Gaúcho de Santa Maria (RS), o general João Francisco Ferreira só poderia ser torcedor de um dos grandes times nacionais. Eu, como uma boa torcedora gremista, brinco ao dizer que ele não escolheu o melhor time, já que é colorado. Brincadeiras à parte, conhecer o general que ocupa um dos cargos mais importantes do Brasil foi especial. 

Como disse, o simpático senhor nos recebeu muito bem. E abriu seu coração para contar sua história de vida e os caminhos que trilhou até chegar aqui. 

“Sou muito familiar, gosto muito da minha família, da vida com simplicidade. Sou cristão, acredito nos valores que sempre nortearam a humanidade e procuro cultuar esses valores. Sou muito simples. E para mim o que vale nas pessoas é a simplicidade e a honestidade, valores que vieram de nossos pais, e procuro passar aos meus filhos”, define-se.

General João Ferreira - diretor-geral de Itaipu
Simplicidade e simpatia são as marcas do novo diretor de Itaipu.

Aos 71 anos de idade, o general vem de uma família de agricultores; o pai trabalhava na lavoura quando conheceu a mãe dele. Ali ficou até ser convocado para servir no Exército Brasileiro. E o que era para ser só um ano se transformou em carreira. “Das memórias que tenho da minha infância, o que mais me marcou era ver meu pai voltando do quartel fardado. Aquilo era muito bonito. E eu nunca tive um segundo sonho que queria para a minha vida, porque ser militar para mim era uma realidade, e eu sabia que um dia eu seria.”

E assim foi. No final de 1965, ele teve a primeira chance de entrar para o Exército prestando o concurso para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas (SP). Depois de três anos estudando em regime de internato, passou para a etapa seguinte e se formou na Academia Militar das Agulhas Negras, o nível superior que forma os militares. “Passei quatro anos ali e dei sequência à minha carreira como oficial do Exército Brasileiro.”

Serviu no Exército por 48 anos, até que chegou o momento de se aposentar. Ao longo de sua carreira militar andou por muitos locais no Brasil e, em duas oportunidades, no exterior – uma em Assunção, no Paraguai, onde trabalhou na missão militar brasileira de instrução, na qual os militares brasileiros tinham o objetivo de cooperar com a instrução do Exército Paraguaio. Ficou de 1983 a 1985 no Paraguai. Nessa época ele era capitão e trabalhava junto com o regimento paraquedista. 

A segunda missão fora do país, já como coronel, foi no México, de 1999 a 2001. Atuava na embaixada fazendo o relacionamento militar com as Forças Armadas mexicanas. Trabalhava diretamente com o Exército, Marinha e Força Aérea. Experiências que marcaram sua vida para sempre. 

O último trabalho foi como comandante de área do Oeste, que abriga a região do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ali ficou os três últimos anos da vida militar, encerrando a carreira em abril de 2014. 

General João Ferreira - diretor-geral de Itaipu
Terceiro filho de uma família de sete irmãos, o irmão mais velho e o mais novo do general também seguiram os passos do pai e construíram suas carreiras militares. Isso se repetiu na terceira geração, pois o filho do general Ferreira também escolheu essa profissão e hoje é tenente-coronel. Além dele, o general tem mais três filhas. 

A vinda do General João Francisco Ferreira para Foz 

O general me contou que, quando apareceu o convite para assumir a direção da Itaipu Binacional, ele “estava de boa”, curtindo a vida com a esposa em Campo Grande (MS). “Eu fazia muitas coisas, eram férias ativas com minha esposa, visitando os filhos, passeando e viajando. Amo caminhar, ir ao cinema e ler. E quando veio o convite foi um susto. Eu recebi uma ligação do meu amigo Silva e Luna e, a princípio, achei que era uma ligação normal. Nem sabia que ele estava para sair. Aí ele disse que estava saindo, não disse para onde estava indo e pediu sigilo total. Me consultou para saber se eu tinha interesse em ser indicado para ocupar o lugar dele. Eu disse que precisava de um tempo, e ele me deu duas horas. Conversei com minha esposa, que também manteve sigilo sobre isso, e decidimos vir para Foz. E isso não foi um convite, eu não estava precisando trabalhar, não sonhava com nada mais que isso, mas isso era uma convocação, e se ele estava me indicando é porque confiava no meu trabalho e queria alguém para continuar com o trabalho que ele começou. E convocação, para um militar, é ordem”, comenta.

