O Dia de Iemanjá, a Rainha das Águas ou Rainha do Mar, é celebrado em Foz do Iguaçu há 44 anos. Desde o dia 2 de fevereiro de 1976, quando a ialorixá, ou mãe de santo, Benedita de Nanã fundou o Templo Reino de Oxalá, no Dia de Iemanjá. O templo e a Procissão de Iemanjá nas águas dos rios Iguaçu e Paraná nasceram juntos. E deu certo.

Quatro anos após a fundação da Casa da Vó Benedita, o jornal Nosso Tempo, de dezembro de 1980, dedicava duas páginas ao fenômeno que invadira a Terra das Cataratas. A capa do jornal chamou a atenção de quem se dirigiu às bancas de jornais e revistas da cidade. Em letras maiúsculas, enormes, a manchete SARAVÁ FOZ DO IGUAÇU ocupava pelo menos três quartos da página. Segundo a reportagem do semanário, a Festa de Iemanjá, na época da publicação, já levava até 2.500 pessoas às margens do Rio Iguaçu.

Em conversa com os jornalistas do pioneiro Nosso Tempo, a Vó Benedita contou que até a fundação do Reino de Oxalá, em Foz do Iguaçu, justo quando a cidade começava a se preparar para crescer, as religiões de matriz afro-brasileiras não gozavam do reconhecimento das autoridades.

Oferenda no Kattamaram com embarque no Porto de Areia, Porto Meira.

Hoje, fazendo uma retrospectiva, nada impede de ver a Vó Benedita não só como a fundadora da primeira casa de umbanda e candomblé em Foz do Iguaçu, como a precursora da expansão das religiões afro-brasileiras para o Paraguai, Argentina e até Uruguai.

A sede da primeira casa afro-brasileira na cidade ficava em uma das travessas que dava acesso à antiga Rodoviária de Foz do Iguaçu, no centro. A casa era uma referência procurada por fiéis, curiosos, imprensa e clientes, já que ali também eram vendidos produtos religiosos.

Foi para esse endereço que Amanda Villalba, ex-funcionária da representação paraguaia da linha aérea Ecuatoriana de Aviación em Assunção, dirigiu-se um dia para consulta. Foi atendida e ficou encantada. Ela se tornou filha da casa. “Cheguei em Foz no dia 11 de novembro de 1980 e, em 30 de janeiro de 1981, casei com João Carlos Vieira, filho e trabalhador do Reino de Oxalá.”

Mais tarde, João Carlos, já com o nome de Pai Adigun Eledumare (em memória), e (Mãe) Iya Amanda abriram o templo Ile Ase Iga Ode, que mantém o compromisso de não deixar de comemorar o Dia de Iemanjá.

Coexistência

A Festa de Iemanjá continua sendo celebrada. “Um ano vem mais gente do que outros”, disse a ialorixá. Em 2020, a procissão do domingo, dia 2 de fevereiro, saiu no sábado (1º). O motivo da antecipação da data foi adaptar-se à disponibilidade do barco Kattamaram II. No domingo, dia 2, também se comemorava o Dia de Nossa Senhora dos Navegantes, que incluiu uma novena, com missas nos três clubes de pesca tradicionais de Foz do Iguaçu: o Maringá, o Monday e o Iate Clube Cataratas, encerrando com uma procissão de barcos puxada pelo Kattamaram II.

Nossa Senhora dos Navegantes equivale a Iemanjá, segundo a prática conhecida como sincretismo, adotada pela Igreja Católica desde os tempos da conquista e colônia, passando pela época da escravidão. Mais outros encontros, sincretismo e sincronicidades aconteceram, nos primeiros dias de fevereiro de 2020, em relação a Iemanjá.

A procissão Católica Apostólica Romana que homenageia Nossa Senhora dos Navegantes é tradicionalmente organizada em Foz do Iguaçu pela Paróquia Nossa Senhora Aparecida e Espírito Santo, no Porto Meira, bairro onde está sendo construída a Ponte Internacional da Integração.

Já a Festa de Iemanjá, com direito a carreata entre a Praça da Paz e as margens do Rio Iguaçu, é organizada pela Associação Ile Ase Iga Ode, pelo Templo Reino de Oxalá, aquele fundado pela Vó Benedita, o Templo Luz de Oxalá e a Associação do Povo de Terreiros, com o apoio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Relações com a Comunidade e da Fundação Cultural, com as bênçãos da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, da Igreja Apostólica Brasileira, também com sede no vanguardista bairro do Porto Meira.

Representação das duas Iemanjás.

Pelo menos 130 pessoas, a maioria devota de Iemanjá, embarcaram no Kattamaram II às 9h. O barco zarpou, subindo o rio na direção da Ponte Internacional da Fraternidade, Brasil/Argentina, para dar espaço à passagem de outro que se aproximava do porto com parte de seus navegantes (tripulantes) acenando para o Kattamaram e para a família de Iemanjá a bordo.

