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Texto tirado do livro "Retrospectos Iguaçuenses, narrativas históricas de Foz do Iguaçu" de Ottília Schimmelpfeng. Capitulo: Festa em Foz do Iguaçu, do Centenário da Independência do Brasil, em Setembro de 1922. Editora Tezza.

No dia 7 de Setembro de 1972, o Brasil irá comemorar os 150 anos de sua Independência. Este próximo sesquicentenário histórico fez-me recordar aquele distante dia 7 de Setembro de 1922, quando se comemorou o 1º Centenário do feito que declarara a emancipação política do Brasil, imortalizado no Grito do Ipiranga, acontecimento que uniu a Nação inteira em festas de grande júbilo e vibrante entusiasmo cívico.

Foz do Iguaçu, minúscula parcela do imenso território brasileiro, inserida no ângulo de três fronteiras, como solitária sentinela avançada, também rendeu suas homenagens à Pátria querida, através de festividades, que em caráter popular, jamais se igualaram.

O Hotel dos Saltos (atualmente Hotel das Cataratas), foi o local escolhido para a concentração do povo iguaçuense, nas comemorações alusivas à data. Esta decisão bastou para despertar em cada pessoa a satisfação de participar das festas, cujo programa seria elaborado caprichosamente.

Com muita antecedência meu Pai nos fez transportar para lá afim de dirigir os preparativos necessários. Lembro-me da azáfama daqueles dias, com uma turma de operários no serviço de roçada do vasto terreno que circundava o hotel.

Ottília Schimmelpfeng
Ottília Schimmelpfeng, pioneira de Foz do Iguaçu. Foto: Rádio Cultura Foz.

Uma área plana, aos fundos, abriam valetas para o braseiro do churrasco, levantavam barracas e uma extensa ramada para abrigo do recinto destinado ao baile público, onde se armaram toscos bancos de madeira.

A parte recreativa do programa seria precedida de uma sessão cívica dando ênfase aos atos comemorativos. O edifício do Hotel também se submeteu a operação de limpeza, engalanando-se para hospedar as famílias da sociedade local.

Houve reforço na despensa, redobraram-se camas nos quartos, enquanto um dos salões se transformava em dormitório, provido de camas de vento…..

Dois dias antes começou o povo a afluir ao local, sem importar-se com a distância (30 km.), nem os meios de locomoção, assim: uns viajavam de carroça, outros a cavalo e muitos… a pé! Os poucos automóveis ficaram à disposição das famílias.

Não faltava a presença de argentinos, paraguaíos, alemães, italianos, enfim, gente de toda nacionalidade que constituia o povo de Foz do Iguaçu, os quais confraternizaram com os brasileiros na exaltação da magna data nacional, como se irrompesse neles o mesmo sentimento cívico que devotavam a sua respectiva terra natal.

Contudo, havia os que visavam apenas a perspectiva de um bom assado e a grande bailanta que Dom Jorge lhes ia oferecer en los santos…

Enquanto o povo se acomodava no acampamento improvisado, já em disposição de festa, o edifício do hotel lotava-se da outra camada de convidados. Reunia-se a grande família iguaçuense, vinculada por forte laços de amizade, de respeito mútuo e, sob aquele teto, avivava-se, ainda, o ardor cívico da nacionalidade brasileira. ,

Se o nosso povo ilhava-se numa cidadezinha quase cosmopolita, o sentimento pátrio pulsava em cada coração, impondo a soberania da Nação que abrigava tanta gente estranha!

O movimento crescia, de hora em hora, dando um novo aspecto aquele lugar de vida tranquila apenas embalada pelo ruído das Cataratas! Logo o som das quedas se abafou pelo burburinho daquela gente que transitava pelos arredores, extasiada diante da magnificência da natureza ainda desconhecida para muitos. Gozando da amenidade do lugar parecia que aspiravam a largos haustos o ar puro, enquanto se absorviam no movimento que lhes proporcionavam aquelas alegres férias.

Nós, os jovens, também compartilhávamos daquela euforia, despreocupados das obrigações de recepção e entregues as delícias do lugar ou, observando o crescente movimento que se tornava espetacular aos nossos olhos. As crianças cabritavam no gramado, enquanto aqueles pobres matungos eram disputados pela gurizada que, montada em pêlo, fazia seu turno nas galopadas pela redondeza…

O esperado dia 7 de setembro, Dia do Centenário

O esperado dia 7 de Setembro, o Dia do Centenário, após uma noite tempestuosa, raiou enfarruscado e frio. Isto porém, não veio ofuscar o brilho da festa em expectativa. Ninguém olhava para as nuvens que empanavam o sol, pois, todo o mundo se concentrava naquele recanto alegre, com a Bandeira Nacional tremulando no alto do edifício…

Bem cedo ouviu-se o toque da alvorada pela nossa gloriosa bandinha, da qual figuravam: Accácio Pedroso, Dario Camargo, Jorge Samways, Francisco José da Rosa e outros, todos amadores na arte e fervorosos na afinada execução de seus instrumentos.

