Dor de cabeça: conheça os riscos e veja relatos de especialistas

657

Ela começa aos poucos. É uma pequena dor na região da cabeça e que lentamente vai ganhando intensidade. Nos primeiros sintomas, parece ser somente mais uma leve dor, mas com o passar do tempo se agrava para algo mais sério, e é aí que surge a enxaqueca 

 “Em 2015 eu comecei a ter diariamente dores de cabeça muito fortes, acordava com dor e ia dormir com dor. O primeiro médico que eu procurei foi o otorrinolaringologista, porque a sensação que eu tinha era que doía meu ouvido, mas estava tudo normal. Depois ele me falou pra ir até o dentista avaliar a ATM (articulação temporomandibular), que liga o maxilar ao crânio, pois era muito comum pacientes apresentarem dores de cabeça quando estavam com disfunção da ATM. Então, no dentista, fiz uma placa noturna para evitar que pressionasse os dentes, mas mesmo assim não melhoraram as dores.” Esse é o relato de Jéssica Piovesani, 26 anos, médicaveterinária, uma entre as mais de 30 milhões de pessoas que sofrem de enxaqueca no Brasil. 

Segundo dados do Ministério da Saúde (2018), a enxaqueca afeta cerca de 15% da população brasileira, algo em torno de 31 milhões de pessoas, a maioria na faixa dos 25 aos 45 anos. Após os 50, a taxa tende a diminuir, principalmente em mulheres. Quando se trata de crianças, ocorre em 3% a 10%, afetando igualmente ambos os sexos antes da puberdade. Depois dessa fase, o predomínio é no sexo feminino. Entre as mulheres, o problema chega a até 25%, mais que o dobro da prevalência entre os homens. 

 

De acordo com o médico neurologista Dr. Elton Gomes da Silva, “a dor de cabeça causada por uma enxaqueca, ou tumor cerebral, ou hemorragia cerebral pode ter mesmo aspecto, mas geralmente a enxaqueca tem uma história mais arrastada, com crises há vários anos, além de poder ter um componente genético envolvido. Já nos outros tipos de dor, o início é mais recente ou há uma mudança no padrão da dor nas últimas semanas a meses”. 

Além disso, estudos comprovam que a enxaqueca está diretamente ligada ao AVC e infarto. Segundo uma pesquisa das universidades Aarhus, na Dinamarca, e Stanford, nos Estados Unidos, com base em dados de um levantamento feito entre 1995 e 2013 sobre a saúde dos habitantes do país escandinavo, mais de 50 mil pessoas que sofrem de enxaqueca foram equiparadas às 510 mil livres desse tipo de cefaleia. O resultado apontou que: 

 

         A cada mil pessoas com enxaqueca, 25 sofreram um ataque cardíaco – em comparação a 17 entre mil que não sofriam de cefaleia; 

         A cada mil pessoas com enxaqueca, 45 sofreram um acidente vascular cerebral isquêmico – em comparação a 25 entre as mil que não sofriam de cefaleia; 

         A cada mil pessoas com enxaqueca, 47 apresentaram fibrilação atrial (uma arritmia cardíaca que favorece o AVC) – em comparação a 34 entre as mil que não sofriam de cefaleia; 

 

“Muitos pacientes, ao fazerem o teste ergométrico, sentem dor de cabeça. Isto se dá pela tensão existente na região dorsal do tórax [costas]. A maioria está sedentário, e os ligamentos que se inserem na região occipital da cabeça [atrás da cabeça] se tensionam e provocam dor. Outra causa comum de cefaleia em consultório de cardiologia é devido à hipertensão. Quando o paciente desenvolve pressão alta, aqueles mais sensíveis podem sentir desconforto geral e dor de cabeça. O risco da hipertensão é provocar um pico hipertensivo grave e gerar o AVC ou uma hemorragia entre o cérebro e o crânio. Fazer acompanhamento cardiológico é essencial para uma vida saudável e sem grandes surpresas”, destaca o cardiologista Dr. Eduardo Martins. 

 Existem aproximadamente 150 variedades de dor de cabeça, de acordo com os médicos. As mais comuns são a enxaqueca e a tensional, que são tidas como crônicas quando se manifestam 15 ou mais dias do mês por pelo menos três meses.  

