História de Foz: Jairo de Oliveira

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Fotos: Hidalgo Gomes e arquivo pessoal

Quem vê Jairo de Oliveira caminhando despreocupadamente pelas avenidas de Foz do Iguaçu com sua camisa de botões e boné nem imagina que esse humilde senhor, de 77 anos, é na verdade um engenheiro civil responsável por coordenar grandes obras na cidade, entre elas toda a ampliação da estrutura viária que foi necessária devido à chegada da Itaipu, contribuindo assim para a história de Foz.

Com certeza você deve passar diariamente por alguma das principais avenidas de Foz do Iguaçu e que são importantes ligações entre uma região e outra da cidade. Mas elas não estiveram sempre li. Antes da chegada da Usina de Itaipu, Foz era uma cidadezinha do interior abastecida pela Argentina quando embarcações atracavam no porto e os moradores compravam os alimentos que vinham do país vizinho.

Também não era essa cidade turística atualmente conhecida nacional e internacionalmente, pois por mais que as Cataratas do Iguaçu estivessem sempre aqui, poucos turistas sabiam da sua existência e os que vinham visitar desciam no aeroporto, visitavam as quedas e voltavam no mesmo dia, sem nem chegar até o centro da cidade. Hotéis havia três, e a maioria das casas era de madeira.

“Quando eu cheguei aqui, em 1976, havia apenas o centro da cidade, a Vila Paraguaia e os loteamentos da Vila Maracanã e da Vila Yolanda. As grandes avenidas que temos hoje não existiam. Era um desenvolvimento lento”, recorda o engenheiro civil Jairo de Oliveira.

Natural de Curitiba, formou-se em engenharia civil em 1971. Seu pai era general do Exército. Por ser filho de militar, Jairo foi convidado para trabalhar na construção de Itaipu, então em 1976 chegou a Foz. No entanto as obras ainda não haviam iniciado e como o prefeito nomeado da época, Clovis Cunha Vianna, precisava de um engenheiro na prefeitura, ele passou a trabalhar provisoriamente lá. Mas logo se estabeleceu e permaneceu por dez anos. Juntamente com o prefeito, foi responsável por coordenar as principais obras de desenvolvimento de Foz do Iguaçu e que permanecem atuais até hoje.

Reconstruindo a cidade

Entre os anos 1976 e 1984, o curitibano foi secretário municipal de Obras. Também foi um dos primeiros professores da antiga Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Foz do Iguaçu (Facisa), hoje transformada em Unioeste. Mas sua contribuição mesmo para a cidade se deu no desenvolvimento urbano, por meio de grandes obras de infraestrutura e sistema viário.

De acordo com Jairo, a maior mudança no plano urbano de Foz foi a construção viária da cidade, em que o Programa de Desenvolvimento do Oeste do Paraná, criado pelo governo federal juntamente com a Itaipu, contratou profissionais para desenvolver o projeto de reestruturação das ruas e avenidas de ligação do município. O governo disponibilizou verbas para a região a fim de ajudar a ampliar a cidade, que crescia devido à chegada da Itaipu, mas também ajudar os municípios que foram banhados pelo lago.

Naquela época também existia a Companhia de Desenvolvimento de Foz do Iguaçu (Codefi), que era responsável por implantar as obras do governo federal contratando as empresas para executarem os projetos. Jairo, então à frente da secretaria, coordenava essas obras.

Jairo, então secretário de obras na época, ao lado do Prefeito Clóvis, supervisionando as obras

Foz foi transformada.  Abriram as avenidas JK e Paraná, ampliaram para via dupla a Avenida Jorge Schimmelpfeng e tornaram a Avenida Brasil um local de lazer e comércio, com sentido único e largas calçadas. Segundo Jairo, a construção da Avenida Paraná gerou polêmica com os sócios do Country Club, pois a avenida iria cortar a área onde o clube estava localizado. Mas não havia o que fazer, a avenida precisava passar por ali. Por isso, após negociações, o Country foi indenizado pela perda de parte da estrutura, além de receber a construção de quadras esportivas. O que poucos sabem é que foi necessário criar uma passagem subterrânea. “Quem passa pelo Country Club, na verdade, passa por baixo da Avenida Paraná.”

Jairo relembra ainda que a rua onde seria construída a Avenida JK precisou ser desapropriada para a ampliação e, por conta disso, dezenas de famílias foram indenizadas. “Quando souberam que a Itaipu se instalaria aqui, os terrenos passaram a ser mais valorizados e por isso as indenizações eram caras.”Outro fato importante da época é que a estrada onde hoje se encontra a Avenida JK era uma ligação entre Foz do Iguaçu e Guaíra, mas devido à construção da usina a Estrada de Guaíra, como era chamada, foi toda submergida pelo lago e hoje não existe mais.

