mulheres policiais
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Engana-se quem acredita que estudar é fácil, ou coisa para gente no mínimo, desocupada, sem afazeres e com a vida ganha, seja para o que for. ERRADO! Muito pelo contrário, rever ou aprender conteúdos em grande escala em um curto período de tempo é bem complicado. Na contramão, quatro mães, com filhos de até 10 anos de idade, provaram que é possível conciliar toda uma rotina doméstica, estudar e ainda ganhar força física, para disputar vagas com outros jovens bem saudáveis.

Jessica Naiara, de 27 anos, tem um menino de três anos de idade, que ainda mama no peito. A rotina dela começa com trabalho fora de casa, de segunda a sexta, cuidados com o lar e com o filho, além de se dedicar as coisas da igreja. Estudar, as cinco matérias exigidas no concurso, não tem sido fácil, com o pequeno Gustavo querendo atenção a todo o momento, seu desdobramento passou a ser quando a casa dorme. Assim, na madrugada a concentração toma conta, e pela manhã, nada de dar lugar ao sono, pois a vida não pode parar. Focada em realizar seu sonho, teve que procurar um preparador físico para aperfeiçoar o tempo e se adaptar de verdade para conseguir uma vaga como servidora pública. Agora vamos fazer as contas, trabalho fora; trabalho doméstico; cuidar do filho; serviços comunitários na igreja; estudar e preparo físico, uffa, nem perto de ser acessível, mas com apenas um filho, ainda tem gente que diria: com um filho está fácil!

Jessica Naiara
Jessica com o filho Gustavo. (Foto: arquivo pessoal)

Se a questão for quantidade, temos outra mãe que busca uma vaga em carreiras policiais. Guizela Mafra, de 36 anos, fora do peso, um pouco mais velha que as demais mães desse artigo, têm três filhos, de dois, sete e dez anos de idade. Ela já é funcionária pública, mas não de carreira policial. Guizela recorda que pouco depois de ter sua última filha passou para fase do TAF (Teste de Aptidão Físico), de um concurso desejado, mas com o bebê muito pequeno, não conseguiu dar conta dessa aprovação, e com esse já deu para contar uns oito anos de estudos, cuidando dos filhos, da casa, dá vida na igreja e do trabalho fora de casa. Hoje a senhora Mafra se prepara para mais uma tentativa de aprovação que exige dela, dedicação e abdicação dos lazeres, para dar conta de estudar e treinar, tanto para atingir as metas dos testes físicos desse concurso, quanto alcançar qualidade de vida e sair do sobre peso. Nessa quase uma década, ela sente que a cada concurso nada fica mais fácil, porém ela tem se tornado menos abalável e cada vez mais persistente.

Guizela Mafra
Guizela com os três filhos. (Foto: arquivo pessoal)

Acredite, concurso público tem sido a principal opção depois que o país foi atingido por “lockdown’s” e pandemias. Ser servidor público tornou-se a solução de estabilidade para pessoas que sonham com carreiras policiais ou que apenas precisam pagar as contas. Se olharmos algumas décadas passadas, iriamos ver que apenas em 1970, o Paraná, por exemplo, passou a integrar mulheres na polícia militar, e em 1990, esse número chegou perto de 12% do total de policiais.  Ou seja, esse papel, era e ainda é majoritário da ocupação masculina, então, uma mulher que consegue dar conta de tudo que “biologicamente” lhe é incumbido e ainda se encoraja a servir o estado nem pode ser chamada de sexo frágil.

E dentre esses cargos escolhidos, para quem entende um pouquinho de carreiras policiais, servir o corpo de bombeiros exige o dobro de esforço.  Luana, aos 27 anos, mãe do pequeno Lucca, de dois anos, pela primeira vez se prepara para esse desafio.  Sem dúvida esse é seu maior sonho profissional, servir o corpo de bombeiros, pouco se importa que tenha que fazer o dobro de testes físicos que os demais soldados, e devido à idade essa será sua única chance de ingressar na carreira militar. O lema e a essência dela estão relacionados a fazer algo pelo próximo e nunca achar ser tarde para lutar pelo que acredita.  Sem trabalho fixo, ela se desdobra com as economias para pagar os cursos on-line e o preparador físico. Na turma a qual treina, é o destaque em agilidade, determinação e força. Em casa, o esforço é bem maior, o bacana mesmo é saber que todos apoiam e contam já com sua vitória.

Luana e Lucca
Luana estudando na companhia do filho Lucca. (Foto: arquivo pessoal)

A batalha da Michelle começou cedo. Aos 28 anos de idade, a profissional de vendas de pacotes de turismo, com um filho de cinco anos, já prestou alguns concursos de carreira policial. Desde os 18 anos ela busca dar orgulho para seus familiares, já que vem de uma família com integrantes militares. Nesse meio tempo, com a vinda do filhote Nicolas, ela parou com as tentativas de concurso, mas aproveitou para ingressar em uma faculdade. Nesse ano de 2020, a confiança está tão alta, que se inscreveu para dois concursos de carreira policial de uma vez. “E aí Michelle, como fica essa rotina?” Uma pergunta que ela sempre se faz, isso porque à noite, de madrugada e nos fins de semana, ela se dedica para os estudos e se tratando da parte física, a boa notícia é que a agenda não ficou tão apertada, por já ser uma atleta competidora de artes marciais, o itinerário dos treinos ficou mais leve. O legal de tudo isso é que o Nico, apelido carinhoso do filhão, se não fica com a avó, com a tia, ou com uma babá, segue junto para os treinos. A determinação dela faz com que o preparo para esse concurso não tenha seu caminho desviado, até por que perder o foco é uma coisa que está fora dos planos.

Michelle e Nicolas
Michelle com o filho Nicolas. (Foto: arquivo pessoal)

O que todas têm em comum, além de serem mães e se prepararem para concurso? A ampliação do leque de tarefas, sem se desviar da vida como ela é, para alcançar o sonho da real independência, o sonho de ser servidora de carreira policial e no geral literalmente ser “dona de seu próprio nariz”.  A motivação: os filhos. O desafio, a maternidade, o lar, o medo existe, mas não atrapalha de disputarem questão a questão, minuto a minuto, com os famosos “nerds” dos concursos públicos. Ninguém disse que seria fácil, no entanto frágeis, elas provam dia a dia que não são. Ah! Em 2021 saberemos aonde essas quatro determinadas chegaram.

Querolaine Davies
Querolaine Davies Simões é Jornalista e autora deste artigo. (Foto: arquivo pessoal)

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