Recentemente, aos 97 anos, o iguaçuense José Schlogl concedeu uma entrevista à jornalista Izabelli Ferrari. Um dos assuntos que falou foi sobre o extinto clube Centro Agrícola e Social, um dos primeiros clubes sociais de Foz do Iguaçu. José tinha 19 anos quando o clube foi fechado pela polícia, em 1942.

Naquela época, os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial atingiam até mesmo os lugares mais remotos do globo. Na distante tríplice fronteira, a polícia constatou a existência de três clubes sociais. O Oeste Paraná Clube era o mais “elitizado” e o Centro Agrícola reunia principalmente os agricultores também conhecidos como colonos.

Documento da Polícia
Documento da Polícia indicando a existência dos três clubes. (Acervo do Arquivo Histórico do Paraná)

A cidade e os clubes

Foz do Iguaçu era um pequeno patrimônio no início dos anos 40. Por meio de mapas da época, podemos concluir que os limites do que era considerado o centro da cidade ia da Capitania dos Portos até o Batalhão do Exército. A parte mais movimentada era o entorno da praça Getúlio Vargas, onde estava a igreja e os prédios públicos recém construídos.

No início de 1940, havia poucas casas e não havia energia elétrica, com exceção na vizinhança da Capitania dos Portos que contava com um modesto gerador. Os rádios começavam a aparecer nos ambientes familiares, como na casa de Pedro Basso, e nos lugares públicos como o Oeste Paraná Clube.

Dos três clubes registrados, o Oeste Paraná datava de 1928. O Centro Agrícola e o União Operária, ainda que certamente fossem mais antigos, apenas foram registrados no ano de 1939. Isso porque um decreto do governo federal, preocupado com as agremiações estrangeiras, havia obrigado a regularização dos registros.

Nem todas as festas ocorriam dentro dos clubes sociais. Por muitos anos se comemorou em Foz do Iguaçu a Festa do Colono. O evento, que acontecia no Dia do Colono, era uma comemoração criada em 1924 para lembrar a chegada dos primeiros imigrantes no sul do Brasil em 25 de julho de 1824. Na foto, a festa que ocorreu em 25 de julho de 1937, na casa da família Welter.

Clube de Bailes em Foz na década de 40
Acervo pessoal de Guilhermina Pastorello.

Sócios e estrangeiros

Como parte do trabalho em função das precauções dos tempos de guerra, a polícia levantou uma lista de sócios dos três clubes, por nacionalidade e descendência. Da lista, podemos ver nomes mais e menos conhecidos no presente, além de termos uma ideia do público ao qual cada clube atendia.

O Oeste Paraná Clube era o mais “elitizado”. Reunia funcionários públicos, militares e os três doutores da cidade (Dirceu Lopes, médico; Heleno Schimmelpfeng, engenheiro; e Saulo Ferreira, advogado). Foi descrito como “o único ponto de diversão das famílias iguaçuenses”. Do total de 113 associados, 15% eram militares e 26% estrangeiros.

Sobre o clube União Operária, é conhecida apenas a lista dos sócios, que reúne 68 nomes dos quais apenas 9 eram estrangeiros. Na contramão do União Operária, a polícia reuniu mais informações sobre o Centro Agrícola. Isso porque 70% do quadro de sócios era estrangeiro ou descendente, o que motivou a determinação de fechamento deste último clube.

Esquina da Almirante Barroso
Foto de um dos possíveis locais de onde se encontrava o Clube Agrícola e Social. (Foto: 100fornteiras)

Fechamento do Centro Agrícola

Observando as três listas de sócios, podemos concluir que havia variedade de nacionalidade. As principais eram: Alemanha, Áustria, Holanda e Itália. Também havia pessoas do Paraguai, da Argentina e, em menor número, de Portugal, da França, da Polônia, da Dinamarca e até um descendente de sírio.

Frederico Engel, que na lista do Oeste Paraná Clube teve nacionalidade e descendência não informada, era presidente de honra do Centro Agrícola. A lista do Centro Agrícola também incluía uma coluna informando o tempo de residência em Foz do Iguaçu. Dos 88 sócios, 68% residiam na cidade havia mais de uma década. Pedro Antunes era o sócio mais antigo, com 40 anos de residência na cidade.

Em 13 de fevereiro de 1942, o Delegado Regional relatou à Curitiba a predominância de estrangeiros no Centro Agrícola. Também informou que havia proibido “reuniões a não ser para tratar de assuntos de interesse exclusivo da lavoura”.

Apesar dos esforços e do “alerta”, outro delegado regional determinou o fechamento do Centro Agrícola. Em 16 de novembro de 1942, por “resquícios de sua antiga orientação estrangeira, determinou esta delegacia o fechamento”. Havia um pequeno saldo em caixa que foi transferido “ao comando da 1a. Companhia Independente de Fronteira, para aplicá-las em benefício da tropa de escoteiros, já em organização nesta cidade”.

Memória

Tive conhecimento da história do Centro Agrícola ao pesquisar sobre o impacto da Segunda Guerra Mundial na Tríplice Fronteira. Em 2009, entrevistei tanto o já mencionado José Schlogl quanto Franz Nieuwenhoff. Ambos eram quase da mesma idade e vivenciaram festas e atividades no clube. Como o clube não foi reaberto depois da Segunda Guerra Mundial, poucas lembranças restaram daquele lugar.

Franz Nieuwenhoff detalhou como eram as atividades do clube. Além de bailes e festas, havia também as reuniões sobre como tirar mais proveito da terra para melhorar a produção agrícola. Também tinha uma parte de esportes. Pouco antes de fechar o clube, Franz relatou que veio um “professor de ginástica direto da Alemanha”.

Oeste Clube Paraná Foz
Oeste Paraná Clube atualmente. (Foto: Facebook)

Na entrevista de 2009, José Schlogl disse que o clube, antes do registro oficial de 1939, se chamava Clube Social 25 de Julho. Era uma referência direta à imigração alemã para o Brasil. No clube também se discutia política e “ali acontecia de tudo”: reuniões, casamento, aniversário, natal e ano novo.

Dos três clubes da década de 1940, apenas o Oeste Paraná Clube sobreviveu ao tempo. Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos estrangeiros que haviam sido proibidos de viver na fronteira não retornaram. Outros, pelas cicatrizes da experiência, optaram por não dar continuidade a clubes que lembrassem a origem alemã.

Comentários

Deixe a sua opinião