimentos, máscaras, banhos, roupas e itens de higiene. Por conta disso, nós confeccionamos 8.500 máscaras, que doamos para a Marinha, Exército, Aeronáutica e para os irmãos paraguaios e povo de rua. Recebemos também doações de cobertores, o que ajudou muito essa população, pois era período de inverno e chuva. Além disso, entregamos marmitas em conjunto com o projeto Sopão da Madrugada, que faz um lindo trabalho para alimentar os mais necessitados. Juntos conseguimos passar por esse momento tão difícil”, destacam os empresários Neusa Miguens e José Maria Escobar.

Quem também ajudou dezenas de pessoas que desembarcavam nas pontes foi o 34º Batalhão de Infantaria Mecanizado. Durante a pandemia, ele foi essencial para a comunidade, doando tempo e dedicação aos mais afetados pela crise. Entre as ações realizadas pelo 34º Batalhão estão:

  • participação no projeto Marmita Solidária, ao qual disponibilizou mão de obra para a preparação da comida;
  • arrecadação e elaboração de lanches para os profissionais da saúde da linha de frente do Hospital Municipal contra a covid-19. A entrega diária ocorreu por cerca de dois meses;
  • centro de recebimento de cestas básicas da prefeitura. O batalhão disponibilizou o espaço para o armazenamento das doações; e
  • apoio e assistência aos moradores do Paraguai e Argentina que chegavam às pontes da Amizade e da Fraternidade e não conseguiam entrar em seus respectivos países. Com isso, o batalhão repassou comidas e donativos a essas pessoas.
  • papel importante no fechamento das fronteiras, na segurança e no monitoramento;
  • realização de diversas apreensões com o apoio da Marinha, Polícia Militar, Receita Federal e Polícia Rodoviária Federal;
  • realização de operações pontuais nas rodovias da região; e
  • monitoramento de segurança 24h e controle de quem entrava e saía do país pela Ponte Internacional da Amizade, trabalho ainda hoje realizado na Ponte Tancredo Neves, na fronteira com a Argentina, que segue fechada.

“Em um momento que todo mundo segurou, nós aceleramos o trabalho realizando muitas ações. Isso é algo que me deixa muito feliz, ter podido ajudar nesse momento tão crítico. Hoje eu posso olhar pra trás e ver que o batalhão fez bastante coisa”, ressalta o coronel Marcelo Pontes, comandante do batalhão em 2020.

Apesar do intenso trabalho nos primeiros meses de pandemia, as ações no batalhão continuam. De acordo com o atual comandante do 34º BIMec, tenente-coronel Georgingtown Haullinson Farias, “o batalhão está atento a qualquer necessidade de apoio que as instituições necessitarem para o combate à covid-19, como suporte logístico e apoio à campanha de vacinação por intermédio dos nossos militares de saúde, a nossa ‘mão amiga’, contribuindo assim com a volta à normalidade”.

Projeto Marmita Solidária

A ajuda veio de todos os lados. O cenário assustador que se instalou em Foz com o fechamento do comércio, pontos turísticos e hotéis da cidade fez o empresário Antônio Hernandes Gonzales Júnior, do Hotel Foz do Iguaçu, realizar um gesto nobre em prol dos mais afetados pela pandemia, no início de abril.

Marmita Solidária

“O hotel foi literalmente fechado, funcionários tiveram que ir para casa e tudo ficou completamente vazio pela primeira vez em mais de 40 anos. Indo no hotel e vendo todos os equipamentos parados, como a cozinha industrial, me passou uma sensação muito ruim, pois eu nunca tinha visto aquilo. Levei a ideia para a minha filha que cuidava da parte de alimentos e bebidas, sobre aproveitar esse momento crítico, com pessoas desempregadas e passando fome, para fazer algo para esse pessoal. De imediato ela topou a ideia e com isso iniciamos o trabalho de fazer marmitas diárias”, lembra.

Assim, o que começou com 200 marmitas por dia chegou a 1.200 diariamente, distribuídas para várias comunidades carentes da cidade e moradores de rua. Graças à ajuda da comunidade, mais de 103 mil marmitas foram entregues, um gesto que mostrou a importância da união frente à crise.

Marmita Solidária

“Foi muito gratificante não só em poder ajudar as pessoas, mas principalmente conseguir fazer com que através desse equipamento parado conseguíssemos ajudar bastante as pessoas menos favorecidas da cidade. Pela primeira vez um projeto desse, totalmente privado, sem uso de dinheiro público, conseguiu alimentar tanta gente por tanto tempo. E isso foi graças ao voluntarismo da população”, frisa, emocionado, o empresário.

Live solidária no hotel Vivaz Cataratas

Além da confecção de marmitas, que garantiu o sustento de muitas famílias e pessoas desassistidas, durante um bom tempo, a pandemia também abriu portas para um mercado específico de lives, nas quais artistas locais, nacionais e internacionais se apresentavam com shows ao vivo por meio do YouTube, animando as pessoas que estavam em quarentena e servindo como uma forma de arrecadar doações.

Em Foz do Iguaçu não foi diferente. O mercado de lives caiu no gosto da população, e muitos shows foram realizados com o intuito de arrecadar donativos para ajudar os mais necessitados. O hotel Vivaz Cataratas aderiu a isso e realizou quatro lives solidárias.

