General Meira e a homenagem em Foz do Iguaçu

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Por: Jackson Lima

O general Meira, que dá nome a um bairro de Foz do Iguaçu, a um porto e a uma avenida, chamava-se José Meira de Vasconcellos. Paraibano da cidade de Souza, ele nasceu em 24 de abril de 1878, dez anos antes da chegada da expedição militar de Bernardino de Mendonça à foz do Rio Iguaçu.

Na idade adulta e já como general do Exército Brasileiro, José Meira de Vasconcellos foi nomeado comandante interino da 5ª Região Militar (5ª RM), em Curitiba, responsável pelas organizações militares do Paraná e Santa Catarina. Segundo o Boletim Diário de número 189, da 5ª RM, de 15 de agosto de 1937, o general Meira assumiu o lugar do general João Guedes de Fontoura.

O nacionalismo de Meira

Os jornais da época, especialmente os do Paraná e Santa Catarina, dedicavam páginas inteiras para elogiar o general que se destacou com sua campanha nacionalizadora, levada a cabo com garra no Paraná e Santa Catarina.

Desde que ingressou no curso de Estado-Maior do Exército, em 1920, o que não faltou na vida de Meira de Vasconcellos foram desafios, campanhas, lutas, revoltas e batalhas – e em todas elas o inimigo era irmão. Foi uma época de um Brasil tão dividido que faz o Brasil atual parecer, de longe, um paraíso.

Como major, entre 1924 e 1925, ele lutou no Paraná contra os revoltosos paulistas do chamado Segundo 5 de Julho. O Primeiro 5 de Julho aconteceu no Rio de Janeiro, no Forte de Copacabana, em 1922. Tudo o que os revoltosos queriam era dar um golpe no governo do presidente Artur Bernardes.

Os paulistas foram derrotados após uma batalha importante em Catanduvas, onde hoje há uma penitenciária federal. Os vencidos de São Paulo debandaram, mais tarde decidindo unir forças com os revoltosos do Rio Grande do Sul. Nesse ano, o bando invadiu Foz do Iguaçu, já com o nome de Coluna Prestes. Os iguaçuenses da época se assustaram e fugiram para Puerto Iguazú, então chamada Puerto Aguirre.

Nascimento da República Nova

Os anos 1930 começaram com um golpe militar chamado de revolução. Nascia a República Nova, na qual o presidente Vargas usou e abusou de uma figura chamada interventor federal.

Os anos 30 prosseguiam sua marcha em direção aos anos 40 e à Segunda Guerra Mundial. Na época, as classes dominantes brasileiras tinham tendência para o fascismo como orientador político. Em todos os estados cresceu o nacionalismo com organizações como a proposta Organização Nacional da Juventude, que deveria regimentar jovens para demonstrações patrióticas formando milícias da juventude com treinamento militar no estilo das utilizadas na Alemanha e na Itália.

Isso coincidiu com a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha e do fascismo na Itália. Em algum ponto desta caminhada, o governo brasileiro descobriu que o Partido Nazista alemão possuía 76 escritórios no Brasil. Entre as autoridades brasileiras preocupadas com este fato estava o general José Meira de Vasconcellos.

Ao chegar a Curitiba e assumir o comando da 5ª Região Militar, duas coisas importantes aconteceram ao general. Primeira: assistir ao desfile patriótico do dia 7 de setembro de 1937. Segunda: desesperar-se diante da apatia da população, formada em grande parte por colônias de origem europeia.

A campanha

A partir daí, o general Meira planejou uma ação nacionalizadora nos estados de Santa Catarina e Paraná, áreas pertencentes à 5ª Brigada de Curitiba. Quando a campanha terminou, anos mais tarde, mais de duas mil escolas de imigrantes haviam sido extintas, a maioria escolas alemães. A ideia era garantir a coesão de todos os brasileiros na totalidade representada pelo Estado-Nação.

As colônias estrangeiras isoladas eram consideradas “quistos raciais”, e seus membros eram considerados “brasileiros desnacionalizados”. Nos três estados do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a cruzada nacionalizadora do general era tema frequente de manchetes e capas de jornais.

A Gazeta de Florianópolis do dia 31 de maio de 1938 publicou várias reportagens na capa do jornal, dedicada ao general Meira. “General Meira de Vasconcellos, galhardo e valoroso pioneiro da sagrada causa nacionalista”, era a chamada principal sem usar um verbo sequer. O assunto do dia era a visita do general a Florianópolis, Blumenau e outras cidades do Vale do Itajaí.

“Blumenau vibrou de entusiasmo” diz outra das reportagens falando da visita do general Meira e seu interventor federal em Santa Catarina, Nereu Moura, a Blumenau e cidades vizinhas.

Exageros generalizados

A campanha recebeu a adesão de brasileiros genuinamente preocupados, mas também de aproveitadores, policiais e funcionários desonestos, depredadores e até ladrões. Em lojas, armazéns e bancos apareciam avisos sobre a proibição de falar em público alemão, italiano e japonês. Mas em caso de dúvida, todos os outros idiomas entravam na lista, entre eles holandês, ucraniano e polonês.

Um dos alvos dos mais “afetados” da campanha era a “mulher polaca”. Em texto de 1939, do tenente nordestino Hugo Bethlem, que acompanhou a jornada civilizadora nacionalista no Vale do Itajaí, citado em trabalho da pesquisadora Giralda Seyferth, a mulher polonesa aparece como ignorante, feudal e inconsciente.

Até a “carroça polaca” foi vítima da retórica nacionalista, sendo acusada de ser responsável pelas condições das estradas do Paraná e Santa Catarina. “A carroça polaca, brutalmente pesada, é que é a verdadeira responsável pelo estrago permanente destas estradas de piso de terra e com pouca ou nenhuma conservação.”

Foz do Iguaçu

Foz do Iguaçu é hoje uma cidade de muitas etnias, porém já foi uma cidade com uma boa população “alemã”. Isso ajudou na decisão da Igreja em Curitiba pedir a ajuda da Congregação do Verbo Divino da Alemanha para organizar a Igreja no extremo oeste.

Graças a isso, no dia 28 de outubro de 1923, um alemão desembarcou em Foz do Iguaçu. Era o padre da Congregação do Verbo Divino (SDV) Wilhelm Maria Thiletzek. O padre Wilhelm, inteligentemente, logo “aportuguesou” seu nome, trocando Wilhelm por Guilherme. O monsenhor Guilherme morreu no dia 26 de fevereiro de 1937, seis meses antes do início da caçada ao “alienígena” projetada pelo general Meira.

Entretanto os padres de Foz também sofreram na época da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945. Eles foram enviados para Guarapuava durante a guerra. O governo, ao longo da cruzada, via missionários e professores estrangeiros como “agentes mercenários”, até que se provasse o contrário.

Não é difícil imaginar que o povo de Foz do Iguaçu também idolatrasse e ao mesmo tempo temesse o general Meira e sua campanha nacionalizadora para “desentocar” elementos não assimilados à cultura brasileira.

Daí não é muito estranho concluir que uma maneira encontrada pela comunidade para agradar ao paladino da cruzada nacionalista fosse dedicar-lhe uma avenida, o porto e o bairro na nascente e ainda poeirenta cidade.



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


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