Estar informado sobre o que acontece no mundo, no país e no seu estado é algo fundamental para todo ser humano. No entanto, poder saber do dia a dia da sua cidade e do bairro onde você vive não é algo tão comum ainda. Segundo uma pesquisa do Atlas da Notícia, divulgada em dezembro de 2019, o “deserto de notícias” atinge um total de 37,4 milhões de pessoas, o que representa 62% das cidades brasileiras que não têm cobertura de jornalismo local.

De acordo com a pesquisa, o Nordeste (73,5% dos municípios) e o Norte (71,8%) são as regiões com maior proporção de desertos. Em alguns estados dessas regiões, essa porcentagem é ainda maior: Tocantins (89,2%), Rio Grande do Norte (85,6%), Piauí (83%) e Paraíba (81,6%).

E isso é extremamente alarmante, haja vista que estar bem informado é algo essencial na tomada de decisões e no conhecimento.

Para fomentar a importância de veículos de comunicação locais, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) desenvolveu em 2019 o curso de Jornalismo Local Sustentável, com o apoio do Facebook Journalism Project. “O Atlas da Notícia, projeto no qual a Abraji é parceira institucional do Projor, mostrou que existem desertos de notícias demais no Brasil. Mesmo onde não há esses desertos, em geral existe pouca variedade de cobertura sobre os assuntos do município. Acreditamos que o jornalismo local independente é uma condição necessária para a saúde da democracia brasileira, então buscamos o apoio do Facebook para oferecer a esses jornalistas algumas ferramentas para que se mantenham na atividade. Assim, esperamos evitar a criação de novos desertos de notícias e, se possível, preencher as lacunas de cobertura profissional onde ela ainda não existe”, explica o atual presidente da Abraji, Marcelo Träsel.

O objetivo da associação é o aprimoramento profissional dos jornalistas e a difusão dos conceitos e técnicas da reportagem investigativa. Além disso, defende o direito de acesso à informação pública e a liberdade de expressão.

O Facebook Journalism Project é um programa global para estabelecer laços mais fortes entre o Facebook e a indústria jornalística. Trabalha com todo o ecossistema de notícias: publishers, jornalistas e organizações da indústria para desenvolver novos produtos e oferecer treinamento e ferramentas para os jornalistas e para a comunidade.

Essa preocupação em evitar que novos desertos de notícias se formem no país foi apoiada pelo Facebook, que busca fortalecer a indústria jornalística local. “As pessoas sempre nos dizem que querem ver mais notícias locais no Facebook. Sabemos que as notícias locais são o ponto de partida para um jornalismo de qualidade — elas aproximam as comunidades em torno de questões que estão mais próximas a elas. As notícias locais também nos ajudam a entender as questões relevantes para nossas comunidades e que afetam nossas vidas”, destaca Maíra Carvalho, gerente de Parcerias Estratégicas de Mídia do Facebook.

Praticando a teoria

A equipe da redação da 100fronteiras, que já trabalha com jornalismo local há mais de 15 anos, teve a oportunidade de participar, juntamente com mais de três mil jornalistas inscritos, desse curso on-line gratuito que durou oito semanas. Ao todo, foram 40 aulas com diferentes temas teóricos e práticos sobre o dia a dia do jornalismo local e a importância de escrever matérias jornalísticas sobre as comunidades.

Até mesmo quem não tem formação na área do jornalismo pôde extrair muito conhecimento das aulas e utilizar essas informações para aprimorar o trabalho que exerce na revista, como é o caso da estagiária Maria Eduarda Claumann Mendes, que atualmente é responsável por produzir as matérias locais para o Portal 100fronteiras. “Sempre tive vontade de aprender a prática jornalística. Na minha cabeça era só escrever a matéria, mas no curso e no dia a dia na redação vi que era bem mais que isso. Tenho que entender de SEO e saber para que público estou escrevendo na internet, além de estar por dentro do jornalismo de dados e poder mensurar os números, então o curso foi fundamental para me ensinar essas ferramentas.”

Da mesma forma, profissionais de outras partes do Brasil também receberam o curso como algo positivo, ideal para manter viva a busca diária por informação de qualidade.

A jornalista Wanessa Oliveira Silva, da Mídia Caeté, em Maceió (Alagoas), conta que o curso surgiu em boa hora, pois estava passando por um momento de crise no jornalismo local de sua cidade. “Comecei a fazer o curso em um momento bem estratégico para mim e para alguns colegas jornalistas em Alagoas. Construí, com mais dez colegas, a Mídia Caeté, que é uma plataforma de jornalismo independente, comunitário e investigativo. Foi extremamente sintonizado o curso em relação ao período de construção da Mídia Caeté e das primeiras matérias que pude escrever no nosso site. Já começamos com aulas que trouxeram uma injeção de ânimo propositivo, real, sempre indo direto ao ponto. Estamos colocando em prática uma série de aprendizados, partindo de toda a perspectiva ética e de compromisso com informações seguras e checadas, chamando também a importância de buscarmos as reportagens nos lugares invisibilizados, nos desertos de notícia. Também temos nos proposto a nos atentar mais para a organização de dados, ao uso e cuidados que precisamos ter ao solicitar informações via Lei de Acesso à Informação, e também com as questões relacionadas à segurança para a categoria. O curso foi tão rico que tenho mesmo revisitado diversas vezes e, a cada vez, um novo elemento aparece.”

E assim como ela e nós da 100fronteiras, muitos outros profissionais viram por meio desse curso que é possível aperfeiçoar o jornalismo local de qualidade.

“Embora a consolidação da democracia dependa da existência de jornalismo local saudável, a saúde do jornalismo local depende de muitos fatores. Também acreditamos que o acesso à informação pública oferece aos jornalistas locais a capacidade de ampliar a fiscalização do poder público e localizar pautas nacionais, o que pode atrair mais leitores. Porém existem fatores conjunturais, como a educação de qualidade, o desenvolvimento econômico, o interesse de empresários locais em anunciar e outras condições que dependem da participação de uma série de atores, mas em especial dos cidadãos, para manter a saúde do jornalismo local”, explana Marcelo.

Apesar de o curso já ter finalizado, os projetos da Abraji e do Facebook não param por aí. “O ecossistema de notícias é uma parte fundamental da missão do Facebook de dar às pessoas o poder de criar comunidades e aproximar o mundo. Temos investido cada vez mais em projetos do Facebook Journalism Project, dando suporte para que veículos tornem seus modelos de negócio mais sustentáveis e fortalecendo a comunidade ao redor do jornalismo de qualidade. Queremos continuar apoiando o importante trabalho feito pelos veículos de comunicação e publishers no Brasil, e queremos que esse seja um ecossistema inovador”, finaliza Maíra.

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

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