A afetividade está muito ligada ao nosso idioma, ou ao contrário, o idioma à nossa afetividade, à nossa língua materna e nossa língua estrangeira ou adicional. Aqui na fronteira ainda mais, pois convivemos diariamente com uma troca de diversas línguas e culturas.

Quase como a comida de infância, cheiros característicos que sempre trazem lembranças e memórias afetivas. Me lembro que quando atravessei pela primeira vez a fronteira indo para Argentina, eu comentei com um amigo que o cheiro de carne assada, de pão feito na hora, sempre me lembrava as minhas avós na cozinha… minha mãe no café da manhã. Quando moramos em outro país, acontece isso, já perceberam? Como aqui, neste nosso entrelugar fronterizo estamos na divisória de um país ou outro, talvez isso se potencialize.

As línguas também, e sempre, são afetivas. Me lembro da minha mãe me chamando de “m’hija”, ou da minha avó falando sempre na hora do café: me pasás el matecito? Não posso chamar com outro nome ao matecito, ele é o matecito e o conceito se preenche com uma carga afetiva imensa, de infância, de cores e de aromas.

Gostaria que sempre possamos fazer o exercício de trazer a memória as palavras de nossa infância em todas as línguas e em todas as culturas, de ter um momento para a gente reunir todas as línguas e fazer um glossário multilíngue da infância, com palavras de afeto, do corazón – como gosto de chamar. Quando cheguei ao Brasil, me lembrar das palavras e gestos da minha família me ajudaram no processo de acolhimento no país, esse novo desconhecido e agora tão meu. No ato de nomear, trazemos a memória afetiva, os momentos, os afetos.

Na fronteira temos a possibilidade de conhecer muitas palavras, do espanhol, do guarani, do árabe, e de tantas outras línguas que aqui estão presente com seus afetos. Se a gente fosse criar uma língua fronteriza ela seria uma amálgama de todas elas que aqui circulam, seria de muitas cores, teria muitos cheiros e comidas diversas, com muitos sotaques e variações. Eu, às vezes, sonho com essa língua, começo a misturar brincando e, assim, o quintal seria um jardin, as ruas seriam las calles, o matecito pode ser também o tereré, e a chipa com shawarma também seria uma mistura legal.

As crianças adoram brincar na fronteira, com línguas muito mais. Aqui, temos na escola crianças de muitos países, de diversas culturas e é nesse ambiente que aprendemos a ser cada dia mais diversos, mais fronterizos, do amor e das flores.

Democracia Inabalada.

Jorgelina Tallei

É Doutora em Educação (FaE) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Possui Licenciatura em Letras pela Universidad Nacional de Rosario (2003), Mestrado em Letras - Língua Espanhola e Literatura Espanhola e Hispano-Americana pela Universidade de São Paulo (2010) e Mestrado Profissionalizante na Área de Novas Tecnologias, pelo Instituto Universitario de Posgrado (Espanha). Atualmente é Professora de Língua Espanhola como língua adicional na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) no Ciclo Comum de Estudos. Tem interesse nas áreas de ensino de espanhol, fronteira e interculturalidade e línguas em contato.

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