Upa morumbi
Foto: Giovan da Silva - Via Google

Do global ao local, o novo coronavírus – desde seus primeiros casos – vem se manifestando e afetando os lugares de maneira diversa. A pandemia, desde seu início, tem atingido as várias esferas que compõem uma sociedade: a saúde, a economia, questões sociais, políticas, culturais, psicológicas, ambientais e territoriais. 

Mesmo vendo nos jornais o que se passa mundo afora, cada país, região, cidade, lugar, família e pessoa tem experienciado a covid-19 de modo diferente. Assim como o vírus reage a cada organismo de determinada maneira, desse modo também é com cada lugar que é capaz de gerar mutações diferentes, como o recente caso de Manaus – AM. 

Estamos sujeitos a forma que o vírus se comporta e ao modo como o gerenciamento da pandemia é feito, pois estamos inseridos em uma esfera territorial que engloba país, estado e município e por isso estamos sujeitos às políticas, medidas, planejamento e  infra estruturas desse território, sejam eles disponíveis, do modo como são realizados ou a pela  falta delas. 

Dentro desse contexto, convidamos o professor James Humberto Zomighani Júnior que é doutor em Geografia pela USP e atual professor da área de Geografia da UNILA para nos ajudar a entender como se dá a oferta dos serviços de saúde em Foz do Iguaçu, em relação à localização da população, por conta da pandemia de COVID-19. 

A história de um vírus contada por sua Geografia 

“A história de um vírus pode ser contada a partir de sua Geografia. Um vírus, como o novo coronavírus Sars-CoV-2, causador da COVID-19, não sobrevive fora do hospedeiro. Não sobrevive e, muito menos, consegue se deslocar sozinho, dependendo, para tanto, da mobilidade e migração das pessoas. É assim que um vírus alcança territórios enormes e longínquos, sendo levado pelas pessoas as quais infectou.

“Assim também acontece dentro de um município ou de uma cidade. Uma pessoa infectada, ao se deslocar, se não estiver devidamente protegida, ou se tiver contato com outras pessoas igualmente desprotegidas, espalhará o vírus por onde passar.”

Denise Gonzalez: Professor James, com base na sua análise e perspectiva de geógrafo, como você vê que os governos e responsáveis poderiam fazer para ser mais eficiente o combate ao espalhamento do vírus? 

Professor James: Com base no conhecimento de que a Geografia de uma cidade,  é responsável pela história do vírus (ou da pandemia) que se desenvolve nela. E o que é a Geografia? Ela acontece condicionada a forma como seu território é usado e ocupado pelas pessoas, pelas empresas e instituições (como os hospitais e as unidades de saúde, por exemplo), pelas infraestruturas nelas existentes, por seu meio ecológico. 

Diante disso, os governos poderiam conter a circulação do vírus, a partir da regulação do fluxo e da circulação das pessoas. Dessa forma, quanto menos as pessoas circulassem, por um determinado período de tempo, menor também seria a difusão da doença

Juntamente com as vacinas, esta é, atualmente, a única forma cientificamente comprovada de se conter a propagação do vírus em um determinado território, no caso de uma pandemia, como a que vivemos atualmente.

Denise: E quais seriam as estratégias que você vê que poderiam ser  mais eficientes no combate a pandemia de covid-19?

Professor James: Os países e, neles, as cidades com maior sucesso na contenção da pandemia investiram em algumas estratégias principais: testagem em massa da população, isolamento e tratamento dos doentes, monitoramento e isolamento dos assintomáticos, campanhas publicitárias de saúde (para esclarecimento da população sobre formas de se evitar o contágio e das medidas necessárias para o tratamento) e, mais recentemente, vacinação em massa, começando-se pelos grupos prioritários (idosos, mais acometidos pelas formas graves da doença, e pessoas de grupos de maior risco de contágio: da área da saúde, segurança pública, educação…).

Denise: E como essas estratégias deveriam ser implementadas para serem efetivas em Foz do Iguaçu e no Brasil como um todo? 