Mais tarde realizou-se, no recinto do Hotel, solene sessão cívica, com assistência de todo o povo, atento e respeitoso. A cerimônia, na consagração do Dia da Pátria, relembrou a nossa história e nossos heróis. No canto do Hino, acompanhado pela nossa bandinha, ia transbordando a emoção que se agitava no sentimento pátrio de cada brasileiro….

Lembro-me que meu Pai proferiu um discurso inflamado de profundo e contagiante patriotismo, que despertava naquela gente aplausos entusiásticos. Aliás, ele era um orador eloquente. As palavras tocavam a sensibilidade do auditório em expressões simples, despidas da retórica empolada, mas, dominadas de sentido humano e espírito público – seja dito de passagem.

Rendia-se, pois, culto à Pátria, a maior Divindade terrena, através da palavra, do canto e da música.

A seguir, introduziu-se a parte recreativa. Na verdade, desde véspera o povo, lá no acampamento, sem perturbar a ordem, já comia, bebia e dançava! Havia grandes sanfoneiros, como Pedro Marques, Demécio Sarza. Não faltava o plangente violino do Hermógenes, acompanhado de violões, cujo som era arrancado com violência pelos dedos fortes dos paraguaios. Estes conjuntos animaram muita festa, naqueles tempos!

Os foguetes atroavam o ar, principalmente aquele morteiro fabricado pelo alemão Sachs, um competente mecânico. Rossoavam também os vivas ao Brasil e ao Centenário, manifestações dos presentes mais efusivos…

E lá no grande edifício outro grupo revoluteava em torno do salão e do pátio interno, não menos animado na ingestão da boa carne e do bom vinho…

Ainda me lembro das famílias presentes: de Ignácio Ramos, Accácio Pedroso, Francisco José da Rosa – o impagável Rosinha -, Apolinário Souza, de meus tios Alberto e Augusto, João Batista, Frederico Chevalier, Juan Anzoategui, Erasto Rolon, Eleodoro Seixas e tantas outras conceituadas famílias.

Ali estava também o único médico da cidade, Dr. Joel Sottomaior Lagos e seus irmãos Jairo, Heleno e Jurema, recém casados; Jorge Samways, o inesquecível Jorge Inglês; o bem-humorado Dario Camargo, o jovem e louro Harry Schinke

Eram funcionários públicos: federal, estadual e municipal, comerciantes, comerciários e ainda, representantes da Argentina e do Paraguai.

A noite houve grande baile de encerramento. O da sociedade realizou-se no salão principal – o de festas. Por causa da humidade, o baile público foi transferido para o outro salão, já despido das camas de vento. De um lado, o som vibrante da nossa Bandinha; do outro, as sanfonas, o violino e os violões, inundando o ar de música, muita música!

Há sempre uma ocorrência tragicômica em meio das exaltações de um público concentrado, como aconteceu naquela noite, no auge da festa, lá no segundo salão. As portas de entrada situavam-se em terreno plano, dando para o pátio central do edifício, porém, as janelas de frente se elevavam a cinco metros ao nível do solo, face o declive do terreno. Isto decerto alguém não percebera quando, desejando sair com mais pressa, resolveu saltar a janela precipiando-se ao chão, entre pedra e espinhos.

Dado o alarme, todo mundo correu apreensivo e lá encontraram o homem levantando-se ileso, menos tonto da bebida do que do susto! E a festa continuou com mais riso e mais cautela…

O dia 8 de setembro de 1922 amanheceu em festa

O novo dia amanheceu ainda em festa. Depois, com a mesma disposição de ordem e ânimo, aquele povo foi levantando acampamento, para o retorno à cidade: uns de carroça, outros à cavalo e muitos… a pé.

Movimentaram-se os automóveis conduzindo as famílias e, aos poucos, o lugar foi tornando deserto, enquanto o rumor das águas se avolumavam e vinham ressoar em nossos ouvidos…

Muita gente talvez não compreendesse a significação histórica daquele 100° aniversário tão celebrado, porém, jamais esquecia quanto significou a grande e duradoura festa do Centenário e, na sua simplicidade indagava se ia haver outra festa del Centenário…

E as moças, e os rapazes e as crianças daqueles tempos, hoje pais, avós e bisavós, guardando viva a lembrança, relatam aos seus descendentes, com muito detalhe ainda, o empolgante acontecimento cívico-social de 7 de Setembro de 1922, que se revestiu de tanto brilho como jamais se igualou, vindo a perpetuar em marco histórico, a Festa do Centenário que, a maneira dos contos de fada, durou três dias!

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