Não dá para falar do impacto que as microempresas têm no setor econômico brasileiro sem falar da pandemia de coronavírus que atingiu o país e o mundo em 2020. Essa crise sanitária, que refletiu diretamente no bolso dos brasileiros, fez muitas pessoas perderem seus empregos e terem que se reinventar para sobreviver.

Se o país todo foi afetado, na Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai esse impacto foi ainda maior. Isso porque a cidade brasileira, Foz do Iguaçu, que vivia essencialmente do turismo nacional e internacional, se viu isolada no mundo com as medidas de restrição que impediram que as pessoas viajassem, além do fechamento das fronteiras entre o Brasil e o Paraguai e o Brasil e a Argentina que impactou diretamente a economia dessas cidades.

Segundo dados do Observatório Econômico Municipal de Foz do Iguaçu, em 2020, no auge da pandemia, o número de empregos do setor de turismo recuou 10 anos. O segmento mais afetado foi o de alojamento, seguido de alimentação, agências de viagem, cultura e lazer. O número de empregos no setor crescia em média 4,9% ao ano, quando em 2020 despencou 26,8%, tendo segmentos, como agências de viagem, que perderam 39,3%, fazendo com que iguaçuenses, que tinham no setor do turismo sua principal fonte de renda, buscassem novas formas de trabalho.

Por vários meses a cidade se viu deserta. Atrativos turísticos tiveram que fechar suas portas, hotéis e restaurantes ficaram vazios, escolas foram fechadas e o trabalho nos países vizinhos também ficou impedido de acontecer, o que resultou em desempregos. Famílias muitas vezes se viram sem saída em meio a guerra com um inimigo invisível. Mas como muitos otimistas dizem, é em meio à crise que surgem as melhores oportunidades, e foi isso que aconteceu. Os iguaçuenses tiraram forças do além para se reinventarem.

“Antes da pandemia eu, minha esposa e meus dois filhos trabalhávamos com transporte escolar particular, mas as aulas foram interrompidas e nosso trabalho parou 100%. Conseguimos nos manter por cerca de dois meses, mas depois disso os pais pararam de pagar as mensalidades e ficamos sem renda por cerca de três meses. Tivemos a ideia de trabalhar com a venda de produtos coloniais, meu pai tem uma agropecuária e vendíamos lá”, relata Sidnei Machado Cardoso.

Sidnei Cardoso
Sidnei Cardoso.

Ele comenta que no começo deu super certo, mas com o tempo as pessoas pararam de comprar e isso acendeu o alerta para a família migrar para outro setor. Então eles viram a oportunidade de comprar uma agro pet e, com base no conhecimento que o pai de Sidnei tinha, eles apostaram no novo negócio. “Acreditamos e fomos estudar e ficamos trabalhando por praticamente dois anos. Agora com a volta das aulas presenciais estamos conciliando o transporte com a agropecuária. Graças a Deus demos a volta por cima”. 

Sidnei Cardoso
Agora Sidnei atua nos dois empregos.

Algo parecido aconteceu na vida de Edinei José de Souza e a esposa Elisangela Aparecida Meyer de Souza.O casal trabalhava no ramo da escola. Ele, como motorista de van escolar, da empresa do Sidnei, e ela em uma escola particular. Quando a pandemia chegou, Edinei que ficou parado conseguiu se manter com o auxílio do Governo Federal, mas a esposa ficou sem renda. Então eles buscaram alternativas. Edinei comprou material de limpeza para carro e abriu um lavacar em seu sítio. O negócio deu super certo e a família conseguiu extrair uma boa renda. Com a volta das aulas, Elisangela retornou para seu trabalho na escola e ele seguiu com o lavacar, mas por trabalhar sozinho e longe da cidade não estava mais conseguindo atender os clientes, pois precisava ir para a cidade fazer compras. Então ele decidiu fechar o lavacar e na mesma época a patroa de Elisangela ofereceu a escola para eles. Vendo que poderia ser um bom negócio eles assumiram a escola e hoje tiram dali o sustento da família.

