18 de março. Data em que a fronteira terrestre entre Brasil e Paraguai fechou. De lá para cá já se passaram 5 meses e a situação permanece a mesma. Os blocos de concreto no meio do asfalto impedem a passagem de motoristas e pedestres que diariamente cruzavam a fronteira mais movimentada do país. No entanto, hoje o que predomina no local das pontes é o silêncio.

Mas não ficou assim ao longo desses cinco meses. Desde que a 100fronteiras publicou na capa da edição de maio a foto da Ponte da Amizade fechada, na época dois meses, a cidade de Foz do Iguaçu despertou para a realidade dura. Com a crise sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus que obrigou o fechamento das fronteiras incluindo a Ponte da Integração entre Brasil e Argentina, outra crise se instalou na região, a econômica.

Os decretos que obrigaram o fechamento do comércio em Foz, assim como nos países vizinhos, e o bloqueio das pontes, gerou um cenário de instabilidade que se estende ao longo desse período.

União em prol da reabertura das pontes

Para tentar alertar a crise econômica que avançava, um grupo de empresários liderados pelo empresário Arif Osman organizou um protesto em frente a aduana do lado brasileiro, no dia 20 de maio.

Na ocasião vários representantes de comércios, autônomos, empresários do setor turístico da cidade, taxistas e moto taxistas se reuniram para protestar a favor da reabertura das fronteiras no evento intitulado #VEMPRAPONTE que ocorreu de forma ordenada e pacífica.

A intenção era chamar a atenção dos governos dos três países para que houvesse a reabertura segura das fronteiras. E mesmo que as pontes não tenham sido reabertas, o ato movimentou as autoridades políticas brasileiras e paraguaias.

“A nossa movimentação mostrou a insatisfação da permanência fechada das duas pontes de nossa cidade, serviu para chamar a atenção dos dois prefeitos, e dos presidentes do Brasil e do Paraguai. Como ela foi tranquila e pacífica, acabou recebendo elogios e apoios da própria Polícia Rodoviária Federal, e de todos os envolvidos na segurança dos manifestantes. Imagens foram solicitadas pelo Ministro de Relações Exteriores do Paraguai, que mostrou ao presidente Marito, e este ligou pro Bolsonaro para falarem sobre a ponte com o Paraguai. Mas mesmo com o pedido do Brasil para a abertura, o governo paraguaio estava temeroso na época. No entanto, eu creio que a qualquer momento o governo paraguaio entenderá que a fronteira depende muito de uma cidade e da outra para sobreviver. Precisamos recuperar os nossos empregos e nossos negócios, as pessoas precisam estar ativas. Com todos os cuidados isso é possível”.

Arif Osman
A manifestação ocorreu de forma pacífica sob orientação da Polícia Rodoviária Federal. (Foto: Assessoria PRF)

Naquela mesma semana, no dia 21 de maio, Foz do Iguaçu e Ciudad del Este criaram um comitê para tentar reabrir a Ponte da Amizade. A reunião ocorreu de forma online e reuniu lideranças empresariais, representantes da sociedade civil organizada, gestores públicos e técnicos dos setores de saúde e segurança de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este que iniciaram a discussão para criar protocolos a serem implantados na fronteira quando a Ponte Internacional da Amizade fosse reaberta.

Esse diálogo foi avançando ao longo dos meses, até que no final de julho, dia 29, após os governantes paraguaios estabeleceram uma nova quarentena restritiva em CDE devido ao aumento de casos de coronavírus, houve um intenso protesto do lado paraguaio, onde a população se reuniu para protestar contra as novas medidas e exigir que o comércio de CDE permanecesse aberto.

No entanto, a manifestação não foi pacífica, o que gerou confrontos com a Polícia Nacional, do Grupo de Operações Especiais e agentes da Marinha. Os protestantes atiraram pedras e destruíram caminhões de carga que entravam e saíam do país. Também teve registro de lojas saqueadas e caminhões queimados.

Registro do protesto em CDE para reabertura da Ponte da Amizade. (Foto: Wilson Ferreira/Ultima Hora)

Apesar do caos que foi instalado na cidade devido a essa ação, no dia seguinte, o prefeito de CDE Miguel Prieto reuniu-se com representantes do Poder Executivo, juntamente com o Governador de Alto Paraná e outras autoridades e estabeleceram que o comércio permaneceria aberto desde que seguisse os controles sanitários rigorosamente.

