Primitivistas brasileiros: fora do tradicional, dentro da arte 

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Por Heleno Licurgo – sociólogo, professor, fotógrafo e artista plástico. Facebook.com/helenophoto Insta: (@helenolicurgo) 

Com o Modernismo Brasileiro, historicamente marcado pela Semana de Arte Moderna em 1922, o Brasil se estabelece como pioneiro nas Américas na criação de arte autenticamente (“autenticidade”, no sentido usado por Heidegger com o termo Dasein”) nacional. Essa arte, autenticamente brasileira, começa a buscar os seus caminhos de expressão usando as técnicas produzidas na Europa, mas representando os temas, as cores, a paisagem urbanística, a flora, a fauna e as pessoas do Brasil, sem fazer nenhum tipo de concessão à expressão do “exótico”, ou de uma fantasia estrangeira de “paraíso tropical”. O Brasil retratado é aquele da vida cotidiana das pessoas, das cidades que mesclam estradas de ferro, torres de alta-tensão com plantas nativas, casebres, ruas não asfaltadas e retirantes (trabalhadores rurais deslocados de suas terras) acossados pela fome. 

Logo após o furor da Semana de Arte Moderna e nas décadas seguintes, nasce a arte primitivista brasileira. Primitivismo aqui está no sentido de “natural”, afastado dos cânones, dos “estilos”, do academicismo de qualquer forma de produção artística pretérita. Um movimento artístico que mescla elementos estéticos do folclore, do artesanato e das mais diversas tradições populares, em uma poética plástica original. 

Os autores primitivistas são, em sua esmagadora maioria, pessoas oriundas das camadas mais vulneráveis da populaçãoMuitos não tiveram nenhum tipo de treinamento acadêmico em desenho, pintura ou escultura, e, quando o tinham, era muito limitado. Antes de enveredarem pela arte, eram artesãos, folcloristas, sambistas, costureiras, boias-friasempregadas domésticas, porteiros de prédios etc. Sua arte nascia do desejo de representação dos eventos de seu cotidiano 

A forma de expressão das impressões visuais e psicológicas desses eventos era aquela que o artista era capaz de produzir sem nenhum ou com pouco treinamento técnico. Por meio da práxisessa arte nova e “primitiva” era produzida, possibilitando a cada um desses artistas, homens e mulheres, estilos próprios inconfundíveis. Autenticidade em sua melhor expressão. 

Em arte, o treinamento acadêmico é importante, mas ele também pode ser um grilhão, pois, quando os artistas empreendem o treinamento nas academias de arte, certamente são expostos, aprendem e reproduzem os cânones, regras artísticas produzidas por outras pessoas, de outros lugares (com outras histórias econômicas, políticas, sociais e culturais), outras pessoas, com outras vivências, cosmovisões e culturas 

A arte produzida a partir de um treinamento acadêmico, muitas vezes, não tem absolutamente nada de autêntica, mesmo que seja original, pois ela não expressa o artista como um ser no mundo, independente, consciente de sua finitude e de sua história de vida social, mas como alguém que formou sua biblioteca visual e conformou sua poética e sua estética aos padrões externos, importados através de gerações de instrutores, professores, mestres, críticos, livros que dizem o que é e o que não é arte. 

Dessa forma, artistas formados dentro dos padrões acadêmicos normalmente travam lutas por anos, ou décadas, para serem capazes da independência e da autenticidade. Depois de educados e treinados nas academias, é muito complicado, para a esmagadora maioria das pessoas, criar a sua própria forma de expressão. Elas, praticamente, fazem um “caminho de volta”para conseguirem buscar, desaprendendo tudo o que lhes foi ensinado como esteticamente “bom”, para poderem produzir aquilo que é esteticamente autêntico a partir de si mesmas e para si mesmas. 

Porém, para os primitivistas brasileiros, o aprendizado por meio da observação, ou da prática artesanal, deixou espaço livre para a criação de uma arte que seria uma representante visceral de cada um desses artistas. Cada um deles, homens e mulheres, é único. Os temas, traçados, cores, pinceladas são tão peculiares que não se confundem um com o outro. Originalidade e autenticidade são expressas de forma pujante e direta. 

Dois representantes desse estilo vão receber destaque aqui, pois eles são capazes de sintetizar e exemplificar, por intermédio de suas histórias de vida e de sua produção artística, tudo o que o Movimento Primitivista significa, foi e, de certa maneira, ainda segue sendo. Eles são Heitor dos Prazeres (18981966) Djanira (19141979). 

Heitor dos Prazeres era filho de um marceneiro e uma costureira. Natural do Rio de Janeiro, bairro Cidade Nova, na região central. Negro, pobre, nasce apenas dez anos depois da abolição da escravidão no Brasil. Heitor vê seu bairro passar de uma vila operária a uma região de passagem e zona de meretrício (Vila Mimosa) nos anos 50, até que a especulação imobiliária e verticalização do final dos anos 60 a transformassem em zona comercialObserva como a vida das pessoas está à disposição da voracidade da especulação imobiliária e financeira.  

