Relação Brasil e Paraguai: a herança histórica de uma guerra

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Recentemente participei de uma banca de TCC de uma estudante paraguaia da Unila. Além dos três professores que compuseram a banca e da candidata a concluir o curso de Relações Internacionais e Integração, estavam presentes os familiares da aluna, incluindo as duas avós. O que esse cenário, comum aos alunos paraguaios, mas não aos brasileiros, pode dizer-nos das relações entre Brasil e Paraguai?

Parece-me que dois destaques são relevantes: em relação à sociedade e em relação à formação superior. A sociedade paraguaia foi profundamente marcada pelo advento da Guerra da Tríplice Aliança (ou Guerra do Paraguai, como se conhece no Brasil). O fatídico evento foi no século 19, mas as marcas na sociedade paraguaia foram profundas a ponto de o assunto ser o principal tópico da história do país até hoje. Para além da motivação, a resposta coordenada entre o Brasil e a Argentina e o Uruguai causou a dizimação da população de homens adultos no Paraguai. A figura mulher, em especial das mais velhas (e das avós), tornou-se a referência e o orgulho para as gerações futuras. Foi nesse sentido que a presença das avós na mencionada banca foi um orgulho para a estudante.

A recíproca também é verdadeira. Para as avós, não foi apenas uma apresentação de trabalho, foi a formação de uma mulher da família no nível superior. Em um país com tantas limitações como o Paraguai, concluir uma graduação em uma universidade pública é um motivo de orgulho familiar. Nesse sentido, ainda que não seja seu objetivo principal, a Unila cumpre um modesto, mas importante, papel de contribuição à formação social paraguaia ao possibilitar o acesso ao ensino público e de qualidade. Coincidentemente, esse fato ocorreu no mesmo espaço onde está a Usina de Itaipu, um empreendimento baseado em relações fronteiriças de aproximação (e não de separação) entre Brasil e Paraguai. 

Micael Alvino da Silva

Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Mestrado em Relações Internacionais (PPGRI) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). Coordenador do Grupo de Pesquisa Tríplice Fronteira (CNPq) – https://triplicef.org/




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