Renoir: pintar a alegria de viver

1844

Por Heleno Licurgo

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) foi um dos maiores expoentes do Impressionismo, o primeiro movimento do que chamamos de Arte Moderna. Ele pintava, assim como a esmagadora maioria dos impressionistas, a Belle Époque (1871-1914): um mundo cheio de luz, cores vibrantes, pessoas alegres, festas… tudo feito com pinceladas rápidas, tal como a vida moderna que se iniciava no século 19; e hoje participamos ativamente de sua crescente aceleração. Certamente existiram outros autores que pintaram o revés dessa época: as noites tristes, as massas de miseráveis, as desumanas condições de trabalho da Revolução Industrial, as guerras e outras mazelas que ainda persistem em nosso mundo. Mas elas ficam para outro artigo.

Por que dizemos que o Impressionismo foi o primeiro movimento artístico da Arte Moderna? Para entender essa questão, é necessário lembrar que nas artes visuais, especialmente na pintura, existia (e ainda existe) um fértil debate entre desenho versus cor. Ou seja, o que é mais representativo do que seja “arte”, o desenho, o fino acabamento da obra, o delineamento das figuras, o figurativismo preciso, como se fosse a “realidade” expressa na obra; ou a cor, a emoção transmitida por elas que deixam impressões em nossas retinas e cérebro? Esse debate, muito antigo, tem origem na Grécia Clássica em uma outra questão profundamente humana, que é o debate entre razão e emoção, o que Nietzsche usava na dicotomia entre o Apolínio e o Dionisíaco.

Por séculos, a arte teve um primado da razão com o figurativismo (desenho), com poucos momentos de afloramento da emoção nas cores, na composição e no gesto da pintura. O Impressionismo é o primeiro movimento artístico que opta radicalmente pela cor, pela mudança dela por meio da passagem das horas, pela impressão causada pela cor na retina e no nosso cérebro, nas nossas emoções. A arte impressionista pinta com as cores e, assim, vai buscar o profundamente humano, as emoções. Ela vai representar a condição humana por meio da escolha e forma de representação dos temas, sejam eles da vida festiva, sejam do triste fim de noite e da condição de exploração das massas de trabalhadores.

E Renoir é um expoente da pintura da felicidade expressada pelas cores, da alegria de viver, da celebração da vida. O que muito bem pode ser observado em uma de suas obras iniciais mais famosas: o “Bal du Moulin de la Galette”, de 1876, com 131 x 175 cm. O quadro é produzido no estúdio, mas com as memórias das tardes de alegria ao ar livre no Moulin La Galette, que ficava muito próximo ao ateliê do pintor.

Nesse quadro, temos uma inundação de luz e cores vibrantes. As figuras estão divididas em dois grupos por uma diagonal que vai da margem inferior esquerda até a superior direita. No grupo da esquerda, as pessoas dançam felizes em uma tarde após o almoço. No da direta, elas estão em pé ou sentadas conversando e bebendo. Toda obra é um elogio a esse modo de vida boêmio, cheio de alegria, festivo, que celebra o estar vivo, ser capaz de sorrir livremente, de ter amigos, amores e amantes.

Para falar do que movia a pintura de Renoir, existe uma estória – sem registro histórico – dele e seu mestre (Charles Gleyre) que resume muito bem as intenções do artista, as quais cunharam toda a sua produção. Conta essa estória que, um dia, entre as aulas no ateliê do mestre, este, já bastante desagradado pela postura rebelde e vivaz do aluno, vira-se para Renoir e pergunta: “Você pinta apenas para seu divertimento?”. A resposta foi: “Sim, e se não fosse assim, não pintaria”.

Essa frase determina como ele se colocava de forma absolutamente hedonista perante a sua profissão. Como um Sísifo feliz, alguém que faria do seu trabalho cotidiano um ato de prazer. E, por meio desse prazer, construir uma arte que levasse deleite e alegria como mensagem a todos os observadores. A arte com a função de transformar o mundo em alegria.

Para a nossa vida cotidiana, Renoir deixa uma lição grandiosa, a da livre construção de sentido. Se tomarmos a filosofia existencialista, nada no universo tem sentido por si só. E as coisas só passam a ter sentido depois de socialmente atribuídos. Ou seja, é por meio da vida humana que nós, em conjunto, damos sentido a tudo que está no Universo.

Um exemplo disso está na arte. Quando falamos em temperatura das cores, falamos em “cores frias” e “cores quentes”. As primeiras estão mais próximas ao azul; as segundas, mais próximas ao vermelho. E a essas temperaturas das cores também atribuímos sentimentos. As “frias” são mais “tristes”, “intimistas”, “contemplativas”. Já as “quentes” são mais “alegres”, “expansivas”, “comemorativas”. Porém, na física, é o inverso. No espectro luminoso, têm maior frequência as cores próximas ao azul (6,59 – 6,10 x 1014 Hz) e, consequentemente, maior temperatura que as mais próximas do vermelho (4,82 – 3,84 x 1014 Hz).

Ou seja, para nós humanos, fora da tecnicidade e da ciência, não importa se a chama azul é mais quente que a vermelha, mas sim a decisão de atribuirmos sentidos diferentes, não importando o que a razão, a matemática, a física, ou qualquer outra fonte diga o contrário. E essa nossa capacidade de atribuir múltiplos sentidos a tudo que nos rodeia (coisas, seres e fenômenos) é determinante para como vamos nos relacionar com o mundo e com as pessoas que nele vivem, inclusive nós mesmos.

Entre os filósofos existencialistas, Nietzsche traz algumas lições importantes que podem ser utilizadas para entender e transformar essa atribuição de sentido. Em uma carta de sua juventude (aproximadamente aos 18 anos), ele diz que o que exige coragem é seguir o seu próprio caminho. Isto é, superar a sua origem e a sua condição atual, em uma direção desenhada pelo próprio caminhante – cada um de nós. E essa superação, para o existencialismo, estará na atribuição de sentido aos atos da vida cotidiana. Da mesma forma, outro filósofo existencialista, Albert Camus, em seu livro “O mito de Sísifo”, convida o leitor a imaginar o herói alegre, forte e independente, mesmo em face de sua punição absurda. E, dessa forma, transformar a nossa própria existência em um brinde e uma celebração da vida.

A pintura de Renoir é profundamente hedonista, como um convite e brinde à alegria de viver, a atribuir um sentido festivo ao cotidiano, por mais comezinho que esse seja. Mas também um desafio a saborear a vida, a transformar esta, que, por ela mesma, é completamente desprovida de sentido, em uma jornada cheia de cores, beleza e felicidade no próprio cotidiano e na passagem das horas. Ele nos convida – e desafia – a criarmos sentidos belos e alegres para a nossa vida, não nos deixando abater pelas dificuldades que fazem parte de toda a jornada que vai do nascimento até a morte.



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


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