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Após pouco mais de um ano de mandato, o vice-prefeito de Foz do Iguaçu, Delegado Francisco Sampaio (União Brasil), expôs em entrevista à 100fronteiras o descontentamento com seu parceiro de gestão, o prefeito Chico Brasileiro (PSD).

A 100fronteiras iniciou no final de 2020 uma série de entrevistas com os representantes políticos de Foz do Iguaçu, entrevistando os vereadores, secretários, prefeito municipal e agora para encerrar o ciclo de entrevistas convidou o vice-prefeito para um bate-papo na redação. E Francisco aproveitou a oportunidade para comentar sobre o relacionamento com o prefeito Chico, o que pensa sobre a atual gestão e como é seu trabalho dentro da prefeitura. Confira.

Confira a entrevista com o vice-prefeito de Foz do Iguaçu, Francisco Sampaio.

100fronteiras: Como você começou a trabalhar na polícia e por que decidiu ingressar na política?

Vice-prefeito: Eu nasci em São Luiz, no Maranhão. Sou filho de dois cearenses e desde os 18 anos sou servidor público. Depois passei em um segundo concurso da Receita Federal do Brasil, no cargo de analista, por último estava como delegado da Polícia Civil do Paraná, cargo que ocupei por 20 anos. Sou casado com uma iguaçuense, pai de três filhos iguaçuenses e amo morar em Foz do Iguaçu, cidade que estou desde 1995.

Como delegado de polícia trabalhei em várias cidades e acredito que me destaquei quando atuei em São Miguel do Iguaçu, pois junto com minha equipe introduzimos os presos no mercado de trabalho onde eles atuaram em uma horta municipal e fazendo fraldas geriátricas para idosos. Esse trabalho me rendeu diversas Moções de Aplausos no Paraná, inclusive em Foz, que foi quando o atual prefeito me conheceu, em 2017.

Depois em 2020 para minha surpresa o Chico chegou até a minha casa para me visitar. Falou que queria fazer uma parceria comigo com base em estatísticas que detectaram que a única forma dele ganhar a eleição seria se tivesse um vice de direita, que fosse conhecido publicamente e ele até já tinha colocado meu nome nessas pesquisas sem que eu soubesse. Segundo ele, essa seria a única forma dele ganhar a eleição, sendo Chico e Chico. Eu disse pra ele que não tinha condições de investir financeiramente na campanha e ele me disse que eleição se ganhava com votos e que eu era muito bem visto. Então fiquei tentado ao cargo, mas preciso dizer sobre a minha decepção.

100f: Como assim, decepção?

Vice-prefeito: Para mim foi como uma proposta de namoro, que no inicio é tudo perfeito. Eu aceitei porque queria ajudar a população. Então perguntei a ele se teria liberdade para opinar, pois sabia que ele tinha viés de esquerda; ele disse que sim, que eu iria participar das decisões, pois admirava o meu trabalho, disse que daria liberdade para eu ajudar a escolher o secretariado. Mas daí… na prática não foi assim. Ganhamos a eleição e ele nunca me chamou para escolher um secretário, temos 20; diretores temos mais de 80 e nunca pude opinar. Todos os cargos estratégicos da prefeitura eu nunca pude dar uma ideia de qual a melhor pessoa. Me senti muito desprestigiado.

Como todo relacionamento eu tentei salvar o nosso. Eu me aproximei, me humilhei, tentei fazer ele entender que duas cabeças trabalham melhor que uma, mas há um núcleo que atua próximo à ele que nunca me aceitou. Esse núcleo atua com muita força sob ele e é muito com “viés de esquerda”. Esse tipo de atuação normalmente quer intervir muito no dia a dia das pessoas, diferente dos de direita.

Ficou muito claro que havia a divergência entre os dois Franciscos quando a primeira dama, e também secretária da saúde, comunicou que Foz teria que adotar o passaporte sanitário e eu, Francisco, publiquei um vídeo em minhas redes sociais com cinco razões fundamentadas pelas quais não considerava correto adotar essa medida e bastou aquilo ali pra eu praticamente ser expulso da administração.

100f: O que fizeram com o senhor a partir desse posicionamento?

