A 100fronteiras apresenta a conversa exclusiva com Roberto Doldan, diretor da Vigilância Epidemiológica de Foz do Iguaçu e com Fabio Marques, diretor técnico do Hospital municipal para saber como está a real situação do Covid-19 em Foz do Iguaçu.

Foto: Assessoria.

Roberto conta que no município tivemos várias fases da pandemia, a fase da aceleração bastante grande, o 1º caso confirmado no município foi no dia 18/03, os primeiros 1.000 casos se deu em 106 dias (02/07), no dia 15/07, em um intervalo de apenas 13 dias a cidade contabilizava 2.000 casos.

Com essa aceleração não só em Foz do Iguaçu mas no Paraná como um todo, conforme Doldan, ocasionou o lockdown no estado, em julho. Após isso, a cidade começou a registrar menos casos diários, junto com a flexibilização, abertura dos comércios e seguimentos que estavam fechados.

“Deu uma falsa segurança para as pessoas e de fato hoje as pessoas pensam que a pandemia passou ou que nós estamos em uma situação mais confortável, e isso não é verdade, nós estamos em uma fase bem aguda ainda da pandemia, tivemos essa queda no número de casos, mas já faz quinze dias que estamos registrando só aumento de casos, as mortes aumentaram, a taxa de ocupação de leitos aumentou, enfim a pandemia continua”.

Roberto Doldan

Fabio Marques, diretor técnico do Hospital municipal, e Roberto Doldan, diretor da Vigilância Epidemiológica de Foz do Iguaçu.

100- Qual a situação real de Foz do Iguaçu?

Roberto Doldan – Já estamos com mais de cinco mil casos registrados da covid, estamos com uma média móvel – a gente mede a média do número de casos da semana e faz uma média e compara com 14 dias atrás e essa média que tem mostrado para a gente que a curva está só crescendo, daí paralelo a isso, aquilo que já citei antes, as mortes continuam crescendo, taxa de letalidade aumentando, taxa de ocupação de leito aumentando e a incidência aumentando, a situação de Foz do Iguaçu é muito crítica, não só em Foz, a gente tem que ver que essa é uma situação que está acontecendo no Paraná como um todo.

100- Faltam respiradores e leitos?

Roberto – Temos uma boa retaguarda hospitalar e de ventiladores mecânicos aqui em foz, só que o que é preocupante que essa taxa de ocupação já de muito tempo ela vem se mantendo de 70 a 80% nesse fim de semana chegou a mais de 90%, então isso é muito preocupante.

O hospital municipal está aguardando respiradores que chegarão essa semana para retaguarda e leitos ainda existem leitos que podem ser remanejados. Agora é importante frisar que a intenção não é ficar criando leitos e mais leitos a intenção é que a população tenha consciência, tenha responsabilidade e se cuide mais, porque a única coisa que se tem nessa pandemia como não tem medicamento, não tem vacina é que tenha prevenção, isso tem que acontecer. Nós não podemos ficar criando leitos a vida toda, até porque nós vamos ter uma pandemia bem prolongada, já estamos tendo, são seis meses de pandemia.

Fabio – Até agora não enfrentamos falta de leitos ou ventiladores, mas a situação preocupa. Além da população de Foz e da região, identificamos nas últimas semanas a procura de atendimento no hospital por parte de brasileiros residentes no Paraguai. Geralmente são casos mais graves, em estágio mais avançado da doença. Eles cruzam a fronteira pela Ponte da Amizade ou via fronteira seca mais ao norte. É um fator novo no processo e isso precisa ser dimensionado

O problema é que, não raro, a família do paciente, ao invés de fornecer o endereço correto, fornece o endereço de algum conhecido ou familiar residente em Foz, com receio de não ser atendido no hospital ao apresentar o endereço real do Paraguai. Isso acaba sendo descoberto no momento em que o médico conversa com o paciente já internado, colhe a história clínica e identifica indícios de que o mesmo não reside no Brasil.

Essa incongruência prejudica as estatísticas e dificulta nosso planejamento. Estima-se que mais de 90 mil brasileiros residam na região do Alto Paraná.

O atendimento a essa população implicaria na estruturação de pelo menos mais 17 leitos de UTI completos.

Outro fator que preocupa é a recidiva de sintomas em pessoas que teoricamente já passaram pela doença.

100 – Existe a possibilidade de reinfecção da doença?

Fabio – A hipótese de reinfecção já foi documentada na literatura. Estamos estudando pelo menos 7 casos de pessoas que voltaram a apresentar sintomas após terem passado algumas semanas assintomáticas, e esse número pode aumentar.

