Nesta semana completa um ano que a pandemia de fato chegou na fronteira. De lá para cá muita coisa aconteceu. Atualmente 29.765 pessoas já foram infectadas, sendo que deste total 28.647 já estão curadas e 503 perderam a vida (dados de 15/03). E desde o inicio da pandemia os profissionais da saúde de Foz alertam a população para os cuidados com a vida.

Dentro dessa triste estatística está o médico Dr. Jonathan Pliacekos. Com mais de 50 anos de profissão, sendo 30 somente em Foz, o doutor foi uma das pessoas contaminadas pelo coronavírus não resistindo a doença e vindo a óbito no dia primeiro de novembro de 2020. Ainda enlutada com a triste perda, a esposa Claudinéia Raposo Pliacekos, nos conta que o marido faleceu pela doença que ele mais temia.

“2020 começou muito triste. No dia 14 março, quando foi decretada a pandemia e mal sabíamos o que estava por vir, meu marido se afastou do trabalho dele. Ele trabalhava na UPA do Morumbi, mais morava na UPA do que na própria casa. Sempre trabalhou muito. Nós éramos casados há quase 30 anos e desses 30 anos somente nesses sete meses da pandemia, de março a novembro, que meu marido ficou em casa trabalhando na telemedicina”, relata Claudinéia.

Dr. Jonathan Pliacekos
Dr. Jonathan Pliacekos foi o pioneiro da telemedicina em Foz do Iguaçu.

Ela conta que a telemedicina foi nos últimos sete meses de vida do seu esposo a coisa mais importante da vida profissional dele. Quando a pandemia chegou em março e ele foi afastado, passou a estudar sobre a telemedicina, procurou o prefeito para dizer que seria uma excelente medida, pra que enquanto o Hospital Municipal desse conta de formular mais leitos, os médicos que tinham sido afastados por idade ou comorbidades, poderiam atender por telemedicina.

“Meu marido trabalhou muito nesses sete meses, teve apoio total da prefeitura e estava dando a vida dele. Desde o começo ele tinha muito medo dessa doença. Quando foi em outubro, dia 23, por aí, meu marido começou com uma tosse, no terceiro dia ele fez o exame e detectou a doença Covid. Eu também peguei. E nesses sete meses da doença nós fizemos todos os meses os exames, por cautela e segurança, porque meu marido dizia ‘é tão grave essa doença, é tão grave, que se eu pegar eu não volto mais’. E meu marido se foi, no dia 01 de novembro de 2020”.

claudinéia pliacekos.

Bastante emocionada, Claudinéia relembra que a notícia impactou Foz do Iguaçu inteira, porque o Dr. Jonathan tinha um atendimento humano com o cidadão, ele tratava os pacientes como se fossem irmãos dele, nunca fez diferença em nenhum tipo de paciente. “Meu marido lutava para o diagnóstico ser preciso, para que o paciente não saísse do consultório simplesmente com uma receita, mas sabendo o que tinha. Os pacientes sofreram tanto quanto eu, eles não acreditavam que o médico que os acalentava tantas vezes, tinha ido para o segundo plano. A minha vida virou de cabeça para baixo, porque eu não tinha só um marido, eu tinha um amigo, um companheiro, eu tinha uma pessoa do meu lado que foi um pai maravilhoso, um amigo perfeito, um avô fantástico, um sogro maravilhoso. A nossa família sofreu muito e ainda está sofrendo pela falta que ele está fazendo em nossas vidas. Em minha vida parece que o mundo mudou de cor, é muito triste saber que o Jonathan não está mais aqui comigo, é muito triste saber que ele foi para o segundo plano pela doença que ele mais temia”.

Claudineia e o esposo Dr. Jonathan Pliacekos
“Eu entendo hoje, depois de muito, muito sacrifício, depois de muito me apegar a Deus, que meu marido foi chamado para ajudar a Deus nessa grande batalha, nessa grande cura espiritual que o ser humano tem que ter aqui na terra. Meu marido será eterno no meu coração. Este homem deixou um legado para Foz do Iguaçu. Esse médico, Dr. Jonathan Pliacekos, deixou um legado de integridade, de bondade, é um homem que deve ser honrado, lembrado, vibrado. Eu só tenho que agradecer à Deus por ter me dado a oportunidade de conviver com uma pessoa fantástica do meu lado e que me deu as maiores alegrias dessa vida, os melhores momentos dessa vida”. – Claudinéia Pliacekos.

Profissionais da saúde de Foz fazem um alerta e apelo à população

Esse relato de Claudinéia só mostra o quão grave e triste é essa doença e o quanto as pessoas ainda não acreditam na gravidade disso, ignorando a existência do coronavírus e praticando atos de irresponsabilidade.

Os profissionais da linha de frente do coronavírus, que lidam diretamente, todos os dias, com a doença, também reforçam a importância de as pessoas se conscientizarem.

