Geração Z e os efeitos da pandemia

Desde que a quarentena passou a fazer parte da rotina das pessoas em todo o mundo, os jovens da era digital começaram a questionar ainda mais o futuro.

Já falamos em uma matéria especial sobre o comportamento e a forma de consumo da Geração Z (nascida entre 1995 e 2010). Nascidos na era 100% digital, esses jovens “descolados” são interessados por política e economia e buscam a independência cedo, estruturando um futuro baseado em emprego fixo que lhes dê segurança. Mas com a pandemia esse futuro passou a ser incerto não apenas para essa geração, como para todo mundo.

Não dá pra analisar de forma concreta como será o futuro pós-pandemia, pois todas as áreas sofrerão alterações. “O jovem tem um comportamento natural de ousar e arriscar mais. O que tenho observado em meio à pandemia são jovens que, mesmo assustados com a incerteza do futuro, procuram adaptar-se criando novas possibilidades. Claro que o comportamento oscila, alguns reagem de maneira negligente, acreditando não estar vivendo em uma situação que exige cuidados. É natural, e não apenas entre os jovens. Mas vejo um cenário otimista quanto à Geração Z, principalmente entre aqueles com motivação em empreender, onde estão vendo novos recursos em meio à crise, adaptando seus negócios e gerando novas formas de crescer economicamente na internet. São jovens que inspiram outras gerações a manter o equilíbrio entre a necessidade de ficarmos alertas, mas de não pararmos pelo medo”, destaca a psicóloga Samara Fernandes.

Ao mesmo tempo em que o futuro é uma incógnita para esses jovens, o presente passou a ser mais proveitoso. A jovem Agatha Vitória Heindrickson da Silva, de 15 anos, faz parte dessa geração antenada e decidida. Ela contou em entrevista à 100fronteiras que, desde que passou a ficar de quarentena, a rotina deixou de ser tão estressante. “Desde o início dos acontecimentos estou tendo aulas a distância e, ao mesmo tempo em que tenho mais trabalhos da escola e também dentro de casa, consigo me dedicar mais a outras atividades, como a leitura, cursos on-line e também a coisas simples, como assistir uma série em família. Com toda a certeza posso afirmar que os momentos juntos com meus pais estão sendo maiores, mais proveitosos e também mais frequentes.”

Isso mostra que essa geração se adapta rapidamente às mudanças, conforme ressalta a psicóloga. “A pandemia afeta o jovem em termos de energia, principalmente naqueles que possuem uma vida mais agitada. Eu diria que, devido à flexibilidade do jovem em se adaptar a novas mudanças, essa situação é algo que afeta menos a ele que as pessoas idosas, por exemplo. A tecnologia é um fator importante para manter-se ativo, mas não só isso, muitas pessoas estão se reinventando neste momento de isolamento, e nesse quesito o jovem é mestre.”

No entanto, manter uma rotina fixa ainda é difícil, conforme destaca uma pesquisa da FGV (Fundação Getúlio Vargas):

  • 82,6% tem dificuldade em manter rotina horária equilibrada;
  • 60,9% tem dificuldade em manter a motivação no trabalho;
  • 56,5% tem dificuldade em manter produtividade e concentração;
  • 34,8% tem dificuldade em manter a comunicação direta.

Nem tudo pela tela do celular

Se antes os contatos já eram por memes, vídeos e ligações, agora essa rotina se tornou ainda mais intensa, sendo aderida até por gerações mais velhas não tão habituadas à tecnologia. Apesar de dominarem o mundo on-line, os jovens da Geração Z valorizam o contato olho no olho e sentem falta desses momentos. “Muita coisa mudou nessa era em que estamos vivendo, principalmente pelo fato de nunca termos nos preparado para algo assim, então acredito que toda essa ‘surpresa’ foi o que mais dificultou o processo de adaptação. Mas, especificando, acho que a falta de contato social, sentir outras energias e ter um pouco de adrenalina correndo nas veias foi a adaptação mais difícil para mim”, explica Agatha.

Um artigo no site Folio, publicado no início de maio, informa que o consumo de notícias e comunicação on-line abre espaço para publicações impressas, principalmente entre essa geração que está saturada de tanto conteúdo pela tela do celular e computador. “(…) os leitores mais jovens descobriram que gostaram da experiência de uma revista. Eles gostaram de ler histórias sem vídeos de reprodução automática e aquisições em tela cheia, interrompendo sua experiência imersiva”, descreve parte do artigo.

Além disso, para a Geração Z, o que conta são as experiências, seja de consumo ou de conhecimento, por isso ela busca inovar na maneira como adquire informação, o que a leva para o contato com o papel, conforme demonstrou um estudo da American University com 300 estudantes, segundo o qual 92% preferem ler livros de papel em vez de e-books, assim como gostam de ler revistas, pois a confiança nas notícias impressas é maior do que no meio digital, principalmente num momento em que as fake news dominam a rede.

“Particularmente considero o meio impresso mais confiável, e definitivamente as notícias falsas são um dos maiores problemas da atualidade, pois em meio a tanta informação é extremamente difícil verificar quais são verídicas, o que anda ocasionando situações muito graves. Felizmente, as plataformas digitais já estão trabalhando em algoritmos capazes de realizar a checagem de links, porém não são 100% eficazes, e a maioria das fake news chega através do WhatsApp, o que pode ser um grande problema, pois não se pode invadir a privacidade do usuário comprometendo suas mensagens pessoais”, analisa Agatha.

 “Essas gerações notoriamente céticas são inteligentes o suficiente para perceber que a mídia social não é uma fonte confiável de informações importantes e, em vez disso, recorrem a meios mais estabelecidos”, frisa o artigo do Folio.

Assim, nota-se que as publicações impressas ainda têm papel fundamental na veracidade dos fatos, ao mesmo tempo em que o consumo on-line cresce cada vez mais, principalmente neste momento de isolamento social. Cabe então gerar um equilíbrio entre o impresso e o digital de forma a atingir todas as gerações.

E vale também ficar de olho nessa geração jovem e comprometida com o futuro e até mesmo inspirar-se no otimismo dela para descobrir novas formas de se adaptar ao mundo pós-pandemia. “Espero que possamos dar mais valor a nossas famílias, amigos, e também melhorar as relações no ambiente de trabalho, agindo de forma mais empática e altruísta até mesmo com quem possuímos grande diferenças. Também acredito que nós desenvolveremos mais coragem na hora de se expressar, não teremos mais tanto receio em dizer um ‘eu te amo’ e deixaremos o orgulho de lado. Minhas expectativas são de que, realmente, desenvolveremos laços e conexões mais profundas com quem nos relacionamos, deixando um pouco o superficial de lado, a ‘modernidade líquida’, como dizia Bauman”, complementa Agatha.

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