Aos 7 anos perde o pai e tem de batalhar pela vida ao lado da mãe. Logo cedo, do tio Hilário Jovino Ferreira, conhecido sambista carioca, pioneiro dos ranchos carnavalescos da cidade, ganha um cavaquinho e suas lições de música. Aos 12 anos, vai trabalhar com o que pode para ajudar a família. Ele será engraxate, jornaleiro, ajudante geral qualquer trabalho para um menino pobre e negro do início do século 20. E, como tantos outros meninos negros e pobres (de ontem e de hoje), conhece também a prisão. Porém ele vai desenvolver-se como sambista especialmente com os compositores das escolas de samba pioneiras, Mangueira, Portela e Estácio de Sácom os quais estabelece excelentes parcerias e participa da fundação dessas. 

Apenas em 1937 é que vai dedicar-se à pintura, mas sem abandonar o samba. Nessa época, o mercado para artistas negros e de origem popular ainda era muito restrito, e serão necessários quase 20 anos para ele ganhar o merecido destaque, que vem com o terceiro lugar na Primeira Bienal Internacional de São Paulo, na qual ingressou sem grandes pretensões e a pedido de seu amigo Carlos Cavalcante. 

Suas obras têm características marcantes e inconfundíveis. A figura humana recebe o destaque principal. O lirismo e a cinética aparecem nos rostos de perfil, nas posturas quase sempre na ponta dos pés, nas cores vibrantes, nos temas dos festejos e costumes populares, nas rodas de samba e na paisagem do cotidiano das comunidades e bairros populares. A postura na ponta dos pés merece um destaque analítico. Essa escolha demonstra uma sensibilidade estética ímpar, que permite ao artista encontrar o “seu estilo”, ou seja, uma autenticidade 

Ele procurava expressar como essas pessoas se agitavam, dançavam, festejavam a alegria de viver, e consegue via representação dos movimentos de seus corpos, congelados no movimento na ponta dos pés, como se estivessem em um balé da vida. A vida é celebrada, não é um autor casmurro que fica lamuriando-se dos azares, mas que deseja expor que, apesar de todos os enormes problemas cotidianos enfrentados, a alegria, assim como a vida (biológica), encontra seus espaços para florescer e se desenvolver. 

Djanira, de origem muito humilde, foi boia-fria, campesina das lavouras de café e criação de gado, viúva, vendedora ambulante, costureira, dona de pensão. Chegou a contrair tuberculose, da qual foi tratada com sucesso. Essa sua internação foi também o primeiro momento de contato com a pintura. Para ajudar a superar os sofrimentos da internação, ela começa a pintar. Sua primeira obra será um Cristo no Calváriona qual o representa contorcido de dores como os pacientes do hospital. 

Curada da tuberculose, vai mudar-se para Santa Tereza, onde abre uma pensão que recebe vários artistas e teóricos de arte. Contudo sua maior preocupação era manter a saúde e conseguir dinheiro para a sobrevivência diária. Dessa maneira, ela vai cuidar da sua pensão (limpando, cozinhando e administrando) e vai ser costureira. O desenho e a pintura são atividades para as poucas horas livres. Por meio de um acordo com Emeric Marcier (pintor e muralista romeno), ele ensinaria para ela técnicas de pintura (manuseio de tintas, telas e têmperas) e, em troca, teria as refeições garantidasDjanira define esse momento como aquele em que “durante cinco ou seis meses aprendi com ele a cozinha da pintura, aquela que não se aprende na escola”. Depois, por seis meses em 1939, frequenta aulas técnicas noturnas no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. 

Djanira terá uma arte dividida em dois grandes períodos. O primeiro, nos anos 40, está centrado na vida cotidiana que ela observava no Rio de Janeiro. As figuras humanas estão sempre como foco principal das obras; aliás, característica comum a todos os primitivistas, pois é na representação do humano que os artistas encontram a forma de expressar si mesmos e a crítica ao seu tempo histórico. O traçado do contorno das figuras é bem marcado e escuro. As posturas trazem a sugestão de movimento, retratando uma cidade e uma vida urbana agitada, cosmopolita, em transformação. As cores são fortesmovimentadas como a metrópole. 

A segunda fase de Djanira, já na década de 50, faz um retorno à sua origem rural e é testemunho da sua fé, mesclada, popular, sincrética, ou seja, profundamente brasileira. Os traçados ainda são bem marcados, bem delineados, e as figuras são facilmente distinguíveis umas das outras. As cores já se tornam mais claras, mais suaves, fazendo referência ao movimento lento e à continuidade das estruturas e instituições sociais da vida no campo. 

Os primitivistas brasileiros, que vão muito além dos dois citados aqui, são artistas que buscaram construir uma arte capaz de representar o Brasil de forma autêntica. Sem ocultar nada das suas características mais peculiares, mesmo que desvalorizadas pelas elites econômicas, pelo mercado e pelo Estado. Uma das falas mais marcantes da autora, que resume toda a sua intenção e práxis como artista (e de todo o Movimento Primitivista Brasileiro), é: “Tenho raízes plantadas na terra, não traio minha origem, nem me envergonho de ser uma nativa. Confio no desenvolvimento de uma arte autenticamente nossa”. 




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