Não dá para falar de Foz do Iguaçu sem lembrar das Cataratas e imaginar aquela extensa área verde do Parque Nacional do Iguaçu que cercam as quedas d’água. Olhando isso e alguns trechos da região central, onde as árvores dividem espaço com o asfalto, é difícil imaginar que a cidade esconde em seus rios e córregos um descaso com a natureza e poluição causada pela ação humana. Infelizmente, esse descaso com a questão ambiental é cada vez mais comum.

Por diversas vezes abordamos a questão ambiental na 100fronteiras. Já escrevemos reportagens sobre a poluição do rio Iguaçu, que desanda nas Cataratas, já falamos sobre cachoeiras escondidas no centro da cidade, assim como sobre o Parque Monjolo e agora, mais recentemente, sobre o rio Jupira, na Trilha do Vietnã. Em todos esses casos a beleza do lugar perdia espaço para a poluição e o descaso.

Também, por todas as vezes, tentamos, juntos a prefeitura e órgãos responsáveis (como a Sanepar que admitiu haver vazamento de esgoto em rios do centro da cidade), uma resposta ou solução para esses problemas, mas nunca de fato vimos uma ação para melhorar a situação desses locais e evitar novas fontes de poluição.

Ponte sobre o rio Boicy no Jardim Alice 2. Av Pôr do Sol
Ponte sobre o rio Boicy no Jardim Alice 2, Av Pôr do Sol.

A questão é: por que a história sempre se repete? Conversamos com o geógrafo Daniel Dantas Duarte para tentar entender o motivo de uma cidade como Foz do Iguaçu se encontrar nessa situação ambiental.

Segundo ele, apesar de haver um grande número de rios e nascentes, principalmente na área urbana, a qualidade das águas dessas nascentes e rios não são boas. “Para comprovar isso, nem precisamos de muito esforço. Basta observarmos o rio Boicy passar por baixo da ponte da avenida República Argentina para sabermos que algo não está bem. Sinta seu cheiro ou, se for mais aventureiro, visite suas nascentes. Em um grande trabalho de pesquisa que tenho promovido desde a época da faculdade, venho descobrindo inúmeros fatores que contribuem para a diminuição da qualidade das águas. Não só devemos pensar que a poluição é o único desses fatores, mas que o conjunto denuncia que algo está errado na gestão ambiental da nossa cidade. Para nosso pequeno exercício de entendimento, quero destacar aqui alguns elementos que considero principais para essa análise: moradia, saneamento básico e morosidade do poder público”.

Moradia

Dantas esclarece que é inaceitável que a poucos metros de passar atrás de um famoso resort da cidade, o rio Boicy tenha sua cabeceira principal densamente ocupada, águas canalizadas e soterradas logo após as nascentes para que casas e barracos fossem construídos, num processo que se repete e que se consolida diante do problema da moradia. “Na Vila Brás, região do Jardim Canadá e Lancaster é possível encontrar palafitas, canalização, aterros e muito lixo espalhado por uma grande área de nascentes que, por força do Código Florestal, deveria estar preservada em um raio de 50 metros a partir de cada olho d’água. Nesse cenário caótico podemos encontrar lambaris e, ainda, algumas nascentes limpas, momentos antes de suas águas receberem o esgoto dessa região”, denuncia.

Palafitas sobre as nascentes do rio Boicy, Localidade conhecida como Brás, região do Jardim Canadá.
Palafitas sobre as nascentes do rio Boicy, Localidade conhecida como Brás, região do Jardim Canadá.

Saneamento básico

Falando em esgoto, o rio Jupira, na região da Vila A também foi afetado por esse problema, conforme noticiamos recentemente.

Dantas nos acompanhou nessa visita e reforça o quão absurda é a situação. “As águas da Trilha do Vietnã não são mais as mesmas e isso há muito tempo, o que é um verdadeiro absurdo para uma área de densa floresta que por ser bem preservada, ainda carece de melhores cuidados. Na ocasião desse derramamento, verificou-se que uma rede de esgoto estourou devido a uma obstrução e o esgoto excedente foi conduzido ao rio através de uma manilha da galeria pluvial. Já não bastasse o lixo que ‘normalmente’ desce para os rios da cidade por essas galerias, juntou-se o esgoto que, por pouco, não dizimou a vida de milhares de lambaris e outros animais que ali habitam”.

Dantas também citou o exemplo do rio Monjolo, que nasce no Jardim Central próximo à Mesquita e, logo após, cruza a mata do 34º BIMec. “Esse rio é forçado a fluir por uma galeria construída na década de 70. Muito se falava de uma ponte de madeira e um córrego no fundo da Avenida Brasil. Era o próprio rio Monjolo antes da canalização que hoje, ao sair da galeria após a terceira pista da Avenida JK, deságua no rio Paraná altamente poluído e fétido, caindo em uma das mais belas cachoeiras do nosso município, em pleno centro da cidade. Constatado isso, só nos resta uma hipótese: o rio Monjolo recebe esgoto do centro de Foz do Iguaçu. Esgoto de prédios residenciais, comerciais, hotéis. No entanto, é preciso descobrir o foco”, alerta.

Poder público

Já sobre a administração municipal, Dantas reforça que, apesar da situação crítica em que os rios se encontram, o poder público não apresenta nenhuma ação efetiva para solucionar esses crimes ambientais.

