Essa quinta-feira está sendo difícil para quem teve a oportunidade de conhecer e conviver com Ivan Carlos Mororo.

Ele deixou este plano na quarta-feira, 16 de março de 2022, sofreu uma parada cardíaca e acabou não resistindo. Em Foz do Iguaçu ele era conhecido como o treinador, que mais do que apenas treinar jovens para o futubol profissional, treinava-os para a vida.

Relembre a entrevista de Ivan na revista 100fronteiras, em maio de 2016.

Ivan Carlos Mororo
Foto: Divulgação.

Sempre que a Azulão precisou, o senhor esteve lá (como técnico no decorrer da temporada), mas este ano (2016) foi diferente. A diretoria acreditou desde o começo do Campeonato Paranaense. Como foi esse papo com a equipe?

Ivan: Eu não tenho medo de desafio quando sei do meu trabalho e o que tenho nas mãos. Igual agora, quantos amigos chegaram e disseram pra eu não pegar o Foz. Mas se eu não pegar agora seria sempre auxiliar e era hora de mostrar meu trabalho. Quando chegou o Campeonato Brasileiro – Série D (2015), falei para os moleques: “Calma e vamos ver o que vai acontecer”. Chegou o treinador [Claudemir Sturion] e base, ele não queria nenhum, tanto é que tive que trocar em outros lugares. Muitas vezes tivemos que fazer malabares e dizer pra ficar, trocar de casa ou inventar alguma coisa, pra poder sair com o treino com os meninos.

100f: Como foi a hora de aceitar o convite para treinar o time da sua cidade?

Ivan: Eu precisei de uma semana, dez dias, pra eu pensar. E quando eu fui pra casa, fui conversar com minha esposa, e aquilo tudo. Ela disse que daria apoio. Eu comecei a pensar. Se eu não pegar agora, não pegaria mais. Serei sempre o auxiliar. Comecei a reunir os moleques. E eles disseram: “Vamos”. Perguntei pro Arif [Osman] o que ele iria me dar no sentido de atleta. Digamos que uns oito veteranos, mais os meninos… Não é o ideal, mas se eu não pegar agora não tem jeito. Então vamos. Deixa comigo.

100f: Como foi a primeira conversa como técnico dos meninos?

Ivan: Quando eu reuni no meio do campo, falei com todos a minha forma de trabalhar. Ao mesmo tempo não tinha mais que olhar pra aqueles moleques como base e nem que vocês [veteranos] vieram aqui para ser titular. Meu trabalho é aqui dentro, não interessa onde você passou. Me interessa como você está hoje, se está bem. Então eu só quero deixar isso claro. Outra coisa, honestidade. Seja honesto com vocês e família de vocês, respeitem um ao outro. Não queiram fazer sacanagem com ninguém. Ninguem vai escalar sozinho. Lutar por um ideal. Temos quatro objetivos: não cair; segundo: ficar entre os oito; terceiro: Brasileiro; quarto: disputar o titulo. Então é isso que peço pra vocês. Eu gosto de fazer minha oração, antes do treino. A forma de trabalhar era ser correto. Eu sempre falei que tudo que acontece aqui, eu deito e durmo bem. Eu jamais farei qualquer sacanagem com nenhum de vocês. E isso aí a gente foi ganhando novos atletas. Tem jogador que foi embora chorando. O time era pra cair, se olhasse nosso elenco… Uma coisa é certa, sabe quem vai acreditar em vocês? Sua esposa, sua mãe, seus pais e filhos. Eu, comissão técnica. Quando temos honestidade, Deus apoia esse trabalho.

Matéria de Ivan Mororo na revista 100fronteiras

100f: É preciso ter muito tato para trabalhar e ajudar a revelar novos jogadores, você acaba sendo um pai pra eles, não é mesmo?

Ivan: Nas bases, principalmente, mais pai e educador. Eu sempre passei e falei pra eles que eu estava ali pra ajudar na formação deles. O futebol, jogador, seria consequência do treino. Se der, deu; se não der, paciência. Mas o principal era formar pra vida. Ser um ser humano bom, digno, honrar pai e mãe, ter um bom trabalho. Essas coisas me deixam orgulhoso.

100f: Qual é a diferença de lidar com jovens e adultos?

Ivan: Tudo depende do seu trabalho. Eu vou dar o exemplo desse ano. Esse ano conseguimos juntar os meninos que já estavam comigo. Tem menino ali que estava há dez anos comigo. E os jogadores que vieram, vieram com proposta. Jogadores que têm filho, que têm um ideal de vida e algo pra lutar. Vai correr pelos outros também. Esse vai te dar resposta. Tem que ensinar personalidade. Se a gente lançar um moleque num momento errado, pode queimar a carreira do cara.

100f: Eu estava ouvindo o jogo da classificação do Foz e foi uma loucura. Por uma série de situações, o time, mesmo perdendo, conseguiu classificar-se…

Ivan: Ali teve a mão de Deus, por causa do trabalho que era correto. Eu sempre falei com a comissão técnica pra sermos honestos. Vamos trabalhar e animar. Se o Operário de Ponta Grossa tivesse feito mais um gol não dava. Então foi assim, essa trajetória.

100f: Uma campanha vitoriosa, porque alcançou 100%. O objetivo de chegar à Série D seria a cereja do bolo; e ser campeão, algo que precisamos sonhar. Qual foi o jogo dessa temporada que você viu no olhar dos jogadores que o time não iria cair e iria classificar-se?