Com isso, o general e a esposa vieram para Foz do Iguaçu no início de abril deste ano para uma nova etapa na carreira e na vida. O oficial, que conheceu Foz quando trabalhou em Assunção, surpreendeu-se ao ver como a cidade cresceu e se desenvolveu. Conta que nos anos em que esteve em missão no Paraguai era comum ele e os demais militares virem a cada dois meses para Foz para fazer compras. Ficavam instalados no Hotel de Trânsito de Oficiais do 34º BIMec. Para orgulho dele, o general também foi um dos primeiros a ver a usina de Itaipu funcionando. “Em 1984 foi quando a primeira turbina passou a produzir energia, e era em uma época que os vertedouros ficavam permanentemente abertos. Quando visitei a usina, jamais pensei que um dia chegaria ao cargo de diretor da Itaipu. Eu era um jovem capitão e meu objetivo era seguir minha carreira militar. Jamais pensei que chegaria até aqui.” 

General João Ferreira - diretor-geral de Itaipu

Agora como diretor-geral, o general tem um grande desafio pela frente, juntamente com sua equipe, que é dar continuidade às obras iniciadas na gestão do general Silva e Luna. “Ele fez um trabalho excelente, e a Itaipu é grandiosa, então tudo aqui é um grande desafio. Por isso o desafio é seguir com essa estratégia implantada pelo Silva e Luna. O presidente Bolsonaro foi muito claro, ele disse que eu continuaria exatamente o que está sendo feito, e é algo que a administração pública deveria fazer sempre, terminar o que é começado. O maior desafio é que todas as obras que começaram aqui em Foz cheguem ao fim. No entanto, o desafio principal é que Itaipu seja de fato uma usina que produz energia limpa e sustentável e que se atualize permanentemente. Outro desafio é fazer a atualização tecnológica da usina. E não podemos esquecer do mais importante, que é a revisão do Anexo C, pois lá em 1973 ficou firmado que após 50 anos seria feita essa revisão pelos Ministérios de Relações Exteriores dos dois países, onde serão revisadas as bases financeiras de funcionamento da empresa, e poderá acarretar mudança para a Itaipu, pois precisará que as duas partes cheguem a um acordo, buscando o que for melhor para a Itaipu e os dois países. Diante disso temos que estar preparados”, reforça.

Prestes a completar dois meses no cargo, o general Ferreira destaca que é o trabalho que dita qual legado ele deixará na cidade e, quanto a isso, ele está focado em dar o melhor de si nessa importante missão. “O que eu espero é que, quando terminar a minha gestão, pelo menos eu tenha contribuído para a consolidação dessa nova etapa de Itaipu, que começou com Silva e Luna. Que se consolide como uma empresa de produção de energia de altíssima qualidade, com alto rendimento; que continue mantendo e aumentando o nível de gestão ambiental; e que se consolide como uma empresa que, além disso, coopera para o desenvolvimento social e econômico da região. Se eu conseguir isso, estarei mais do que realizado”, finaliza. 

General João Ferreira - diretor-geral de Itaipu

“Quando decidi aceitar o convite, já tinha planejado com minha esposa que íamos morar aqui. Aluguei um apartamento aqui para morar, receber meus filhos e meus amigos. E eu sempre digo que a melhor cidade do mundo é aquela em que estou morando naquele momento. Então, a partir do dia em que vim morar em Foz, ela se tornou a melhor cidade do mundo. Eu gosto de Foz, fui muito bem acolhido, não só pela empresa Itaipu Binacional, como pela cidade.” 

General joão francisco ferreira


Algumas das funções da carreira militar 

  • Integrante da Missão Militar Brasileira de Instrução no Paraguai, onde atuou como instrutor de paraquedismo.
  • Comandante do Oitavo Batalhão de Infantaria Motorizado, em Santa Cruz do Sul (RS).
  • Adido Militar na Embaixada do Brasil no México.
  • Comandante da 8ª Brigada de Infantaria Motorizada, sediada em Pelotas (RS).
  • Comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista, no Rio de Janeiro.
  • Vice-chefe do Estado-Maior de Defesa, do Ministério da Defesa.
  • Comandante da 6ª Região Militar, em Salvador (BA).
  • Comandante Militar do Oeste, em Campo Grande (MS).

Fotos e vídeo: Lukas Franco

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

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