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Rogério Barbosa apresenta a exposição “Ainda não está escuro”

Texto: Rafael Vogt Maia Rosa é pós-doutorando no Departamento de Artes Plásticas da USP. Foi, por duas vezes, pesquisador convidado na Yale University (EUA), em 2010/11 e 2013/15. Graduado em Linguística, mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. É crítico de arte, dramaturgo e músico. 

Fotos: divulgação

Fazia tempo que não via seu trabalho. Naquela época, percebi seu envolvimento com a música popular norte-americana e com a poesia, das quais o título da exposição trazia, agora, a lembrança marcada pela voz de Bob Dylan, numa canção que fala sobre um estado que antecede um obscurecimento, um colapso que ainda não aconteceu. Tudo marcado por uma relação fundamental com a natureza, por uma linguagem capaz de lidar de forma empenhada com a espacialidade dos campos, seja de plantações de morangos, seja de folha de papel. Queria criar ali uma espacialização do tempo, um sentimento que contamina o corpo com a mesma intensidade suspensiva da música.

Quando me mostrou essas suas últimas séries, dispondo-as no chão de maneira despretensiosa, como se não tivesse certeza de que deveria abrir o jogo com todas as cartas, imediatamente ressurgiam aqueles mesmos elementos com que trabalhava em Pouso Alegre havia 30 anos. De um modo que ficava clara sua aposta obstinada na apropriação de um eixo horizontal extraído da paisagem e, pela disposição do material, o apelo a uma frontalidade repensada a partir daquela disposição pedestre, indicando que o componente essencial, inclusive do ponto de vista do suporte, dizia respeito à manualidade específica das operações conquistadas no interior de cada peça e no corpo geral do conjunto a ser exibido no cubo branco.

Em uma delas, em particular, esse mesmo esquema encontrava-se desdobrado em outra divisão interna, de cada quadro em dois campos, explorando de modo explícito o confronto das diferenças entre o procedimento do desenho e da pintura. Reiteradas vezes, o desenho com carvão, com traços e ritmos automatizados e sensíveis a um tensionamento geral, fundado nas profundidades das sobreposições, tanto que algumas vezes vêm liquefeitos, contrasta com algo cuja consistência uniforme, opaca e pintada traz uma estabilidade que se mostra ainda mais autoconsciente de seus próprios limites e potencialidades discursivas a se converterem em institucionalização consistente de um gênero num contexto local, qual seja, aquele baseado em uma evolução morfológica obcecada por uma inteligibilidade e perspectiva histórica. A divisão acentuava-se paralelamente também pela variação entre ausência e presença de um verde, por vezes, mais lento, e o preto e branco carbonizado, áspero e ágil, repleto de especulações sismográficas de uma sensibilidade que pode brilhar.

Essa impressão geral de que algumas coisas são inconciliáveis e que assim mesmo se nos apresentam como fenômenos significativos e persistentes, por si, parece importante em uma época em que existe uma demanda genérica por sínteses, a todo custo, por um acabamento homogêneo, algo indubitável, em uma operação que pareça um sucesso, a despeito da morte do paciente.

A arte não deveria mesmo seguir soluções que operem uma conciliação entre a aspereza e a dificuldade de uma visualidade e uma dialética que imita e não interpela um modelo externo consagrado. Aqui se deve notar finalmente que, em alguns casos mais raros, nessas séries de Rogério Barbosa, chega a haver uma inversão de valores: preto do desenho com carvão é intensificado ao ponto de criar uma faixa aveludada que fala de uma qualidade subjetiva da cor, um teor superlativo que só enxergamos por seu negativo. Assim dissolve-se a polarização na metafísica telúrica da paisagem por meio de quem interpreta questões nacionais, regiões e valores culturais envolvidos inclusive no comércio das artes, na assunção das qualidades intrínsecas de um contexto rural.

Sobre Rogério Barbosa

O artista mineiro Rogério Barbosa apresenta a exposição individual Ainda Não Está Escuro, na Galeria Virgílio. O nome da mostra faz lembrar uma canção de Bob Dylan que fala de um estado de obscurecimento, um colapso que ainda não se realizou. A exposição vai até 10 de maio e contém novas pinturas sobre papel em séries de formatos variados.

Essas “Séries Telúricas”, segundo Rafael Vogt Maia Rosa, no texto que acompanha a mostra, traz uma aposta obstinada do artista na apropriação de um eixo horizontal extraído da paisagem e, pela disposição do material, o apelo de uma frontalidade repensada a partir de uma disposição pedestre. As cores terrosas, verdes e azuis somam-se ao preto e branco carbonizado, áspero e ágil, repleto de especulações sismográficas. O resultado é um espaço tensionado em que afloram, como diz ainda o texto, as qualidades intrínsecas de um contexto rural.

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