Tradicionais na alimentação de muitos povos da América Latina, insetos são ricos nutricionalmente e sua criação em grande escala tem baixo impacto ambiental

Recentemente, um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontou que o consumo de insetos pode ser um ponto primordial para a erradicação da fome e para o combate à pobreza no mundo.

Embora a notícia tenha causado estranheza (e nojo) em muita gente, a Entomofagia – consumo de insetos e seus produtos pelo homem – é uma prática antiga e comum em algumas regiões da Ásia, África e América Latina.

E, de acordo com a pesquisadora e professora da UNILA Elaine Soares, o consumo desses animais vem ganhando cada vez mais interesse por conta dos benefícios nutricionais e do baixo impacto ambiental na produção.

A docente, que é doutora em Entomologia, conta que na literatura há registros de 2.111 espécies de insetos que são consumidas por humanos em 140 países.

No Brasil, são 135 espécies de insetos comestíveis, entre elas larvas de besouros, lagartas de borboletas, formigas e gafanhotos.

“A maior parte desses insetos é colhida na natureza para consumo in natura ou como parte de algum preparo alimentar. E temos uma pequena parte, cerca de 2%, que é criada para produzir alimentos”, comentou a pesquisadora.

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Elaine Soares é doutora em Entomologia pela UFPR e atua no curso de Ciências Biológicas – Ecologia e Biodiversidade da UNILA

No Brasil ainda não há regulamentação específica para criação de insetos voltados à alimentação humana, apenas para ração de animais como peixes, frangos e animais de estimação. Ao redor do mundo, já há regulamentação para consumo humano em países da União Europeia, além do Canadá e Estados Unidos.

Com novas pesquisas mostrando os benefícios nutricionais e ambientais do consumo de insetos, cada vez vem surgindo mais empresas interessadas na produção e beneficiamento desse tipo de proteína para alimentação.

“Em termos dietéticos, hoje já sabemos que são animais que têm boas quantidades de aminoácidos, sais minerais absorvíveis, cálcio e gorduras saturadas. Alguns têm até Ômega 6 e Ômega 12”, explica Elaine. Geralmente, os animais são processados em forma de farinhas ou proteína hidrolisada. “É uma boa forma de colocar essa proteína na alimentação sem precisar olhar pra carinha dela”, brinca a docente.

Do ponto de vista ambiental, a produção de proteína proveniente de insetos economiza água, ocupa pouco espaço e reduz a emissão de gases, se comparado à produção de outras proteínas animais. O gado de corte, por exemplo, consegue converter aproximadamente 8kg de alimento em 1kg de ganho de peso.

Já os insetos são bem mais eficientes: convertem 2 kg de alimento em 1 kg de ganho de peso, e fazem isso eliminando 100 vezes menos óxido nitroso, um dos gases que causam efeito estufa. Além disso, as fazendas de insetos que já existem ao redor do mundo utilizam sobras de alimentos na alimentação dos animais, convertendo lixo orgânico em proteína de qualidade.

“Quando a gente pensa no Brasil, que está autorizado a utilizar inseto na ração de animais, o inseto entra na ração para substituir grãos e farinha de peixe. É possível produzir uma ração com a mesma ou melhor qualidade e ainda reduzir o impacto ambiental, porque diminui a necessidade de produção de peixe e de produção de soja. E, ainda, reaproveita alimentos que seriam descartados”, salienta.

Você já consome insetos

Embora poucos lembrem ou pensem no assunto, o consumo de subprodutos de insetos já é algo comum. O mais popular é o mel, néctar de flores processado pelo sistema digestivo das abelhas.

Na indústria, o corante carmim de cochonilha é proveniente do inseto Dactylopius coccus, popularmente conhecido como cochonilha, que é criado em cativeiro para a produção do pigmento que tinge sorvetes, iogurtes e até cosméticos.

A pesquisadora Elaine Soares contou que na América Latina há vários povos que complementam a alimentação com insetos. Os chapulines são um tipo de gafanhoto comumente servido como petisco em algumas partes do México. No interior de São Paulo e no Nordeste as formigas tanajuras são consideradas iguarias culinárias, que vêm ganhando espaço inclusive em restaurantes requintados.

Além da alimentação, existem vários outros usos tradicionais desses animais. “No livro Insetos no Folclore há um capítulo inteiro sobre utilização de baratas na medicina popular. Temos, por exemplo, tratamento para asma e bronquite torrando baratas no toucinho de porco e escondendo na comida ou no café.

Também há relatos de que nos anos 50, no Ceará, para acabar com a dor de dente, era indicado espremer a barata ainda viva e aplicar o que sobrar dela no dente careado”, cita.

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