“A pandemia veio para nos despertar, para nos reinventarmos e termos coragem de abrir nosso próprio negócio. Desde pequeno sempre gostei de crianças e hoje posso dizer que não tenho apenas dois filhos, tenho vários, porque trabalho diretamente com as crianças que passam o dia todo conosco na escola. É gratificante acompanhar o desenvolvimento deles. Eu e minha esposa sempre tivemos o sonho de ter algo nosso, mas nunca sabíamos o que, e foi no momento mais crítico para nós que encontramos o nosso lugar ao sol”, revela.

Edinei de Souza
Edinei com a esposa e os filhos na escola.

Quem dependia do turismo sentiu o impacto que a pandemia causou na economia da cidade. Ricardo André Fenske trabalhava como guia turístico para público estrangeiro antes da pandemia e ficou desempregado quando o turismo parou. “No início me vi sem saída, foi um caos total. Então decidi trabalhar junto com minha esposa que tem uma empresa de eventos. Um dos principais segmentos da empresa é a locação de peças e itens para os clientes, foi aí que criamos um site para fomentar as locações na pandemia, e deu certo. Hoje meu trabalho é somente direcionado para nossa empresa. Vi que é um segmento que vem crescendo muito em vários aspectos, pois o setor de eventos é muito forte em Foz do Iguaçu”, explica.

Ricardo Fenske
Ricardo Fenske agora trabalha com o setor de eventos.

Da mesma forma, Ricardo viu muitos colegas de trabalho se reinventando para poder sobreviver. “Conheço muitos que passaram a trabalhar de bico e vendendo até pães e ovos nas ruas, colegas com quem trabalhei junto que falavam até quatro idiomas como eu e que durante a pandemia a solução foi bater de porta em porta para tirar o sustento da família”, relata.

Para quem dependia do trabalho no país vizinho Paraguai a pandemia também causou grande impacto economicamente. Vandressa Vanzeto Erthal trabalhava em uma empresa no Paraguai, mas com a pandemia e as fronteiras fechadas ela se viu da noite pro dia (literalmente) sem trabalho. A solução foi se reinventar. “A micropigmentação já existia a muitos anos na minha vida, porém como um hobby, não era algo prioritário uma vez que eu tinha meu emprego, mas com o impacto da pandemia na região ela passou a ser a atividade financeira principal nos meus dias”, conta.

Então a amiga que tinha uma clínica de estética lhe ofereceu uma oportunidade e ela não pensou duas vezes. “Sem dúvidas ter meu próprio negócio foi a solução, pouco a pouco fui ganhando mais visibilidade e reconhecimento e hoje posso dizer que me sinto muito realizada profissionalmente. Eu vi muitas pessoas se reinventando a partir da pandemia, a maioria buscando mais qualidade de vida, acredito que esse período nos fez refletir muito sobre nossas escolhas”, finaliza.

Vandressa Erthal
Vandressa Erthal agora é empreendedora.

Segundo dados divulgados pelo Sebrae em 2021 mais de 3,9 milhões de empreendedores formalizaram micro e pequenas empresas ou se registraram como microempreendedores individuais (MEIs), representando um crescimento de 19,8% com relação a 2020.

“O brasileiro é um povo empreendedor de muita garra e determinação, e são nos momentos de crise ou dificuldades que nascem as melhores ideias, foi assim nesta pandemia, e como é gratificante poder acompanhar histórias de superação tão inspiradoras, pessoas que não se deixaram abater, acreditaram que poderiam fazer algo diferente, resgatar um sonho antigo ou inovar, são exemplos que nos dão esperança de acreditar em dias melhores. Parabéns a estes iguaçuenses que acreditaram que seria possível”.

Paulo Rosset – gerente da agência centro da cooperativa Sicredi.

Formada em Jornalismo na UDC e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas na Unila, atualmente é jornalista da 100fronteiras e recentemente conquistou pela 100fronteiras o primeiro lugar no 1º Prêmio Faciap de Jornalismo.

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