Apesar de não serem coloridos e chamativos quanto araras e tucanos, os pequenos marrons são destaque na trilha do atrativo pela importância ambiental que desempenham Todo mundo enche os olhos com as cores vibrantes da arara-canindé, e o longo bico do tucano impressiona de longe. Mas poucos se dão conta da importância das aves pequenas e marrons para a Mata Atlântica, com seu charme menos súbito. E essa foi uma das razões que levaram o Parque das Aves a focar esforços na conservação dessas aves, carinhosamente apelidadas de “pequenos marrons”, além de proporcionar maneiras de seus visitantes descobrirem seus encantos. Carmel Croukamp, diretora geral do Parque das Aves, explica que o conceito dos “pequenos marrons” diz respeito a como os seres humanos se relacionam com essas aves, que não chamam tanta atenção como as coloridas, mas que necessitam de cuidado por serem muitos importantes ecologicamente. “Os pequenos marrons, como os chamamos, são aves de diversas famílias, como cracídeos, tinamídeos, entre outros. Muitas vivem no chão da floresta, mas algumas vivem no alto também. Há ainda algumas espécies de passarinhos que se encaixam no grupo dos pequenos marrons que estavam esquecidos da Mata Atlântica, e estamos resgatando com esse novo objetivo”, comenta Carmel. O novo foco veio com o reposicionamento do Parque, que passou a trabalhar exclusivamente com a conservação de aves de Mata Atlântica a partir de 2017. Naquela época, 70% das aves na trilha do Parque das Aves eram de Mata Atlântica. Hoje, esse número está em 90%. Como a maioria dessas aves é marrom e cinza, a preocupação era que os visitantes não se conectassem com eles como fazem com araras e tucanos, coloridos e chamativos. E como o atrativo turístico é privado e depende da visitação para manter seu trabalho e apoiar diversos projetos de conservação ao redor do Brasil, o risco era alto. “Ficamos um pouco apreensivos com a mudança, mas cada passo que demos foi acompanhado de perto por nossa pesquisa de satisfação, da Qualia Analytics. E os resultados foram excelentes, mostrando um engajamento cada vez maior das pessoas com os pequenos marrons, fato evidenciado pelo aumento no número de fotos de visitantes com mutuns, jacutingas, perdizes e outras dessas aves nas mídias sociais. O importante foi contar para as pessoas porque essas aves são tão importantes”, comenta Carmel. Pequenos marrons correm perigo A Mata Atlântica têm muitas espécies pequenas e marrons, fantásticas e carismáticas. Entretanto, boa parte delas está ameaçada de extinção, exatamente por não serem tão atrativas aos olhos. E isso faz com que tenham menos apelo até para pessoas e ONGs interessadas em conservar espécies. No entanto, essas espécies desempenham diversos papéis ecológicos na natureza. Muitos são disseminadores de sementes, alguns fazem parte da base da cadeia alimentar como presas e outros são predadores. Todavia, cada um tem sua importância e o desaparecimento de qualquer espécie acarretaria em consequências negativas para a sobrevivência de várias outras. “A importância de uma espécie não se relaciona com sua beleza ou carisma, mas sim com a função ambiental que desempenha para o equilíbrio do ecossistema, por isso precisamos preservar todos”, aponta Carmel. A diretora explica que boa parte destas aves estão ameaçadas de extinção, sofrendo principalmente com a caça e o desmatamento, como o mutum-de-alagoas (Pauxi mitu), extinto na natureza desde a década de 1970, e o mutum-do-sudeste (Crax blumenbachii), endêmico da Mata Atlântica e criticamente ameaçado de extinção. Além disso, de modo geral, elas são pouco conhecidas pelas pessoas e sua importância ecológica menos ainda. Nova proposta da trilha Aves em geral são conhecidas por viverem no alto das árvores, mas ao entrar no primeiro recinto de imersão da trilha do Parque das Aves, o visitante é convidado a olhar para baixo. O propósito do convite se deve às pequenas aves marrons que vivem, em sua maioria, no chão da floresta. Essa é uma das estratégias do Parque para mostrar às pessoas os encantos desses pequenos animais da Mata Atlântica e torná-los destaque no decorrer do roteiro. Durante a trilha, o turista tem acesso a informações sobre essas aves para lembrar da importância que possuem na natureza. Além disso, o primeiro viveiro de imersão do Parque, que antes se chamava “Viveiro Floresta”, foi rebatizado e agora se chama “Os Pequenos Marrons”. Nele, o visitante fica bem próximo de macucos, perdizes, jacutingas, inhambuguaçu, mutuns e outras aves da Mata Atlântica. “É mais difícil arrecadar recursos para trabalhar projetos de pesquisa e conservação voltados para aves marrons ou cinzentas. Esse é um dos fatores da extinção da espécie. Por isso nosso papel é tão importante, chamando a atenção das pessoas para essas aves, os riscos que correm, e como se pode agir para salvá-las”, diz Carmel. Mudança de rumo O Parque das Aves sempre atuou na conservação de aves brasileiras, além de resgatar e abrigar espécies que sofreram com maus tratos e tráfico. Mas em 2017, após descobrir que uma pequena pombinha marrom-acinzentada, a pararu-espelho (Claravis geoffroyi), tinha desaparecido da região do Iguaçu, o Parque decidiu mudar e focar seus esforços em aves de Mata Atlântica. “O Parque das Aves está determinado a trabalhar para que o desaparecimento da Claravis não tenha sido em vão, e para que ela ilumine o caminho para a conservação de muitas espécies de aves da Mata Atlântica, principalmente as pequenas e marrons, que tendem a ser esquecidas”, explica Carmel. A nova bandeira do Parque, depois de descobrir que a Claravis se tornou extinta, é ‘Brilhar uma luz em espécies esquecidas’. “Hoje, todos os colaboradores do Parque carregam o símbolo da Claravis no peito para lembrar da história dessa pequena marrom esquecida, e lembrar que temos muito trabalho pela frente”, diz. Sobre o Parque das Aves Com 25 anos de atuação e 230 colaboradores, o Parque das Aves é a única instituição do mundo focada na conservação de aves da Mata Atlântica. Possui 16 hectares de mata restaurada, 1.400 aves de 140 espécies diferentes, com três viveiros de imersão e um borboletário. O objetivo do Parque das Aves é atuar investindo significativamente para criar um impacto positivo para as aves da Mata Atlântica, principalmente as 120 espécies e subespécies em risco de extinção. O Parque das Aves recebe 830 mil visitantes por ano, sendo o atrativo mais visitado de Foz do Iguaçu depois das Cataratas.

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