Braços alemães

José Maria de Brito tinha 87 anos quando escreveu o mais antigo livro de história de Foz do Iguaçu que ficou preservado para as futuras gerações. Brito fez parte da fundação da Colônia Militar e decidiu fixar residência em Foz do Iguaçu. Naquele ano de 1938, Brito escreveu que “graças aos agricultores – braços alemães, nomeadamente – não importamos mais os cereais da República da Argentina”.

Em 1938, o que José Maria de Brito (e mais ninguém) previa, era que a frase soasse como uma homenagem antecipada. Os imigrantes alemães que tanto tinham contribuído com o desenvolvimento da agricultura sofreriam, então, com um episódio dramático. Entre 1942 e 1945, foram proibidos de morar em Foz do Iguaçu, apenas por ser ou por falar alemão.

Livro A Segunda Guerra Mundial e a Tríplice Fronteira

Em 1942, quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial contra o “Eixo” (Alemanha, Itália e Japão), os “súditos do Eixo” foram proibidos de morar na “faixa de fronteira”. Quem morava de Foz do Iguaçu a Guaíra foi obrigado a mudar para a região de Guarapuava. Para saber mais sobre esse processo, veja o livro A Segunda Guerra Mundial e a Tríplice Fronteira.

Martin Nieuwenhoff

Martin Nieuwenhoff na Holanda
Martin adolescente em foto tirada na Holanda, antes de imigrar para o Brasil.

Martin Nieuwenhoff migrou da Holanda para Cruz Machado em Santa Catarina, aos 16 anos. Lá conheceu a família de Hermann Franz Taube e casou com uma de suas filhas, a, então jovem, Joana. Ambos vieram para Foz do Iguaçu em 1928 e receberam lotes de terras da Colônia Militar.

A família Nieuwenhoff se estabeleceu nas proximidades do Carimã, um local privilegiado pela proximidade com a Argentina. Era muito comum que Martin fosse vender seus produtos agrícolas em Foz do Iguaçu (centro) e do lado argentino da fronteira. E, da Argentina, traziam produtos industrializados, como o trigo.

Outra vantagem que a cidade argentina da fronteira proporcionava era o serviço de correios. O correio do lado brasileiro surgiu na década de 1920, com um “estafeta” que se deslocava de Foz do Iguaçu a Catanduvas. Isso ocorria duas vezes por mês e, de Catanduvas, a correspondência era levada para Curitiba. Somente meados dos anos 1930 veio para cá o Correio Aéreo Militar.

“Enquanto os Ministros se preparavam para o evento no Rio de Janeiro, no mesmo dia 15 [de janeiro de 1942], a vida seguia normalmente para os poucos habitantes da tríplice fronteira entre o Brasil, a Argentina e o Paraguai. No pequeno povoado brasileiro de Foz do Iguaçu, Martin Nieuwenhoff, por exemplo, seguiu sua rotina normal. Recolheu o que sobrou de sua produção agrícola do mês, colocou em uma canoa e, na companhia do filho Franz, cruzou o rio Iguaçu até atingir a margem argentina. Foi até a cidade de Puerto Aguirre (hoje Puerto Iguazú) para trocar seus excedentes por produtos industrializados que vinham de Buenos Aires, como farinha de trigo e querosene. Aproveitou para checar a caixa postal que mantinha do lado argentino, já que do lado brasileiro era praticamente impossível receber correspondências. Apanhou um jornal que recebia regularmente de Porto Alegre e voltou para sua canoa. O trajeto da volta não era o mesmo da ida. Era preciso descer um pouco pelo rio Iguaçu até atingir o porto sobre o rio Paraná, na divisa do Brasil com o Paraguai, e então se submeter à fiscalização de uma autoridade policial. De onde Martin aportou a canoa era possível ver o lado paraguaio da fronteira, uma pequena localidade chamada Puerto Presidente Franco, com pouco mais de uma dezena de casas. Ao contrário da cidade argentina, além do aspecto de abandono, não havia comércio ou outra atividade relevante do lado paraguaio. Martin esperava uma fiscalização de rotina, mas foi surpreendido quando um policial avistou o jornal junto às coisas que trazia. Por conta do jornal, escrito no idioma alemão, Martin foi preso e o filho Franz voltou para casa para dar a notícia à mãe e às seis irmãs.”

