Hoje irei escrever sobre o projeto Autoestima Desenhada. Uma ideia maravilhosa, da qual soube recentemente e não pensei duas vezes em apresentá-la por aqui. Sou grata por ter esse espaço e poder compartilhar histórias e projetos lindos com você, leitor. 

O projeto Autoestima Desenhada, ajuda mulheres, vítimas do câncer de mama, a retomarem sua autoestima e amor próprio através do trabalho de micropigmentação da aréola após retirada do seio em cirurgia. A idealizadora do projeto é Francielly Rodero, que trabalha em conjunto com a Vandressa Erthal, sua parceira nesta jornada. Em entrevista, elas me contaram com orgulho de onde surgiu a ideia do projeto e como ele ganhou forma desde que foi idealizado.

Francielly-Vandressa
Francielly e Vandressa

Francielly Rodero tem 35 anos, é formada em Estética e Imagem Pessoal e trabalha como Micropigmentadora e Tatuadora em seu estúdio próprio. Sua parceira de projeto Vandressa Erthal tem 37 anos, é formada em Biomedicina Estética e também atua como Micropigmentadora. 

Francielly-Rodero
Francielly Rodero – Foto: Leila Federizzi

Juntas, essas duas profissionais transformam a vida de outras mulheres que passaram e ainda passam por momentos difíceis com a autoestima abalada; muitas desacreditadas em vários aspectos de suas vidas. 

Vandressa-Erthal
Vandressa Erthal – Foto: Leila Federizzi

Foi lindo ter a experiência de entrevistá-las. As primeiras perguntas são referentes a Francielly, justamente para entender melhor de onde veio a ideia do projeto e sua ligação com a profissão de micropigmentadora. Vandressa também participou logo em seguida, respondendo outras questões. Confira:

Francielly, como foi o início da sua carreira?

Francielly: Trabalhava no estúdio, junto com meu marido Washington. Aprendi a tatuar e a fazer perfurações de piercing, mas sempre gostei muito da parte de maquiagem e na faculdade me encantei muito. Nas aulas dentro da parte de maquiagem semi permanente não precisávamos focar apenas no rosto, então me especializei no que chamamos de micropigmentação paramédica, onde se esconde cicatrizes, reconstrói aréola e outros trabalhos. Isso me chamou atenção, pois no estúdio de tatuagem recebíamos muitos clientes que haviam feito cirurgias plásticas e queriam esconder as marcas de alguma forma. Nessa época ainda vendíamos muito “tatuagem para esconder cicatriz”; não havia a parte estética, para cobrir com algo mais discreto. Foi onde a história aconteceu. 

Como surgiu o interesse em focar exclusivamente no público feminino?

Francielly: Na época em que trabalhava no estúdio de tatuagem as pessoas procuravam meu marido para fazer maquiagem definitiva, pois ainda não existia micropigmentação. Ele sempre falava para eu fazer essa parte de maquiagem definitiva, pois as mulheres se sentiriam mais à vontade de serem atendidas por outra mulher. Quando começou a surgir a micropigmentação vi que era algo totalmente diferente, me especializei e comecei a trabalhar na área, dentro do estúdio. Entrei na faculdade de estética e fui gostando cada vez mais e me aperfeiçoando.

Como foi e como surgiu a ideia de criar o projeto?

Francielly: Logo depois que foquei na micropigmentação paramédica na faculdade, meu marido me deu a ideia de fazer um projeto para ajudar as pessoas que não tinham condições; e assim, eu aplicaria o trabalho que queria fazer; foi aí que surgiu o projeto. Também vimos estúdios de tatuagens em outros estados fazendo esse tipo de trabalho voluntário e tivemos a iniciativa de criar algo semelhante aqui em Foz do Iguaçu, com outro nome.

Quando iniciei o projeto algumas mulheres vieram falar comigo, mas tinham receio a respeito da micropigmentação e ainda estavam em período de tratamento. A falta de divulgação também fez com que o projeto não fosse conhecido pela população e não tivemos o engajamento que queríamos. 

Como você e a Vandressa decidiram se unir no projeto?

Francielly: Na pandemia a Vandressa me procurou querendo fazer um projeto como o meu; ela não sabia do Autoestima Desenhada, até então; foi aí que falei para ela sobre o projeto e então nos juntamos. Em duas conseguimos espalhar sobre o projeto, para mais pessoas. 

Vandressa: Eu nem conhecia a Fran pessoalmente, conhecia o marido dela, que tatua minha família. Nem sei como cheguei nela, mas começamos a conversar e era uma coisa que eu queria muito fazer e não sabia do projeto. É muito gratificante fazer algo que ajuda alguém. 

Hoje, há mais profissionais que participam do projeto?

Francielly: Hoje na equipe somos eu, a Vandressa e a Cristina Kobayashi, que é acupunturista. A Cris já atendia uma paciente com câncer de forma voluntária e quis agregar no projeto junto conosco. A acupuntura está trazendo um super resultado nas pacientes atendidas. Além dela, estamos em contato com outros profissionais de outras áreas para iniciarem conosco, em breve.