Por um momento chegou a se falar sobre um programa, o “Reinventando Foz”, que surgiu como uma luz no fim do túnel para a questão ambiental da cidade. Esse programa tinha o objetivo de promover o desenvolvimento urbano sustentável de Foz por meio de quatro pilares:

  • 1- Restauração da biodiversidade dos afluentes, incluindo soluções de drenagem e despoluição;
  • 2 – Incentivo a mobilidade sustentável, desenvolvimento urbano e turístico;
  • 3 – Requalificação do centro da cidade;
  • 4 – Potencialização do crescimento econômico por meio do turismo e geração de empregos.

O programa foi desenvolvido pelo município com financiamento da Agência Francesa de Desenvolvimento, algo em torno de 33 milhões de dólares, onde se previa a revitalização das bacias do rio Boicy, Monjolo e Ouro Verde. Esperava-se com isso a recuperação dos rios; mobilidade sustentável (28 km de ciclovias); fomento do turismo (aumentando de 3 para 5 dias a permanência dos turistas na cidade); geração de empregos (mais de 7 mil empregos diretos e indiretos) e criação de riqueza (aumentando a contribuição do PIB-turismo de 25% para 30%). Por que estou escrevendo no passado? Porque esse programa nunca chegou a ser executado.

Ele foi anunciado entre 2018 e 2019, mas não chegou a ser colocado em prática na cidade. Entramos em contato com a prefeitura de Foz, por meio da secretaria de planejamento, e tivemos a seguinte resposta sobre o Reinventando Foz:

“Em relação ao projeto Reinventando Foz, a Prefeitura de Foz do Iguaçu esclarece que a licitação para contratação de empresa para implantação das ações foi deserta, isto é, não houve interessados no certame. Devido ao aumento da cotação do dólar, a agência francesa que era parceira da iniciativa entendeu que, no atual momento, seria inviável o projeto. Em paralelo, a prefeitura iniciou o projeto Beira Foz, em parceria com a Itaipu Binacional e o Parque Tecnológico Itaipu (PTI-BR), que tem como objetivo revitalizar trechos urbanos próximos ao Rio Paraná, situados entre o Jardim Jupira e o centro da cidade. O Beira Foz envolverá a contratação de estudos preliminares e anteprojetos, que visem a melhoria de espaços públicos da cidade, considerando a aplicação de propostas estratégicas que induzam o desenvolvimento e integração viária, econômica e social.  Já foi contratada uma empresa que está elaborando o projeto da primeira fase da iniciativa”.

Rede de coleta de esgoto escorada por estacas sobre o rio Mimbi, afluente do rio Boicy nas proximidades do campo do Jardim São Paulo.
Rede de coleta de esgoto escorada por estacas sobre o rio Mimbi, afluente do rio Boicy nas proximidades do campo do Jardim São Paulo.

Dantas reforça que, enquanto isso, os rios ficam à mercê da misericórdia do ser humano. “Essa irracionalidade está enraizada desde o uso do solo; da ocupação irregular – essa por uma questão social estrutural de um país subdesenvolvido; da produção do esgoto, que pouco tratado é despejado na própria água que bebemos; e da falha do Poder Público, que por diversos motivos se exime de seu papel na preservação do meio ambiente, mesmo com todos os recursos que só o estado detém para entender, analisar e resolver situações embaraçosas que contribuem para a degradação da natureza em nosso município. Além de tudo, o que falta é uma visão menos mesquinha, que consiga distinguir um programa de governo de um projeto de município, que seja duradouro, a longo prazo, mas que seja também definitivo, que não dure apenas quatro anos”, critica.

Executando ideias

O arquiteto e urbanista e professor universitário Alexandre Balthazar tem amplo conhecimento na área ambiental e explica, que através da Uniamérica, teve a oportunidade de trabalhar em conjunto com os alunos e professores de oito cursos de graduação, além da UNILA, prefeitura e outras entidades e ONG’s uma proposta para a criação do Parque Linear do M’Boicy, o maior rio urbano de Foz. Segundo ele, a bacia do M ‘Boicy cobre mais da metade da área urbana de Foz do Iguaçu e seria um grande passo no sentido de se reapropriar do meio ambiente urbano da cidade. “Há recantos lindíssimos deste rio bem no meio da cidade e poucas pessoas sabem disso.

Por muito pouco este projeto não saiu do papel, houve licitação, mas não tivemos interessados.  Com a pandemia tudo parou e estes projetos não entraram mais na pauta, com o foco na questão da saúde. É hora de rever as propostas, rever valores e reeditar a licitação. Por que não retomar o fechamento de uma das pistas da av. Paraná aos domingos para atividades de lazer? A participação da população é fundamental para estas iniciativas não caírem no esquecimento”, reforça Alexandre.

Além disso, ele ressalta que a questão ambiental é fundamental para a qualidade de vida de uma sociedade, considerando que saúde não é apenas ausência de doenças, mas sim resultado de uma vida equilibrada, sem estresse e, principalmente, em harmonia com a natureza. “Foz é uma das cidades mais arborizadas do Paraná, temos ruas inteiras na sombra evitando o fenômeno de ilhas de calor em certos bairros da cidade, isso é resultado de gestores das décadas de 70 e 80. A natureza é o DNA de Foz do Iguaçu, a meu ver falta pouco para virarmos a mesa’, finaliza.

Vídeo feito na Trilha do Vietnã em Foz.

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

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