Professor James: Todas essas estratégias, necessitam ser implantadas simultaneamente e de forma a cobrirem a maior extensão dos seus territórios (e de suas populações), sempre que possível. 

No caso do Brasil, essas estratégias convergiriam, inclusive, com alguns princípios do nosso Sistema Único de Saúde (SUS), como, por um lado, a universalidade, equidade e a integralidade nos serviços e ações de saúde; por outro, com relação aos princípios organizacionais do SUS, a descentralização, a regionalização, a hierarquização da rede e a participação social. 

Na prática, inclusive durante a pandemia, muitos desses princípios clássicos ou daquelas estratégias já conhecidas têm sido, simplesmente, ignorados.

Um único ponto de coleta do exame  – UPA do Morumbi 

Denise: E como você vê que isso acontece em Foz do Iguaçu? 

Professor James: Um bom exemplo é a falta de descentralização da coleta dos exames, fazendo com que pessoas doentes, ou assintomáticos, sejam forçados a se deslocarem por extensas áreas da cidade, para irem até um único ponto de coleta dos exames; inclusive, também não há coleta domiciliar, de pessoas que já se encontram sintomáticas, ou em estágio de transmissão do vírus. 

E essas pessoas, geralmente mais pobres, são obrigadas a se deslocarem, utilizando os precários serviços de transporte público, da maioria de nossas cidades, para irem até o ponto de coleta de exames, podendo contribuir para espalhar ainda mais o vírus. 

Procuramos saber como se deu o processo de transferência de ponto de coleta:  

Conforme a secretária da saúde, a triagem e a coleta de exame do covid- 19 em Foz do Iguaçu é feito na UPA do bairro Morumbi e passou a ser realizado nesse local a partir do dia 26/02. 

Anteriormente o atendimento era feito no Hospital Municipal Padre Germano Lauck localizado entre a Rua Adoniran Barbosa e Avenida Paraná no Parque Monjolo.

 Conforme a prefeitura, essa medida teve como objetivo descarregar o atendimento no Hospital Municipal Padre Germano Lauck após o aumento da demanda de casos, que no momento estava com mais de 100% de ocupação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na ala Covid-19, conforme a prefeitura.

Uma possível estratégia seria a de espalhar mais pontos de coletas do exame pela cidade, facilitando o acesso a população e evitando problemas de superlotação da UPA como tem acontecido, espalhamento do vírus, desestímulo para se deslocar e realizar o exame. 

Para fazer o exame a pessoa com sintomas suspeitos deve fazer o agendamento para a coleta de exames por meio do Plantão Covid-19 pelos telefones 0800-645 5655 e (45) 3521-1800 para o atendimento e coleta dos exames.

O resultado do exame sai 3 dias após a coleta. E a pessoa que faz o teste deve se manter isolado como se tivesse testado positivo até sair o resultado do exame.

Para finalizar, o professor James fala do monitoramento como uma estratégia que está dando certo em outros lugares: 

Outro exemplo é o monitoramento dos assintomáticos que, nos outros países, tem sido feito com o auxílio dos estudantes de medicina e enfermagem, pelo mapeamento dos contatos recentes de um caso confirmado da doença, e o monitoramento dessas pessoas, inclusive com o uso de tecnologias para monitoramento remoto, para controle de sua circulação e conhecimento da evolução de seus quadros. 

Há muitos outros exemplos de ações de sucesso, não tão difíceis de serem implantadas, e que trariam bons resultados.

E finaliza nos lembrando da responsabilidade da busca por soluções eficientes por parte dos governos e sociedade. 

“O aprendizado com as experiências de quem tem tido sucesso no enfrentamento da pandemia de COVID-19, em conjunto com a aplicação dos princípios do SUS, poderão fazer a diferença pela forma como o Brasil, e seus estados e municípios, irão entrar para a história.

Cabe a seus líderes e governantes, em comunhão com a sociedade, a busca por maior eficiência. E, depois de mais de um ano, já estamos bem atrasados para agir, e grande parte da população, cansada de esperar. “ 

Diálogos 100fronteiras

1 Comentário

Deixe a sua opinião