Ivan: Contra o J.Malucelli. Perdemos de 4 a 3. Foi numa derrota que eu vi que nosso time tinha capacidade, porque não só nas vitórias que vemos as coisas boas. Precisamos analisar as derrotas. O time aquele dia mostrou um baita futebol, a gente estuda o futebol e vimos que tinha condições. Tomamos os três gols por falha individual.

100f: O que o senhor pediu antes de começar o Campeonato Paranaense?

Ivan: Pedi a Deus muita sabedoria. Eu vou muito à igreja, mas eu pedi principalmente inteligência na tomada de decisões, pra que me ajudasse, desde a troca de um atleta, ter discernimento, abençoando nosso trabalho. E que faríamos a nossa parte e que Deus providenciasse as outras coisas. Quando você falou sobre defender o time da cidade, para mim foi um orgulho porque eu luto muito pela cidade, há muito tempo. Fui campeão várias vezes aqui. Tem dois títulos de Jogos da Juventude, Jogos Abertos, da Série A, da divisão principal do PR Esportes. Eu fui torcedor do Foz, jogador do Foz e hoje sou treinador. Eu participei de todas as etapas. Desde que o campeonato tem mais de uma divisão, o Foz, nesse novo formato, só ficou três anos na primeira divisão. Ele ficou de 93 a 2008 na segunda divisão, daí subiu em 2008 e jogou em 2009 e caiu em 2009. E ganhou essa vaga em 2014, jogou 2015 e 2016, e ano que vem já está garantido.

100f: E o futuro? Surgiram convites pro senhor depois dessa campanha?

Ivan: Então, graças a Deus tem aparecido convite; volta e meia estamos recebendo ligação. Mas eu analiso assim: eu sou um cara que não vou trocar seis por meia dúzia. Eu tenho toda minha vida aqui. Então se é pra eu sair da minha cidade, tem que ser por uma coisa boa, que compense você largar as coisas que construiu ao longo dos 40 anos. Quando acabar os estaduais, vamos falar de novo. A não ser que seja uma equipe que vá oferecer todas as condições. Futebol às vezes são três jogos. Se eu tiver uma proposta boa, eu fico.

100f: Cheguei a comentar nas redes sociais que o Azulão precisa continuar esse trabalho diferente. É o que dá certo, investir na base, no pessoal daqui, comissão técnica local, fazer um planejamento em médio e longo prazo. O presidente Arif chegou a conversar contigo depois do campeonato?

Ivan: Não. A respeito disso ainda não. Na verdade assim, desde 2006 que eu vivo falando que a solução do clube é a base, só que nunca enxergaram isso. Entra ano e sai ano, pegam vinte [jogadores], botam ali e acabou, tchau. Então, quer dizer, o que acontecia muito, perdemos muitos jogadores bons que foram embora. Agora recentemente eles disseram que eu consegui fazer eles abrirem a mente. Vamos fazer um bate-bola, deu 50 moleques.

100f: A valorização da base é uma cultura nova no futebol local. E o trabalho?

Ivan: Isso é de muitos anos. Esse é o momento do Foz, momento deles. Se eles forem inteligentes, é fazer isso aí, fazer captação de jogador. E outra, ter duas casas, uma pro profissional, porque não pode misturar. Não pode misturar o profissional com a base. E fazer esse trabalho, e aí o Foz vai começar ter os lucros novamente. Essa safra vai acabar. Vai vender, três, quatro, cinco. E depois vamos fazer o quê? Esse é o momento de sermos inteligentes e fazer isso aí. Pego meu auxiliar e vamos rodar. Meu auxiliar é o Bira. Insistimos numa coisa… Vários jogadores hoje estão aí.

100f: Gostaria que você deixasse um recado ao torcedor Iguaçuanse, para esse pessoal apaixonado pelo Azulão da Fronteira…

Ivan: Primeiro agradecer os torcedores, porque a gente sabe o que é estar na arquibancada, porque eu sempre estive torcendo pro Foz. Até meus 17, 18 anos, depois começamos a viajar atrás de futebol e sempre estava ouvindo [nas rádios]. Eu sei o que ele sente. O que torce pro Foz, ele fica torcendo e não critica, ele percebe. Esse ano, o torcedor inteligente, ele sabe a dificuldade que tínhamos pra chegar onde chegamos. Era muita pressão em cima dos meninos. Eles não estavam acostumados com isso. Por que as bases jogaram melhor fora de casa? Porque sentiam vontade, a pressão não vinha em cima deles. No jogo aqui não, se chutasse a bola pra fora, já gritavam. É do futebol, faz parte. O jogador experiente não está nem aí. Eu pedia calma, nós sabíamos que era meia dúzia, que eram espectadores e não torcedores, porque o torcedor sofria junto e acompanhava junto. Esses eu tiro o chapéu, e pode ter certeza que 90% das vezes a equipe foi apoiada, e por isso os resultados chegaram conquistando esse espaço. Viamos que a maioria apoiou nossa equipe.

Denys Grellmann

Coordena nacionalmente a Comissão de Editores Locais da ANER, é membro do conselho fiscal da entidade (2019-2020), iguaçuense, jornalista, publisher da 100fronteiras com Master em Gestão Estratégica e de Marcas pelo ISE Business School, São Paulo e Universidad de Navarra, Espanha.

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