Temos observado que, em alguns desses casos, os pacientes chegam a apresentar sintomas ainda mais graves comparados aos do início da doença.

Algumas pessoas ainda possuem a crença de que só se adquire Covid uma única vez e de que estão protegidas por já terem tido a doença. Acreditam que não vão se infectar de novo, e acabam relaxando as medidas de precaução. É preciso conscientiza-las de que é possível sim pegar Covid de novo. Mas o pior não é isso, o pior é que a segunda infecção pode ser pior do que a primeira.

100- E quanto a possibilidade de um novo Lockdown?

Roberto – Não existe a intenção nesse momento de fazer um lockdown, ele funciona assim, quando você tem um esgotamento de toda maquina assistencial, não tem mais equipe, leitos, referências. Lockdown você faz para que os números diminuam e você possa trabalhar com essa retaguarda, providenciando as coisas para o enfrentamento, isso não está previsto, já tivemos alguns momentos de lockdown na cidade, porém, também não é totalmente descartado, depende do cenário epidemiológico.

Fabio – Acho pouco provável. Embora possível, pelo cenário atual seria pouco efetivo. A população como um todo tem demonstrado um certo cansaço. Frente a isso, medidas restritivas tendem a se tornar ineficazes.

100- Onde estão as dificuldades de controle da pandemia em Foz?

Fabio – A nossa dificuldade está sobretudo nos bairros, principalmente nas zonas mais periféricas, com menor possibilidade de fiscalização. As pessoas se aglomeram em bares, nas frente das casas, realizam festas compartilham objetos como chimarrão e não usam máscaras. A prefeitura recebe inúmeros relatos dessas ocorrências.

Já no centro da cidade a fiscalização tende a ser maior, inclusive por parte da própria população. O estabelecimento comercial, por exemplo, que não segue as regras tende a ser denunciado. Alguém passa na frente, bate foto, encaminha, denuncia.

100- Quais as recomendações para a população se cuidar?

Fabio – Acredito que boa parte das infecções ocorra no momento em que a pessoa, por algum descuido, coça o nariz, a boca ou os olhos. É preciso superar esse hábito. Infelizmente as campanhas de prevenção ainda dão pouca ênfase a isso. Segundo o estudo de uma universidade americana, os estudantes de medicina chegam a levar a mão ao rosto cerca de 20 vezes em apenas 1 hora. Infelizmente esse é um habito comum na população em geral.

Ou seja, de nada adianta higienizar as mãos o tempo todo, se em determinado momento de descuido você atende o celular infectado ou esbarra com a mão no corrimão de uma escada e, na sequência, coça os olhos sem perceber.

O vírus não penetra na pele, apenas pelas mucosas. Por isso, além da higienização frequente das mãos, o foco deve ser evitar a todo custo encostar as mãos na boca, no nariz ou nos olhos.

100- E um recado para os iguaçuenses?

Roberto – Para a população, eu só queria reforçar o que eu já falei, nós estamos no meio de uma guerra, e esse nosso inimigo é um inimigo invisível, e como armas, nós estamos muito restritos, porque não existe medicação, nenhuma medicação ainda foi comprovada contra o coronavírus, então todas são experimentais, a vacina ainda está sendo testada, vai levar um tempo para ela estar no mercado.

Então o que existe de efetivo hoje que a população tem que saber, é a prevenção, e a prevenção para Covid, ela é relativamente simples, só que ela depende de hábitos individuais, então por isso que a responsabilidade não é só do serviço público, ela é compartilhada com a população.

 A população tem que conviver com a máscara, que é um importante instrumento de barreira para não espalhar o vírus, conviver com a lavagem das mãos, utilização de álcool em gel, conviver com distanciamento social, que é a parte mais difícil, mas hoje em dia faz parte dessa nova normalidade e tem que conviver com o modo diferente de olhar a vida.

Hoje não se permite aglomerações, as confraternizações têm que ser pensadas numa forma diferente para não expor ninguém, enfim, a população tem que saber que tem que retomar os cuidados sanitários se a gente quiser vencer essa pandemia.

Fabio – Até agora tivemos um bom enfrentamento da pandemia, mas podemos estar diante de uma situação ainda mais desafiadora. Precisamos muito do apoio da população para que respeitem as medidas de distanciamento social.  Apesar da grande ampliação da estrutura hospitalar desde o início da pandemia, o sistema está sobrecarregado, os hospitais estão lotados com pacientes da primeira onda e temos pela frente a possibilidade de receber pacientes brasileiros residentes no Paraguai. Isso vai demandar ajuda do governo federal e o Itamarati.

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