Vice-prefeito: O prefeito demitiu meus únicos dois assessores, pois eu só tinha dois, um que ficava no escritório e um que me acompanhava nas ruas. Também limitou meu veículo, a prefeitura tem mais de 500 veículos, e ele limitou o meu a 15 litros por semana. Como eu sempre gostei de andar nas ruas, visitar as obras, 15 litros não seria suficiente, então entreguei a viatura e hoje uso meu carro particular.

Mas assim, daquela proposta inicial de que minhas ideias seriam aceitas chegar agora e mandar meus assessores embora? Tem mais de 280 cargos comissionados na prefeitura, eu tinha dois e agora não tenho nenhum, olha como era bem distribuído os cargos?! E tudo por conta de uma divergência pública que fiz de forma educada, pois eu não sou obrigado a pensar igual a ninguém. Esses pensamentos diferentes devem existir, foi por isso que me candidatei, mas hoje fica claro que de fato quem manda é só o prefeito.

Assim como a esposa dele, que tem uma gerência forte na prefeitura. E quem destoar dela terá o mesmo destino que Francisco Sampaio teve, mas não tem problema não, o povo tá vendo.

Delegado Francisco Sampaio
Delegado Francisco Sampaio, vice-prefeito de Foz do Iguaçu.

100f: Você se arrepende de ter aceitado concorrer ao cargo?

Vice-prefeito: De ter aceitado a proposta dele sim, porque ele não é cumpridor de promessas. Mas, graças à Deus, as pessoas percebem, elas prestam atenção em tudo o que tá passando e sabem que a palavra final é do prefeito, não minha. O vice-prefeito está ali para eventual ausência do prefeito, assumir. Eu me sinto triste porque eu ajudo as pessoas, mas não com o apoio dos secretários, pois eles respondem somente diretamente ao Chico. Eu vejo que mesmo dentro da prefeitura há muita resistência ao prefeito. Ele não aceita ideias contrárias a dele. Bastou eu fazer um vídeo me opondo ao pensamento deles pro vice-prefeito ser quase expulso. Eu sempre deixei claro que eu não ganhei esse cargo, eu fui eleito pela população, e só quem me tira de lá é o povo. Jamais vou jogar um presente bonito que a população me deu, no lixo. Eu nunca vou renunciar, nunca! É o sonho dele (prefeito), mas eu nunca vou dar isso a ele.

100f: Você sente que foi usado?

Vice-prefeito:

Não tenha dúvida, fui usado. Até a eleição era uma conversa e depois da eleição foi outra.

Desde que chegou a vacina, lá em janeiro de 2021, o meu embate com a primeira dama era com relação a distribuição das vacinas prioritárias. Ela liberou para os funcionários da Secretaria da Fazenda, que ajudavam nas fiscalizações de rua, mas não liberou para o pessoal da Guarda Municipal, que era quem faziam essas rondas. Porque a segurança pública também nunca parou. Então isso vem desde o começo.

E digo mais, quando a relação é tipo casamento você tenta consertar, você cede, você se humilha, mas chega uma hora que não dá mais, aí você tem que separar. A pessoa não cumprir o que fala pra mim é muito sério, agir de forma dissimulada pra mim não serve. Então eu tento fazer agora do meu jeito, ajudar a população como eu posso, sozinho, mas também deixo claro que tudo o que eu pensar diferente eu vou falar, pois sou conhecedor dos direitos e agora também sou conhecedor da administração e tudo o que eu ver de divergência com a lei ou ver que acontece de forma morosa, sem organização e planejamento eu vou falar. Não tem problema se ao final eu voltar pro meu cargo de delegado, não tem problema não, mas eu não vou deixar me corromper.

Trecho em que ele fala que foi usado.

100f: Hoje vocês não conversam mais?

Vice-prefeito: Não, não. Desde o inicio eu ia lá que nem um bobinho, anotava as coisas, passava pra ele, falava, ele fazia que não ouvia. Eu pedi para ele a Secretaria de Segurança, pois há uma reivindicação muito antiga da secretaria já que faz mais de 20 anos que não tem um concurso público na Guarda Municipal. Se você quer acabar com um órgão você deixa sem concurso, você extingue ele. Então eu tentei assumir essa secretaria, mas pessoas próximas a ele me disseram que ele não daria, que ele não ia deixar eu comandar a secretaria de segurança, então tive que abrir mão. Vendo agora que ele tirou meus dois únicos assessores, você acha que ele iria ajudar a secretaria se eu tivesse assumido ela? Se atualmente a sala do vice-prefeito fica vazia, não tem ninguém lá pra atender o telefone quando eu estou na rua.