Viaduto na Avenida JK antigamente

Ainda segundo recorda Jairo, havia também um projeto para construir uma estrada de ferro em Foz para fazer o transporte das peças da hidrelétrica, porém, como se demorou demais para viabilizar a obra, acabaram desistindo, por isso realizaram o transporte das peças de caminhão. Isso era um grande acontecimento na cidade, pois se chegava a fechar a BR devido ao tamanho dessas peças.

Outra grande obra realizada nessa época foi a canalização dos rios Monjolo e M’Boicy, pois, segundo Jairo, ambos cortavam a cidade a céu aberto, gerando assim muita poluição, afinal não havia rede de esgoto. Então, por meio da canalização feita de concreto, foi possível regularizar a situação dos rios. As obras levaram cerca de seis anos para ficarem prontas, e a partir daí Foz se desenvolveu de fato, transformando-se no que é hoje.

O impacto de Itaipu para o município

Foz do Iguaçu cresceu rapidamente em pouco tempo. O boom causado pela chegada da Itaipu forçou a cidade toda a se remodelar, incluindo obras de cunho social. Nesse período houve a reforma da Santa Casa Monsenhor Guilherme; a criação do Centro Social Urbano; além de construção de postos de saúde, escolas e mercados, que visavam a atender às necessidades dos trabalhadores da usina que vinham de muitas partes do país. “No auge da construção, chegaram a vir de uma vez só 20 mil pessoas.”

Jairo lembra que os primeiros funcionários de Itaipu ficaram morando em casinhas de madeira improvisadas, pois não havia casas disponíveis ainda. Já os mais executivos moravam em hotéis. Só quando as vilas A, B e C ficaram prontas é que esses funcionários puderam mudar-se.

Como a Itaipu teve várias fases, a todo momento muitos operários vinham para cá, mas acontecia de vir mais gente do que se precisava. Quando isso ocorria, o excedente era mandado de volta, pois a cidade não tinha condições de abrigar tantas pessoas. No entanto muitos operários que foram dispensados após o final das obras permaneceram aqui com suas famílias, ou por não terem para onde ir ou por gostarem da região.

O futuro

Atualmente Jairo trabalha em seu escritório de engenharia civil e foi responsável pela construção de prédios na cidade, entre eles o Hotel Mirante, Edifício Beatriz Mendes e vários loteamentos. Casado com a iguaçuense Elídia Aparecida dos Santos, é pai de Diogo Leonardo de Oliveira. Também tem quatro netos, filhos de dois enteados dele.

Para Jairo, daqui para frente a população iguaçuense se estabilizará, não havendo mais nenhuma grande transformação como houve na época da construção de Itaipu. Entretanto, ela ainda tem condições de desenvolver mais o seu turismo, que é o carro-chefe da economia local, mas precisa manter o intercâmbio comercial com o Paraguai.

Por fim, perguntado se essas obras viárias comportam a população de hoje, Jairo respondeu orgulhosamente que sim, ressaltando projetos futuros. “Eu acho que foi bem estruturada, tanto que até hoje está servindo. Mas o que falta ainda completar é a Avenida Beira-Rio, que não só ajudará no trânsito como também será um novo ponto turístico da cidade, pois tem muita gente que passa ali e não sabe que está ao lado de um dos maiores rios do mundo.”

Curiosidade

A primeira vez que Jairo passou por Foz do Iguaçu foi na década de 60, quando ele fazia parte do coral do Colégio Estadual do Paraná, convidado para gravar o hino nacional do Paraguai. Vieram em três ônibus e dormiram uma noite no quartel de Foz. Ele recorda que a estrada que ligava Brasil ao Paraguai aqui em Foz era de terra e naquele dia choveu, fazendo-os atolar. Para chegar até a capital, Assunção, foram de barco.

O hino foi gravado e filmado e até passou nos cinemas de Curitiba. Na ocasião, o coral fez parte da festa de 150 anos de emancipação do Paraguai. Algo que ele lembra com orgulho. “Até hoje eu sei de cor o hino paraguaio [risos].”



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


3 thoughts on “História de Foz: Jairo de Oliveira

  1. Marc

    Bacana a matéria. Muitas vezes cruzamos nas ruas com a própria história da cidade e nem percebemos. E não só em Foz, mas em todo lugar.

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    1. Eliel Oliveira

      Ótima matéria! Parte importante da história de Foz resgatada nesta entrevista com o engenheiro Jairo. Parabéns.

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  2. Cristina Oliveira

    Parabéns para o tio Jairo! Muito legal saber tudo o que fez para Foz do Iguaçu!

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