Nós vivemos em tempos desconcertantes.

Guerra está sendo travada no coração da Europa, e a luta sem sentido parece trazer um longo e duro inverno.

Os preços de comida e combustível saíram do controle como resultado, acarretando fome e sofrimento – e não menos para comunidades vulneráveis que estão longe do conflito.

Tensões crescem no leste da Ásia, em meio a uma rivalidade entre Estados Unidos e China, transformando Taiwan em uma caixinha de fósforos que pode explodir em um grande confronto que ninguém quer, ou seja capaz de controlar.

Em contraste com esse cenário, o fluxo de reportagens sobre o clima extremo – enchentes, incêndios e secas – ao redor do mundo, causa alarme. A crise climática está cada vez mais difícil de ser abordada.

Não surpreende que as audiências digam que estão exaustas das notícias. As pessoas estão ansiosas com os desenvolvimentos recentes e para onde eles estão nos levando.

Notícias falsas e desinformação agravam a doença. Parte disso é propaga deliberadamente, para balançar a opinião pública, mas muito é compartilhado inocentemente, mesmo sem pensar, nas redes sociais. E ainda, restrições para a verificação podem conter a legitimidade das interações.

Em tempos como esses, o Dia Mundial das Notícias, que é celebrado hoje (28/09), tem grande significância. Hoje, refletimos sobre como o jornalismo pode fazer a diferença e porquê é tão importante que a faça. 

Jornalistas em redações profissionais tem o papel vital de proteger o bem-estar das comunidades que servem. Nossas democracias dependem disso – o jornalismo precisa ser feito de forma efetiva e com propósito.

E como fazer isso do melhor jeito possível?

Pessoalmente, o que me vem a cabeça, é que precisamos focar em entregar informação, conhecimento e inspiração.

Informação credível – baseada em fatos, confiável e imediata – continua sendo vital. Mesmo sendo racionais e razoáveis, o debate sobre como lidar com os desafios que enfrentamos ainda é recorrente. Precisamos encontrar nosso caminho adiante. Enquanto podemos todos ter nossas opiniões, não somos donos de nossos próprios fatos. Sem nenhum acordo sobre até mesmo fato básicos, discussões democráticas são reduzidas a uma dissonância de afirmações, onde “os melhores perdem toda a convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade passional”, como colocou Yeats.

Jornalismo baseado em fatos requer diligente esforço para os repórteres, incansável apuração e qualidade de controle por parte dos editores, assim como análise das autoridades e interpretação de comentadores experientes.

Não surpreendentemente, nesses tempos desorientadores, as audiências estão procurando por vozes confiáveis, em quem possam depender para entregar notícias verdadeiras e comentários perspicazes. Múltiplos estudos mostram que a audiência valoriza os explicadores e analistas – seja online, por vídeos e newsletters.

Para além disso, enfrentados com ondas de desgraça e melancolia, as pessoas querem inspiração. As pessoas querem ouvir sobre possíveis soluções para os problemas atuais, e também querem ouvir aqueles que estão as abordando. Então, o conteúdo também busca iluminar cantos escuros, e dar voz a comunidades – e assuntos – que são negligenciados ou ignorados com frequência.

Permita-me citar um exemplo: uma série de vídeos, intitulada ‘Invisible Asia’, na qual meus colegas do The Straits Times lançam um holofote sobre pessoas que vivem nas sombras de suas sociedades, em grande parte não vistas e ouvidas.

Estes incluem os burakumin ou “intocáveis” no Japão, as dificuldades enfrentadas pelos limpadores de esgoto na Índia moderna e o exército silencioso de trabalhadores migrantes da China, bem como a sensação de isolamento enfrentada por noivas desavisadas trazidas do exterior para casar com homens em Cingapura.

A série foi premiada com o principal prêmio de jornalismo de vídeo investigativo/empresarial no Editor & Publisher EPPY Awards 2021. (Veja!)

Muitos outros exemplos de como o jornalismo causou impacto podem ser encontrados no site do Dia Mundial das Notícias. O velho ditado da redação, “mostre, não conte”, se aplica aqui.

Em um momento em que as campanhas orwellianas de “guerra é paz”, “liberdade é escravidão” criam sentido duplo e em que as campanhas de desinformação patrocinadas pelo Estado são desenfreadas, parece apropriado recorrer a esse sábio jornalístico, George Orwell, para se inspirar no Dia Mundial das Notícias.

Em seu ensaio de 1946, “Why I Write”, Orwell argumentou que todos os escritos, mas especialmente os empreendimentos jornalísticos, têm um propósito político, bem como a busca de contar bem uma boa história.

Suas palavras soam verdadeiras hoje. Ele escreveu: “Meu ponto de partida é sempre um sentimento de partidarismo, um sentimento de injustiça.

Quando me sento para escrever um livro, não digo a mim mesmo: ‘vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque há alguma mentira que quero expor, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e minha preocupação inicial é ser ouvido.

Mas eu não poderia fazer o trabalho de escrever um livro, ou mesmo um longo artigo de revista, se não fosse também uma experiência estética… . Enquanto eu estiver vivo e bem, continuarei a sentir fortemente o estilo da prosa…

O trabalho é conciliar meus gostos e desgostos arraigados com as atividades essencialmente públicas e não individuais que esta época impõe a todos nós.”

Assim foi, e assim permanece, especialmente nos dias de hoje.

Sobre o autor:

Warren Fernandez é presidente do World Editors Forum, uma rede de editores da Associação Mundial de Editores de Notícias, e também editor-chefe do The Straits Times em Cingapura.

O Dia Mundial das Notícias é uma campanha global de redação para destacar o valor do jornalismo. É organizado pelo Fórum Mundial de Editores da Associação Mundial de Editores de Notícias (WAN-IFRA) em parceria com a Canadian Journalism Foundation.

Warren-Fernandez editor do The Straits Times e Presidente do Fórum Mundial de Editores

Warren Fernandez

Editor-chefe do The Straits Times, o principal jornal inglês de Cingapura. Presidente do Fórum Mundial de Editores.

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