A prisão

Foto 3

Ficha de Martin na Delegacia de Ordem Política e Social. Acervo do Arquivo Público do Paraná.
Ofício informando a prisão de Martin. Acervo do Arquivo Público do Paraná.

Uma das filhas de Martin Nieuwenhoff, a dona Guilhermina Pastorello, gentilmente nos concedeu entrevista e forneceu as fotos para essa matéria. Uma das lembranças que ela tem do seu pai é que ele nunca concordou com a injustiça da sua prisão. E ele tinha vários argumentos para essa discordância. O principal deles é que ele era holandês e não alemão.

No Arquivo Público do Paraná, em Curitiba, há duas pastas com documentos sobre a prisão de Martin. Lendo os documentos hoje, conseguimos construir uma linha do tempo. No dia 15 de janeiro de 1942, o delegado em exercício comunicou Curitiba da prisão por conta de “impressos escritos [em] idioma alemão”. Naquele momento, colocado dessa forma, o assunto deveria ser investigado.

Em 29 de abril, houve um questionamento sobre o caso, já que a delegacia de Foz não havia atendido a ordem de enviar o material apreendido para Curitiba. Em 15 de maio, a resposta que chegou de Foz do Iguaçu indicava que o idioma dos folhetos era “em língua holandesa”, motivo pelo qual não houve a investigação. A propósito, de fato, os jornais eram impressos em alemão.

Na ficha da polícia em Curitiba, há também um registro datado de 8 de março de 1945. Martin Nieuwenhoff pedia autorização para retornar a residir em Foz do Iguaçu. Não há a resposta, mas o término da Segunda Guerra Mundial encerrava também as restrições para os “súditos do Eixo”.

A memória

A carroça que serviu de veículo de transporte para a família de Foz do Iguaçu a Guarapuava. Acervo pessoal de Guilhermina Pastorello.

Dona Guilhermina reforça como aquele período da Segunda Guerra Mundial foi difícil de ser superado. O sofrimento de 28 dias de viagem de Foz do Iguaçu a Guarapuava, com uma irmã portadora de necessidades especiais na carroça, foi inesquecível. Para cerca de 80 famílias, a maioria de alemães, aqueles três anos entre 1942 e 1945 duraram uma eternidade.

A prisão e a mudança forçada foram impactantes. Aqueles acontecimentos ocuparam um lugar considerável, mas a memória de tantos “braços alemães” merece ser lembrada por outros fatos. Martin Nieuwenhoff, por exemplo, foi também um notável carpinteiro e um defensor da educação para as crianças iguaçuenses.

Assim, além do trabalho na agricultura, Martin construiu diversas casas de madeira em Foz do Iguaçu. Depois de 1945, quando retornou de Guarapuava, a preocupação com a educação o levou a doar um terreno e a construir uma escola próxima ao trevo que hoje vai para a Argentina. Isso permitiria que seus filhos e outras crianças estudassem mais próximo de casa.

A casa que Martin construiu para a família depois de retornar à Foz do Iguaçu. Acervo pessoal de Guilhermina Pastorello.

Dona Guilhermina se esforçou muito pela memória do seu pai. Ela queria que a escolinha se chamasse Martin Nieuwenhoff. Apesar das promessas e da esperança, conseguiu apenas que uma rua fosse nomeada com o nome do seu pai.

Homenagem

Bodas de ouro, Joana e Martin em foto de 1961. Acervo pessoal de Guilhermina Pastorello.

Os braços de Martin Nieuwenhoff foram apenas alguns daqueles que José Maria de Brito definiu como responsáveis por resolver o problema de abastecimento de comida em Foz do Iguaçu. Ele foi um homem simples, não foi político e não tem o nome nas atas da Prefeitura ou Câmara Municipal.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Martin foi duplamente prejudicado. Foi preso e “expulso” de sua casa. Apesar disso, retornou a Foz do Iguaçu e continuou a vida. Cuidou de sua família e também se preocupou com a educação das crianças de sua região.

Nesse mesmo mês, há 80 anos, começou uma perseguição aos “braços alemães” que foram fundamentais para a produção de alimentos em Foz do Iguaçu e região. Nossa homenagem às tantas famílias que passaram pela intimidação e “expulsão”, apenas por ser ou falar alemão.

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