Protocolo de reabertura segura da fronteira

Após isso, no início de agosto, o prefeito de Foz do Iguaçu, Chico Brasileiro, reuniu-se, por meio de videoconferência, com o Chefe da Casa Civil do Paraná, Guto Silva, para elaborar um plano de apoio ao governo paraguaio para a reabertura da Ponte Internacional da Amizade.

Na sequência, no dia 04 de agosto, o ministro do Interior do Paraguai, Euclides Acevedo, em visita a Ciudad del Este, destacou que a fronteira permaneceria fechada por pelo menos mais duas semanas e que tudo iria depender da reunião virtual entre os prefeitos Chico Brasileiro (Foz do Iguaçu), Miguel Prieto (Ciudad del Este) e os governadores Ratinho Júnior (Paraná) e Roberto González (Alto Paraná) para estudar a possibilidade de haver uma flexibilização para passagem de pessoas e mercadorias.

Para isso foi criado um documento entre lideranças empresariais, sociedade civil organizada e de órgãos públicos de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este com propostas de segurança, prevenção e controle reunidas no “Protocolo sanitário binacional para a retomada econômica da região trinacional do Iguassu”.

De acordo com o Conselho de Desenvolvimento Econômico de Foz do Iguaçu o documento prevê a abertura gradual da ponte, em três fases, começando pela liberação da circulação para moradores da fronteira, em veículos com até 50% da capacidade de ocupação. Para isso, as pessoas que moram na fronteira deverão apresentar comprovante de residência e assim poderão cruzar a via diariamente, das 6h às 18h. Já o transporte de cargas deverá ser feito das 18h às 6h.

Ponte da Amizade fechada foi capa da edição histórica da Revista 100fronteiras de maio. (Foto: Paulo Lisboa)

Na segunda etapa, o protocolo prevê ampliação dos horários e flexibilização do trânsito de pedestres. E na terceira e última etapa será autorizado o fluxo de não moradores e turistas. Esse estudo inclui o perímetro inicial de segurança sanitária compreendendo Foz do Iguaçu (Brasil) e as localidades de Ciudad del Este, Presidente Franco, Hernandarias e Minga Guazú (Paraguai).

No entanto, para que isso aconteça será levado em conta a situação epidemiológica do Brasil e Paraguai, mas os prefeitos de CDE e de Foz do Iguaçu esperam que a reabertura da ponte aconteça a partir de setembro. O Codefoz destaca que a estrutura sanitária bilateral sugerida às autoridades deverá ter capacidade de realizar até 700 testes de covid-19 por dia, sendo 500 do lado brasileiro e 200 do paraguaio, com resultados entregues em até 24 horas. A coleta está prevista em ambos os lados da Ponte da Amizade, mediante apoio do Centro de Medicina Tropical da Tríplice Fronteira.

Ainda com relação a segurança sanitária, o prefeito Chico Brasileiro destacou que Foz do Iguaçu auxiliará no atendimento hospitalar aos paraguaios, como forma de garantir a reabertura da ponte e restabelecer a economia da região. No entanto, até o fechamento desta matéria não havia sido marcado a reunião entre as lideranças para definir a data de reabertura.

Registro da Ponte da Amizade fechada. (Lilian Grellmann/100fronteiras)

Ponte da Fraternidade

Outro acesso que está fechado há cinco meses é entre o Brasil e a Argentina por meio da ponte Tancredo Neves. Permitido o acesso apenas de caminhões de carga, a principal ligação entre os dois países também está bloqueada e deve permanecer assim por mais um tempo.

Ponte da Fraternidade fechada (Foto: Lilian Grellmann/100fronteiras)

No início de agosto o presidente argentino Alberto Fernández anunciou que as medidas de isolamento obrigatório seriam prorrogadas mais uma vez, com prazo até dia 16 de agosto. No entanto, o governador de Misiones, Oscar Herrera Ahuad, destacou recentemente que a fronteira não deve reabrir tão cedo. No início desta semana, o presidente da Argentina anunciou que a quarentena no país será estendida até o dia 30 de agosto.

Esperança e cooperação

Apesar de ainda não haver certeza quanto a data de reabertura das fronteiras, passados cinco meses hoje é possível ter esperança de que em breve as fronteiras irão abrir seguindo todos os protocolos de segurança sanitária e proporcionando um novo ânimo para a comunidade das três cidades fronteiriças.

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras.

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