Vandressa: O interessante é que acabamos aprendendo muito com outros profissionais do projeto. A troca de conhecimento entre profissionais ajuda a melhorar técnicas e melhora o projeto, independente da profissão, tudo agrega.

Como o projeto funciona?

Francielly: Para realizar a micropigmentação da aréola, é necessário que a cirurgia de reconstrução da paciente tenha sido realizada há pelo menos um ano, isso porque o pigmento da tatuagem contém elementos que entram em conflito com exames de ressonância magnética, feitos com frequência em pacientes durante o tratamento da doença. É necessário também a autorização médica, informando se a paciente está apta para o procedimento.
Tudo tem que ser cuidado minuciosamente, a medicação, a imunidade da paciente; tudo deve ser informado para a realização da nossa avaliação.

Quantas mulheres já foram beneficiadas pelo projeto?

Francielly: Este ano apenas duas. Com a pandemia voltamos com o projeto agora, em outubro. Anteriormente, não conseguimos atender ninguém. Algumas mulheres entraram em contato, mas não evoluíram com o atendimento pois ainda estavam em tratamento.

Vandressa: Percebemos que a parte psicológica também influencia na decisão em ser paciente do projeto. O tratamento do câncer não é destrutivo apenas na forma física, elas têm uma barreira enorme em falar do problema e conseguirem se despir para realizar as sessões de micropigmentação. 

A questão do seio, assim como a questão do cabelo, é a imagem da mulher e isso reflete em como ela se enxerga. Elas se veem sem uma parte do seio, mutilada de muitas formas, pois, às vezes, a cirurgia não é apenas no seio. Além de passarem por momentos difíceis e preconceituosos, o primeiro passo é aceitar chegar aqui. É uma batalha delas com elas mesmas. 

A divulgação é muito importante para que o projeto siga adiante e mais mulheres sejam beneficiadas. A partir do momento que essas mulheres sabem do projeto, pode ser que não seja agora, nem neste ano, mas em algum momento, elas irão lembrar quando estiverem em uma situação diferente mas é preciso que as pessoas saibam que o projeto existe, que ele é gratuito e vitalício.

Tem alguma história interessante, que envolve o projeto e que pode ser contada para nossos leitores?

Vandressa: Todas! Não tem uma história que não leve um pedaço do nosso coração. 

Francielly: A Vera, uma de nossas pacientes, ainda não realizou o procedimento de reconstrução da aréola pois está verificando com o médico se conseguirá a reconstrução da mama com cirurgia plástica. Como não faríamos a micro no seio no momento, então demos à ela micro de maquiagem. Ela ficou muito feliz.

Vandressa: Quando não podemos fazer a aréola, fazemos a maquiagem. Não há restrição. Temos que avaliar apenas qual a necessidade de cada pessoa. No momento em que vi a Vera em pé, em frente ao espelho, foi o momento mais incrível que já vivi nos últimos anos. Me senti o ser humano mais pequeno do mundo. É muito intenso! Nos olhamos e falamos para nós mesmos: “Eu faço tão pouco, poderia fazer mais pelas pessoas”. Porém, o quão grande é para elas, estarem recebendo apenas isso de nós. As histórias sempre vêm carregadas de muitos sentimentos, de perdas, de dores, de recomeços, de buscas por se encontrarem como mulheres. 

Encerramos a entrevista, emocionadas e chorando. Foi inevitável. Senti orgulho do trabalho dessas mulheres gigantes e incríveis, que ajudam outras mulheres corajosas e fortes que passam por tantos obstáculos diariamente.

Durante nossa conversa, pude entender que após a ideia primária do projeto ele foi sendo modificado conforme as meninas sentiram necessidade, pela pouca adesão das pacientes. No início, a Fran pensou apenas na micropigmentação da aréola; hoje, o projeto se estendeu para ajudar de outras formas; caso a paciente não possa realizar a micro no seio. 

Isso é grandioso. 

O projeto é importante para mulheres que passaram e ainda estão em processo de tratamento do câncer de mama. Ele deve ser altamente divulgado para que chegue a mais pessoas e seja repassado adiante. O projeto Autoestima Desenhada também está em busca de voluntários de outras áreas para somar ao projeto. Se você tem interesse, entre em contato com a @franrodero e @vandressa_erthal, através de suas páginas no Instagram. 

Tenho certeza que com a ajuda e a divulgação o projeto crescerá e muitas mulheres terão sua autoestima desenhada e renovada.

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Tenho certeza que com a ajuda e a divulgação o projeto crescerá e muitas mulheres terão sua autoestima desenhada e renovada.

Até a próxima, leitor!

* Os nomes de pacientes descritos aqui são fictícios. 

Revisão: Verônica Furtado

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Turismóloga, formada pela União Dinâmica de Faculdades Cataratas. Trabalhou como produtora de conteúdo na área de marketing de destino, no segmento de turismo. Atualmente é responsável pela área de Marketing em setor de confecções e cama, mesa e banho, além de desenvolver projeto secundário de cerimonial em festas e eventos.

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