Já dizia a música do cantor e compositor iguaçuense Sérgio Copetti: “Isso é Foz do Iguaçu, da Tríplice Fronteira do Sul, onde o céu é mais que azul, terra das Cataratas do Iguaçu. Cidade da natureza”… É, Foz sempre foi encantadora, seja pelo acolhimento das pessoas que aqui vivem, seja pela forma como a natureza age. E é essa mesma natureza, agora mais preservada, que servirá de escape para o isolamento social quando a pandemia acabar. O mundo pós-pandemia que viveremos estará completamente conectado com aquilo que há de mais belo e vital no mundo, o meio ambiente. Foto da capa: Armando Abdias    Desde que o isolamento social obrigou as pessoas a ficarem em casa, o desejo de sair aumentou dentro de nós. É como se a vontade de respirar ar puro, olhar para o céu e ter contato com o verde da natureza fosse uma necessidade nunca sentida antes. Vimo-nos como passarinhos presos em gaiolas, acorrentados ao incerto e receosos quanto ao futuro, sem saber a que momento poderemos novamente respirar e contemplar a beleza da natureza.
Pôr do sol nas Cataratas do Iguaçu
Essa beleza natural que tanto há em Foz do Iguaçu é o que atrai os milhares de turistas que por aqui passam anualmente e o que faz eu, e talvez você, morador de Foz, apaixonar-me por essa terra. Mas agora que a realidade nos impede de curtir isso e o mundo pede pausa, a natureza aproveita para se regenerar. E é quando ela se transforma que surge um potencial gigantesco de integração entre o meio ambiente e a cidade, abrindo portas para uma nova tendência pós-pandemia.  

Cidades mais integradas à natureza

Segundo o sócio-fundador da Natureza Urbana, representante do Brasil na WUP (World Urban Parks) e consultor do United Nation Office for Planning Services (UNOPS), Pedro Lira, devolver espaço à natureza é fundamental para reduzir as chances de novas pandemias acontecerem. Assim, se antes nosso corpo pedia ar puro, hoje ele se torna ainda mais essencial para a nossa sobrevivência.
Uma pesquisa realizada por Marshall Burke, da Universidade de Stanford, nos EUA, aponta que o isolamento realizado pelo governo chinês durante a epidemia diminuiu de forma expressiva a poluição por lá, o que pode ter salvado a vida de, ao menos, 50 mil pessoas.
A Natureza Urbana realizou uma pesquisa com cerca de mil pessoas, em suas redes sociais, sobre quais locais serão mais frequentados pós-pandemia. O resultado apontou que:
  • 55% irão querer visitar parques e praças;
  • 22%, bares e restaurantes;
  • 17% acreditam que espaços para o pedestre em geral serão os mais buscados; e
  • 6% indicam os shoppings como possíveis lugares mais frequentados.
Passeios ao ar livre está entre as principais atividades de lazer pós-pandemia, de acordo com a pesquisa da Natureza Urbana.
A pesquisa também buscou saber a respeito do efeito sobre deslocamentos e quais meios de locomoção serão os mais privilegiados:
  • 65% apostam em transportes que permitam deslocamentos de forma individual, como bicicletas, a pé ou em veículos;
  • 23% optam por evitar deslocamentos;
  • E apenas 12% afirmam que vão buscar mais ônibus e metrô, sendo a maioria (65%) na faixa etária entre 18 e 24 anos.
Também foi feita uma pergunta solta sobre quais hábitos serão criados nas cidades pós-pandemia, e a maioria dos entrevistados confirma a tendência de se evitar deslocamentos, com o aumento do home office, de compras on-line e de ensino a distância, havendo ainda uma demanda por um número maior de espaços públicos e mais amplos. “Os resultados fortalecem a ideia de que a criação de mais parques equipados, associados a equipamentos de interesse público, sejam eles escolas, mercados, bibliotecas ou outras instituições que possam estender suas atividades ao espaço livre, seja uma solução”, destaca Pedro. Mas para que isso aconteça é preciso entender o que é a natureza e como se comportar diante dela. A pós-doutora e professora adjunta da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) na área de ensino de Biologia, Marcela Stüker Kropf, em entrevista exclusiva para a 100fronteiras, destaca que “nós somos animais e, portanto, somos natureza também! Se entendermos isso, compreenderemos que todos os espaços envolvem a natureza, mesmo aqueles em que predominam atividades humanas, como os espaços urbanizados. Dito isso, acrescento que a natureza está sempre se transformando em um processo evolutivo, ao longo dos bilhares de anos de existência do planeta. Ainda é cedo para falar de uma transformação mais profunda tendo como causa a pandemia do covid-19, mas está evidente os indícios de uma reflexão sobre a saúde ambiental do planeta, sobre o modo de vida, tanto no nível pessoal, quanto coletivo, da sociedade”.
Foz do Iguaçu é rodeada de natureza.
Já na arquitetura e na prática, esse plano de integração da cidade à natureza passa pelo desenvolvimento de projetos de arborização de vias, criação de parques e praças com bosques naturais e paisagismo. “As trilhas ecológicas são uma excelente alternativa de exploração com respeito à natureza. Em Foz, este recurso é pouco explorado, com exceção do Parque Nacional do Iguaçu e outras poucas alternativas muitas vezes desconhecidas dos iguaçuenses. Somado a isso, a criação de parques e praças com pontos de reciclagem de materiais seria uma alternativa sustentável que agregaria ainda paisagismo produtivo – quase inexistente em Foz. Sem falar na contemplação que isso gera, contribuindo para sensibilizar a sociedade para o cuidado com a natureza”, explana o arquiteto e urbanista e professor universitário Alexandre Martins Balthazar.