“O ambiente de UTI-covid tem sido um ambiente de guerra, de filme. É tudo muito rápido, e hoje já não existe mais grupo de risco, pessoas mais propensas a pegar a doença. Crianças, jovens, adultos e idosos morrem por conta da Covid. Isso não é um complô global, não é assunto de política, isso é uma doença, é sério, é real. E quanto mais as pessoas tentarem se convencer de que é algo banal e inventado mais pessoas vão sofrer e morrer. Fica então o apelo para que as pessoas realmente cumpram os decretos, que isso não é politicagem, é real e faz a diferença. Porque nós vemos aqui na prática quão doloroso é a pessoa ficar sem ar, sem conseguir sobreviver. Fica o apelo para que as pessoas coloquem a mão na consciência e que façam por elas e pelos nossos, porque eu estou aqui dentro protegida, mas a minha família está lá fora e é uma preocupação que a gente tem todo dia, de que se a gente vai conseguir sair bem em mais um plantão e se os nossos familiares vão sair bem de toda essa situação também”, alerta a fisioterapeuta que atua na linha de frente da Covid no HMCC em Foz, Francy Romanhuk. 

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Foto: Assessoria.

Ela explica que o papel do fisioterapeuta dentro da unidade intensiva da Covid consiste em reabilitar a parte pulmonar do paciente, seja daqueles que estão na parte da enfermaria, com exercícios respiratórios, condicionamento desse pulmão para voltar a condição normal, quanto com pacientes críticos em estado de intubação, que necessitam de uma ventilação mecânica. “Fazemos a parte pulmonar e motora, de reabilitação. Com a Covid os pacientes ficam muito debilitados, tanto por conta de não fazerem mais as posturas que faziam antes da doença, quanto por conta da própria doença e tempo de internamento que fica no hospital”.

Ela relata ainda que cada dia está mais intenso o trabalho dentro da UTI, por conta dos crescentes números de casos confirmados e internações. “A situação da Covid em Foz não tem sido fácil há alguns meses. Na verdade, desde o inicio da pandemia a doença nunca cessou, nunca sumiu. Houveram picos e agora estamos enfrentando a pior etapa dessa doença. Tem sido cada vez mais frequente internar conhecidos, amigos, internar parentes e tem sido cada vez mais doloroso acompanhar essas trajetórias de perto, entubar um conhecido, entubar um amigo, perder um amigo tem sido muito doloroso para nós que estamos na linha de frente, enfrentando essa doença de frente. Muitos colegas de trabalho pegaram doença, perderam a vida e isso tem nos tornado cada dia mais cansados física, emocional e psicologicamente, mas continuamos. Continuamos em frente porque cada vida importa, cada sucesso que a gente consegue ter com o paciente é como se fosse com a nossa família. A felicidade transborda em todos os aspectos e isso nos faz continuar e aguentar mais um pouco”.

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Foto: Kiko Sierich.

Além disso, ela conta que a rotina hospitalar é extremamente intensa com a grande parte dos colegas fazendo parte da equipe de mais de um hospital, as vezes até três hospitais, porque faltam profissionais.

“Falta mão de obra, mas sobra cansaço, sobra dor e sobra coragem também para que a gente consiga trabalhar com os que estão conosco e conscientizar os que ainda não chegaram, pra que não cheguem e não precisem passar por tudo isso junto conosco”.

alerta a fisioterapeuta.
Francy Romanhuk
A fisioterapeuta Francy Romanhuk em mais um dia de plantão.

Por isso, nunca é demais lembrar a população da importância de se cuidar, de respeitar os decretos, usar máscara, álcool em gel e evitar aglomerações. O cuidado com essa doença é de responsabilidade de todos. “A sensação é de estarmos numa corrida sem prazo para terminar. As pessoas estão cansadas. Alguns profissionais acabam desenvolvendo quadro de estresse profundo pela rotina extenuante. Isso ocorre, por exemplo, com médicos coordenadores angustiados em não conseguir completar as escalas de plantão e terem de cobrir vários plantões vagos por falta de médicos. O mesmo estresse ocorre com plantonistas médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem tendo de dar conta de muitos pacientes graves, todos os dias. Estamos na pior fase da pandemia. Uma parte deles está atuando desde o primeiro dia! Não é brincadeira”, relata o diretor técnico do Hospital Municipal Dr. Fábio Marques.

Dr. Fábio Marques
Dr. Fábio Marques em atuação no Hospital Municipal.
Democracia Inabalada.

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

Comentários

6 Comentários

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  1. Parabéns Clau pela linda e necessaria explanação do dia a dia de um médico nessa pandemia…O Jonatham foi um exemplo de dedicação e doação de seus dons de consultar, conversar, receitar e acalentar corações temerosos…que tudo isso sirva para que as pessoas ponham a mão na consciência e se cuidem…Fátima Portella

  2. Parabéns pela respeitável matéria 👏👏👏👏
    Pessoas humanas como vcs, a Revista 100Fronteiras, sempre prontos a levar a todos a melhor informação!
    Esta informação não é a melhor😞, mas necessária para que todos entendam a gravidade da doença 😞.