Fotógrafa Elem Fragoso faz relato sobre seu projeto A cultura dos mortos

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Quando se nasce, nasce-se nu, sem lenço e sem documento, como já dizia o poeta. 

Até então, tudo era tão simples, só existia o aconchego do que se acreditava ser o mundo, onde só existe você, e Deus é a voz que fala carinhosamente com você. Ele é mulher e o nome dele é mãe! 

Então você é arrancado do seu “mundo”, tem de aprender a conviver com uma nova vida. Poderia se dizer isso da morte? Será que ela não seria apenas mais uma etapa pela qual passamos? Várias religiões do presente e do passado acreditam nessa hipótese. 

Eu, assim como muitas pessoas, já me fiz essa pergunta. E, como muitos de nós, ainda não obtive as respostas que esperava. Então, passei a ficar cada vez mais envolvida com temática da morte e me encontrei com um novo hobby: fazer visitas fotográficas a cemitérios. 

Gosto da paz que sinto quando estou lá, passei a conhecer muita gente e me deparei com histórias inacreditáveis. Então surgiu o projeto “A cultura dos mortos”. Nesse, procuro mostrar as diferentes formas que as pessoas usam para lidar com a morte, incluindo diferentes culturas de cada povo e países que conheço por onde passo. 

O projeto está apenas começando, mas já me deparei com coisas bem diferentes. Aqui, vou contar sobre alguns enterros que presenciei, um no interior do Brasil e outros no interior do Peru. 

Estava de passagem pela cidade e, como a todo lugar que chego, fui visitar o cemitério. Já estava caindo a tarde e estava indo embora quando começou a entrar o cortejo do enterro de um senhor, que aqui vou chamar de Sebastião, um senhor idoso, com os seus 70 e poucos anos. Fiquei distante e não fotografei nada por respeito à família. Não sei bem ao certo como, mas duas moças começaram a falar comigo e me convidaram para participar do enterro. Perguntaram se eu cobrava para tirar fotos. Nessa hora lembrei que algumas pessoas antigamente tinham o costume de fotografar os mortos. 

Então, foi  que eu entrei na vida do Sr. Sebastião, ou melhor, na morte. Naquela hora me deparei com a seguinte cena: o caixão dele estava aberto e colocado em cima de um túmulo de outra pessoa. Ele estava só ali, e todo o resto das pessoas que ali estavam falavam sobre outros assuntos que não o defunto ou o enterro. Foi a primeira vez em minha vida que pensei no que de fato deixamos para trás 

Em meio às várias cenas que eu presenciava, tinha uma mulher que chorava muito, e eu até então acreditava ser a viúva, mas não era, ela era a sua primeira esposa – e ele foi o seu primeiro e único amor. A viúva perguntava a alguém sobre o que ela poderia fazer para a sua filha de 17 anos poder receber a pensão que era do “de cujus”porém foi interrompida por um senhor que a chamou para perguntar como ficaria a dívida que o Sr. Sebastião deixou no mercado e como ela pretendia resolver isso – dívida é no limite da herança, alguém lembrou. 

Então, é chegada a hora do sepultamento. Deparo-me com outra cena: o coveiro, que até então estava cavando a cova, muito rasa por sinal, topa com outro caixão em baixo e grita: “Já deu, é aqui mesmo. Com ajuda de outro homem, ele fecha o caixão. Mas, na hora de colocar o Sr. Sebastião no seu destino final, o caixão não cabe no buraco. Retiram-no novamente e cavam mais dos lados. Mais uma vez tentam e ainda não cabe. Retiram-no, cavam e tentam. Por assim seguem as tentativas algumas vezes.  

Em meio a tudo isso, a população reclamando do prefeito da cidade. Falam e até mesmo gritam que é absurdo não terem onde enterrar alguém – lembrei o Odorico Paraguaçu ansiando por alguém para inaugurar o cemitério de Sucupira. Nesse momentojá decidida a fotografar, mesmo sem jeito, fotografei o caixão na cova por ter me chamado atenção o pouco espaço que foi deixado para cobrir de terra. 