100f: Com relação ao transporte coletivo, que está em evidência atualmente, qual a sua opinião?

Vice-prefeito: Prometeram ônibus com wifi, ar condicionado e carregador de celular né? Você viu como a região pro lado da perimetral está crescendo? E daí vieram com um contrato de 66 ônibus e querem dar conta? Eu vi determinadas linhas que o ônibus passava só de manhã e a tarde. Quem precisa vir no meio do dia faz o que? Paga aplicativo? Não dá! Eu vejo ônibus com a lanterna traseira caindo, morador me contando que tem ônibus sem campainha… e isso é o transporte coletivo, agora vamos pra saúde.

Para começar colocar a esposa como secretária de saúde eu já achei um absurdo. Isso foi na posse, e eu não tive oportunidade de opinar. Tudo bem que o prefeito não precisa pedir autorização para ninguém, mas pra que existe parceria então? Como que o vice-prefeito vai contrariar a secretária de saúde se é esposa dele? Além de que é a secretaria que recebe um terço do total de orçamento do município.

Ela ficou ali no cargo por 15 meses e dai você vê: o diretor da Fundação de Saúde que controla o Hospital Municipal e as duas UPAs está com ultimato de 90 dias pra mostrar resultado e ver como irá sanar a dívida que está em quase 100 milhões de reais. A Santa Casa começou assim, daqui a pouco fale e daí você me diz, está sendo boa a administração? Vamos ser francos!

Sem falar da infraestrutura, que o Chico está há anos no poder, mas não resolve os alagamentos da Avenida JK. Outra coisa é o fato de que algumas secretarias não precisavam existir, como a Secretaria dos Direitos Humanos, que poderia ser agregada ao da Assistência Social. Isso geraria economia de aluguéis e salários. E daí as pessoas podem falar: “há mas você se elegeu junto com ele”, que é o mesmo que dizer que se você casou com uma pessoa que pensa de tal jeito você também pensa, mas não, eu penso diferente.

Sabe o que eles queriam? Que para eleição, ganhasse um delegado e pra gestão virasse uma freira de esquerda, mas eu sou o mesmo delegado que ganhou essa eleição! Não sou falso, sou o mesmo que me procuraram lá em casa, eu não fui atrás de ninguém, e não tem problema se ao final dos quatro anos eu voltar a ser delegado, eu estou com minha consciência tranquila. Essa liberdade não tem preço.

100f: Você pensa em continuar na política depois desse mandato?

Vice-prefeito: Eu não sei. Muitas pessoas me perguntam isso. Eu tenho vontade de continuar na vida pública. Eu me desfilei do PSD, não tenho nada contra o partido, mas aqui em Foz quem comanda é o Chico e os aliados dele. Então não faz sentido pra mim. Foi a minha primeira filiação na vida, mas eu saí. E pra minha sorte fui chamado pelo Deputado Fernando Francischini pra assumir o partido União Brasil aqui em Foz, que é da fusão do DEM com o PSL, resultando em um grande partido. Então me sinto muito honrado em ter sido escolhido para assumir esse cargo e repito que continuarei fazendo minha parte, ajudando a população com o que posso, mesmo que eu não tenha voz ativa na prefeitura.

Confira algumas das entrevistas

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

Comentários

4 Comentários

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  1. Esse prefeito de Foz do Iguaçu não esta com nada, pelo contrário cidade esta abandonada, não tem emprego, muita gente vivendo em situação de rua, pedindo ajuda nos semáforos, muita obra e melhorias pra fazer na cidade.

  2. Homem de valor tanto na polícia como na política pública, Foz é merecedora de mais homens e mulheres como o Delegado , meus parabéns .

  3. O homem tem que ter seu caráter e isso não se compra, assim como a dignidade própria. Parabéns!!!!