Live no Vivaz Cataratas

De acordo com a gerente do Vivaz, Luiza Andrade, ao todo foram arrecadadas mais de 18 toneladas de alimentos e cerca de R$ 12 mil que foram destinados aos profissionais de eventos, guias e motoristas de turismo, entidades, além de serem doados a uma criança que necessitava de uma cirurgia de emergência. “Para mim foi muito gratificante fazer isso, porque as pessoas precisavam. Então me sinto muito realizada em saber que nesse período de pandemia conseguimos fazer alguma coisa para deixar para a cidade e para as pessoas que estavam precisando”, realça Luiza.

Um olhar para a saúde

Apesar do admirável trabalho realizado pelos profissionais da saúde diariamente, foi durante a crise de coronavírus que médicos e enfermeiros passaram a ser vistos como heróis. Todos os dias, os profissionais da linha de frente do setor da covid-19 em Foz do Iguaçu realizaram um árduo trabalho para salvar vidas. Fizeram do hospital seu lar e, mesmo exaustos, cumprem seu compromisso de forma exemplar. “Existe uma dedicação muito grande, quase exaustiva, por parte da equipe. São pacientes muito complexos, o que exige muito detalhismo e organização continuada”, explica o médico e diretor técnico do Hospital Municipal, Dr. Fábio Marques.

Segundo ele, que está na linha de frente desde o início da pandemia, alguns médicos passam mais tempo dentro do hospital do que em casa. “A sensação é de estarmos numa corrida sem prazo para terminar. As pessoas estão cansadas. Alguns profissionais acabam desenvolvendo quadro de estresse profundo pela rotina extenuante. Isso ocorre, por exemplo, com médicos coordenadores angustiados em não conseguir completar as escalas de plantão e terem de cobrir vários plantões vagos por falta de médicos. O mesmo estresse ocorre com plantonistas médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem tendo de dar conta de muitos pacientes graves todos os dias. Estamos na pior fase da pandemia. Uma parte deles está atuando desde o primeiro dia. É um momento de muita solidariedade dentro do hospital”, relata Dr. Fábio.

Reconhecimento e gratidão

Para valorizar e contribuir com a saúde de Foz, outra grande ação que comoveu a cidade foi um gesto da Campanha Juntos Somamos, implementada no Paraguai e que chegou a Foz do Iguaçu por meio do Grupo Sarabia, que apoiou o sistema público de saúde do Brasil no âmbito da luta contra a pandemia do coronavírus. Suas empresas, Tecnomyl Brasil e Agropecuária Cataratas, contribuíram com R$ 540 mil para o atendimento de pacientes do SUS no Hospital Costa Cavalcanti, em Foz do Iguaçu. 

Grupo Sarabia

O dinheiro aportado pelas empresas do Grupo Sarabia foi destinado integralmente a projetos relacionados ao atendimento via Sistema Único de Saúde, como a realização de testes para covid-19 em todos os pacientes oncológicos do SUS com indicação de internação. E além da instalação de ala exclusiva para cuidados paliativos e setor de oncologia, foram adquiridas cadeiras de roda, toalhas, cobertores e medicamentos de alto custo para o tratamento contra a covid-19. O grupo empresarial também contribuiu com três mil litros de álcool gel para ajudar a combater a propagação do vírus. 

José Marcos Sarabia, que lidera o grupo empresarial junto com seus irmãos Paulo Sergio Sarabia e Antonio Ivar Sarabia, foi o primeiro paciente recuperado do coronavírus no Hospital Ministro Costa Cavalcanti. Após passar dez dias em terapia intensiva, “pude perceber o propósito e a seriedade da instituição. Eles salvaram minha vida, e isso me deu grande confiança em todo o trabalho que realizam”, diz ele. “Com o objetivo de otimizar o atendimento ao SUS, encontramos essa forma de contribuir neste momento delicado que vivemos, para que mais vidas possam ser salvas”, explana.   

Cenário atual da pandemia

Quando a pandemia começou um ano atrás, imaginávamos chegar a este momento com uma realidade totalmente diferente. Apesar da instabilidade de 2020, o final do ano nos trouxe esperança com a chegada de vacinas. Nessa época, o uso de máscara e de álcool em gel, bem como o distanciamento social, já eram comuns em nossa rotina. Mas 2021 começou, mais uma vez, alarmante para todo o Brasil.

Os casos de covid-19 aumentaram bruscamente, assim como o número de mortes e ocupação dos leitos de UTI. O sistema de saúde lotou, novas vagas de UTI tiveram de ser abertas. Os hospitais continuam lotados, e agora a doença não está atingindo apenas os idosos, chegou aos jovens também, e novamente o medo bate à nossa porta.

Sistema de Saúde Foz

No entanto, o que essa pandemia nos ensinou, entre muitas coisas, é que não podemos perder a esperança jamais. É ela que nos move quando tudo está parado. É ela que nos mantém de pé e nos manterá vivos.

Enquanto houver a esperança, estará acesa a chama de dias melhores. Não podemos desistir agora, não podemos relaxar, nem nos descuidar. O momento pede ainda mais união, consciência e cuidado. Eu cuido de você, você cuida de mim, e juntos cuidamos uns dos outros. Essa é a lição. Isso é o que um ano de pandemia nos ensinou. Basta a cada um aprender. Ainda não acabou e está mais do que provado que só acabará quando de fato entendermos a importância de cuidarmos uns dos outros.

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

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