Projetos de integração já sendo realizados em Foz

Valorizando o que a cidade tem de melhor, que é a natureza, a Prefeitura de Foz do Iguaçu definiu, por meio da Lei Complementar 166, de 2011, e do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado Sustentável, de 2016, um mapa cicloviário composto por trechos de ciclovias e ciclofaixas já existentes e trechos a serem executados, com uma extensão total de cerca de 175,70 km de vias destinadas aos ciclistas. Isso porque, de acordo com o Plano de Mobilidade Urbana de Foz do Iguaçu, publicado em 2018, os trechos existentes somavam apenas 6,1 km (3,5% do total projetado) e não possuíam interconexão entre as vias. Por isso, uma das medidas foi desenvolver um mapa com trechos de ciclovias/ciclofaixas interligados, de maneira a conectar os subcentros da cidade e incentivar os deslocamentos por bicicleta. Uma dessas vias já está sendo executada pela Itaipu, que atualmente realiza a implantação do projeto de ciclovia e calçadas em uma quadra da Vila A, rodeada de mata nativa, delimitada pelas avenidas Paraná, Araucária e Garibaldi e pela Rodovia BR-277. O projeto tem um valor de R$ 8.400.000,00 e iniciou em dezembro de 2019. A previsão é que fique pronto em dois anos, sendo que atualmente 38% da obra está concluída. “A execução da intervenção prevista neste projeto está alinhada com as diretrizes fundamentais do planejamento da mobilidade urbana municipal. A ciclovia proposta constitui uma importante adição aos trechos com execução prevista em curto prazo para viabilizar uma rede cicloviária interconectada e que estimule os deslocamentos em bicicleta. O projeto inclui a execução de calçadas que estão em consonância com o padrão municipal definido pela da Lei 3.144. A rede cicloviária planejada pela Itaipu para a região conecta a malha municipal e demais projetos da Itaipu como Mercobal e Gramadão”, destaca o estudo feito pela Diretoria de Coordenação, Superintendência de Obras e Desenvolvimento, Departamento de Obras e Manutenção e Divisão de Planejamento da Infraestrutura da Itaipu.
Imagem do alto que mostra a imensidão de área verde em Foz onde está sendo construída a pista de caminhada e ciclovia pela Itaipu. (Foto: Assessoria)
Além da pista, haverá também iluminação pública de segundo nível e cercamento ao redor da área verde, para proteger a natureza e aumentar os níveis de segurança da área. “O compromisso que a Itaipu vem assumindo na promoção da mobilidade urbana e a convergência com demais projetos em desenvolvimento reforçam a justificativa da importância da execução do projeto”, ressalta a assessoria.
Assim, a cidade se encaminha para oferecer outras formas de atividades e lazer e desenvolver o hábito de utilizar a bicicleta, diminuindo o volume de carros na cidade e, consequentemente, a poluição. “Para criarmos espaços saudáveis precisamos pensar em formas de convivência mais positivas. Foz possui uma considerável área verde com potencial para ser conservada, garantindo condições necessárias a uma boa qualidade de vida para humanos e não humanos. A vocação turística da cidade a partir da valorização do patrimônio cultural e ecológico do município tem um grande potencial para colaborar para a saúde ambiental da cidade e consequente qualidade de vida dos seus cidadãos. Também é importante citar a localização fronteiriça que oferece um dinamismo à cidade, aumenta as possibilidades de trocas entre vizinhos, o diálogo de saberes, promove uma identidade histórica que aumenta o valor cultural da região”, complementa Marcela.

Cada um deve fazer a sua parte

Mas para que haja essa integração não basta apenas desenvolver projetos paisagísticos, é preciso também que as pessoas se conscientizem da importância da preservação, principalmente tendo em conta que um mundo pós-pandemia exigirá muito mais atenção com a natureza e conosco. “Penso que um uso consciente dos espaços envolva a tomada de consciência individual e coletiva de que somos seres que dependem uns dos outros para viver, que a vida é passageira e pode ser mais proveitosa, dependendo de como nos organizamos coletivamente. Isto perpassa por refletir sobre o modo de ver o mundo, de se perceber nele, sobre como a sociedade se estrutura, de poder desfrutar e respeitar todas as formas de vida do planeta e sermos solidários. Ressalto a importância do aprendizado de biologia, e ciências de uma maneira geral, bem como de valores da ética ambiental, para o desenvolvimento de um pensamento crítico sobre o mundo”, alerta Marcela.
Um trecho do centro de Foz possui faixa exclusiva para ciclistas.
 “A pandemia é resultado do excesso de pressões que exercemos sobre o ecossistema. Se não mudarmos a nossa relação com o planeta, outras virão com maior impacto. Devolver espaço à natureza em nossas vidas é a grande solução”, reforça Pedro, da Natureza Urbana.
Fotos de Foz: Arquivo 100fronteiras 

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras.

Participe da conversa

1 Comentário

Deixe um comentário

Deixe a sua opinião