Depois, logo à frente, o Kattamaram fez uma evolução de 180º, voltando em direção ao lugar exato onde o Rio Iguaçu desemboca no Rio Paraná. Aquele lugar chamado foz, onde as águas escuras do Iguaçu se encontraram com as águas mais barrentas do Paraná sem se misturarem.

Oferendas a Iemanjá

Mães de santo (ialorixás), filhos e simpatizantes a bordo do barco se dirigiram a estibordo (lado direito, na linguagem dos navegantes), próximo à proa, que apontava na direção do Paraguai, e lançaram na água os presentes para Iemanjá. Eram presentes simples, com destaque para as rosas amarelas e brancas. As flores e ofertas cruzaram o encontro das águas e tomaram o rumo do canal principal em direção ao mar.

Iemanjá é conhecida no mundo todo como Yemanjá, Yemaya ou Yemọja, em iorubá, língua africana amplamente falada na Nigéria. O vocábulo vem da junção de três palavras nessa língua:  iye (mãe), omọ (criança) e eja (peixe). Uma das traduções aceitas é “A mãe cujos filhos são peixes”.

Originalmente protetora e orixá do Rio Ògùn, na África, a “Mãe cujos filhos são peixes” desembarcou no Brasil durante os dias “áureos” do tráfico intercontinental de escravos. Esses escravos, com o tempo, adaptaram o culto de Yemọja à geografia brasileira, tornando-a a mãe protetora de todos os rios e do mar, já que todos os rios vão, um dia, chegar ao mar.

As rosas que os adeptos da umbanda e candomblé em Foz do Iguaçu jogaram no rio não caíram em redemoinho nem voltaram na direção do barco. Se isso tivesse acontecido, significaria que ela, a “Mãe cujos filhos são peixes” não havia aceitado o presente, explicou a Iya Amanda.

Em navegação rumo à foz do rio Iguaçu.

A habilidade de adaptação africana, o sincretismo religioso, a sincronicidade defendida por Karl Jung e até a serendipidade, aquela experiência que acontece quando alguém sai à procura de uma coisa e encontra outra (melhor), explicam como a religião que veio da África sobreviveu e sobrevive à diáspora por mais de 400 anos.

Um exemplo disso estava a bordo do Katamaram II no sábado, 1º de fevereiro, na forma de duas Iemanjás. Esse fato se explica.

A religião africana trazida pelos africanos foi a precursora do candomblé, que até hoje mantém o Iorubá como língua litúrgica na forma de centenas de cantos que todo iniciado sabe de cor. Ela se limita ao culto dos orixás.

Já a umbanda, vista como uma religião brasileira, cultua os mesmos orixás que seus irmãos do candomblé, mas abre o leque para cultuar entidades que vêm de origem indígena brasileira e de centenas de entidades de outras procedências terrestres, como caboclos, caboclas, pretos velhos, pretas velhas, malandros e ciganos.

O candomblé mantém uma versão mais africana de Iemanjá, na qual ela aparece com o rosto encoberto com um “véu”. As estátuas de Iemanjá na versão africana são negras.

A Iemanjá da umbanda é sincretizada com personagens indígenas como Janaína e a Mãe da Água, do folclore nacional. Ela não usa o véu. Seu rosto descoberto e sorridente ganha o adorno de uma coroa que contém uma estrela do mar.

Na procissão de Foz do Iguaçu, as duas Iemanjás viajaram juntas na carreata, desembarcam juntas no Porto de Areia, às margens do Rio Iguaçu, e acompanharam a viagem no barco representando o amor e a proteção de Iemanjá para todos os seus filhos, quer sejam os peixes, os elementais da água ou a tripulação embarcada, além de todos aqueles que se encantam pela sua beleza.

As duas estátuas de Iemanjá foram levadas na procissão por duas Iemanjás de carne e osso, que representaram as duas linhas da religiosidade que vieram da África e se adaptaram à Terra de Pindorama, um dos primeiros nomes do Brasil. A bailarina Shadia Scherer representou a Iemanjá africana, e Yndaiá Morigi representou a Iemanjá de umbanda.

Não existe estatística exata sobre o número de casas e templos de umbanda ou de candomblé em Foz do Iguaçu, porém um levantamento recente apontou que a cidade tem 42 casas ou templos afro-brasileiros. Cada casa é independente e cada uma possui seu calendário que às vezes não permite uma concentração maior de pessoas.

Para os primeiros dias de fevereiro, a programação era extensa com festas à Iemanjá em outras casas, festas a outros santos, cerimônias e atividades. “O importante é não deixar passar em branco”, disse Iya Amanda já pensando no que fazer para a 45ª edição da Festa de Iemanjá.

Fitas de lembrança de Iemanjá.

Fotos: Jackson Lima

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