Nessa hora chega o coveiro, que aqui vamos chamar de Sr. Francisco, ele começa a me contar a sua história. Conta, pega a minha mão e coloca na sua barriga para sentir o tamanho de sua hérnia – de fato era bem grande, do tamanho de uma laranja, parecia. Ele diz que é coveiro já  mais de 11 anos e que todo esse tempo teve o seu INSS descontado pela prefeitura, porém agora ele precisava fazer uma cirurgia e foi tentar afastar-se pelo INSS, mas descobriu lá que não poderia, pois não era contribuinte, todo o dinheiro que foi descontado dele por anos nunca tinha sido repassado 

Ele foi reclamar na prefeitura, onde fizeram pouco casoContou-me que o descaso com os mortos lá já vem de tempo e que a cova do Sr. Sebastião era assim porque embaixo dele já existiam quatro enterrados – e no resto do cemitério não tinha mais lugar. 

Saí de lá pensando em tudo o que tinha visto e vivido no fim daquela tarde, me perguntava como pode algo assim acontecer. Fiquei pensando em como uma vida inteira termina tão rápido e tudo o que resta é apenas isto: ser enterrado em cima de mais quatro pessoas. Será que com esses quatro foi igual? Já tinha visto nos cemitérios em que passei alguns túmulos em que sentia amor ali, cuidado e respeito com o que de fato restou de alguém querido, demonstrando uma boa lembrança e respeito pelos antepassados, como aqueles que pavimentaram o caminho que percorremos no presente.  

Mas é claro que o abandono da maioria é grande (e triste), e esse enterro do Sr. Sebastião me comoveu muito. Fiquei por muito tempo com isso na cabeça até chegar a Cusco, Peru, e visitar o Cemitério de Almudena, onde tive uma experiência bem diferente… Era dia de semana e encontrei muitos familiares limpando os nichos, que são muitos. Uma característica desse cemitério peruano é que existem poucos túmulos, mas as paredes de nichos são enormes e repletas deles. Nesse mesmo cemitériopude notar as grandes diferenças culturais sobre o trato com os mortos, a presença deles na vida atual, o zelo com os restos mortais e locais de enterramento. 

A cena que mais me marcou foi de uma criança que foi com seus pais visitar o irmãozinho, que teria morrido antes dela nascer. O menininho brincava com os brinquedos que tirou do nicho e conversava como se estivesse com o seu irmão ao seu lado. Lembrei que é um antigo costume de várias culturas do passado e do presente colocar no túmulo, ou no caixão, pertences para serem utilizados na vida após a morte. Em outro nicho, uma menina conversava e comia junto com a sua mãe falecida, como se ela lá estivesse – e, para ela, estava de fato. 

Depois acabei retornando lá mais vezes, em uma dessas vezes vi uma banda tocando com pessoas cantando, dançando e bebendo. Não me contive e fui até lá. Perguntei a uma jovem senhora sobre a festa, fui recebida com um abraço tão caloroso e cheio de amor, que fiquei emocionada. O nome dela era Pathy, e me contou que estavam festejando um ano da morte de sua “mamá, e que quando ela se foi o dia estava igualzinho a esse, então eles estavam ali para festejar com ela porque acreditam que ela estava realmente ali participando alegremente da festa em sua homenagem.  

Pude sentir grande amor das pessoas naquele momento de festividade e de reverência aos antepassados. Depois da pequena festividade, despedi-me dela, ela agradeceu por ido até  participar do momento com ela. Mais na frente encontrei outra família. Alfredo e sua mãe estavam na visita semanal que fazem à Sra. Agripina – ela adorava o neto. Ele, toda semana, acompanha a sua mãe para visitar a falecida avó. Fiquei tão feliz por eles compartilharem comigo a história deles, e é incrível como são acolhedores e amorosos, compartilham conosco as histórias e lembranças com alegria. É como se fosse convidada a participar daquela celebração da vida passada que engendra o presente e o futuro. 

Bom, tudo que posso dizer é o que todos já sabemos: não temos nenhum poder sobre a morte e a separação. Essas são irremediáveis. Mas e as memóriasTemos as lembranças (boas e ruins, como a vida) e a felicidade de termos feito parte da história delas. E, enquanto estiverem entre nós (vivos ou mortos)devemos amar sem medo e não ter vergonha de falar isso às pessoas amadas. Se alguém que você ama se foi, não se desespere, mas lembre-se de que a morte pode não ser o fim, e a separação pode ser apenas temporária, mesmo em vida!

Por Elem Fragoso (Fotógrafa e designer | elem@elemfragoso.fot.br | www.elemfragoso.fot.br)  




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