Depois de passar por vários profissionais, Jéssica procurou um neurologista, o qual solicitou exames de sangue, raio X e tomografia do crânio, receitando por fim medicações para começar o tratamento da enxaqueca. “O tratamento para a enxaqueca envolve mudança nos hábitos de vida, inclusive na alimentação e padrão do sono. Quando a dor é muito constante [mais de três dias na semana], é necessário uso de medicações para reduzir a frequência e a intensidade destas crises, sendo medicações diferentes dos analgésicos que costumamos usar na hora da dor”, explica Dr. Elton. 

“Esse tratamento que realizei amenizou as dores, mas não desapareceram, eu tinha crises duas a três vezes na semana, e passou a ser uma ou duas vezes na semana ou uma vez a cada 15 dias. O médico me pediu pra procurar a ginecologista para ver a questão do método contraceptivo e exames hormonais. Fui até a minha ginecologista, expliquei toda a situação, e ela me pediu para suspender o uso do anticoncepcional [em pacientes com enxaqueca, o uso de anticoncepcional não é recomendado porque aumenta a chance de ter AVC], e também nos períodos menstruais a enxaqueca era muito mais forte, era evidente que tinha relação com a menstruação. Parei de tomar o anticoncepcional e coloquei o diu mirena, fiz os exames hormonais e ultrassom, os quais não apresentaram nenhuma alteração. Com o uso do diu mirena, como ele inibe o fluxo, diminuiu um pouco as dores de cabeça também”, conta Jéssica, que passou a tomar muitos medicamentos diariamente. 

 Cuidado com o excesso de medicamentos! 

O uso abusivo de medicamentos pode aumentar as dores de cabeça. Segundo os médicos, isso acaba tornando-se um círculo vicioso, no qual ao sofrer constantemente de dores de cabeça o indivíduo passa a abusar da medicação e, consequentemente, pode sofrer ainda mais com o incômodo. Por isso, ao tomar remédio e a dor não passar, estendendo-se por mais de três dias, a recomendação é procurar um neurologista.  

Consequências da enxaqueca 

Além da dor de cabeça insuportável, a enxaqueca traz outros problemas como aumento do estresse e ganho de peso. Foi o caso de Jéssica, que ganhou peso e ficou irritada com a dor, deixando que esses fatores mudassem sua vida, além de ficar em casa sem vontade de fazer nada, levando a uma predisposição à depressão. “A dica para quem tem enxaqueca frequente é procurar um especialista no tratamento da dor, para poder utilizar a melhor medicação de acordo com as queixas. Reduzir o consumo de alguns alimentos, como derivados do leite [queijo, requeijão etc.] e chocolate, também pode ajudar na redução da frequência das crises”, alerta o Dr. Elton. 

Jéssica seguiu essa recomendação e procurou uma endocrinologista para avaliar questões de intolerância a glúten, lactose ou algum alimento que agravasse as dores. Realizou uma bateria de exames, e não foi constatada nenhuma intolerância. “Pesquisando sobre alguns alimentos que poderiam piorar a enxaqueca, eu comecei a fazer acompanhamento com nutricionista para auxiliar no meu cardápio e tirar da minha alimentação, por exemplo, amendoins, chocolate e algumas frutas.” E mais, ela buscou de todas as formas possíveis acabar com a dor utilizando-se de tratamentos alternativos com massoterapia, acupuntura, reiki, constelação familiar, terapia com psicólogo, exercícios físicos com menor intensidade, RPG e osteopatia.  

Mas foi só em uma consulta com outro neurologista que Jéssica descobriu a verdadeira causa de sua enxaqueca: devido a um acidente em que ela bateu com força a cabeça, gerou uma rotação das vértebras e, com isso, quando seu estado emocional está alterado, pressiona a região e causa a enxaqueca. Assim, ela passou a fazer o tratamento ideal, utilizando-se de menos remédios e mantendo um acompanhamento com osteopata, resultando na diminuição das dores.  

“No início, a enxaqueca me limitava de fazer minhas atividades normais, trabalhar, estudar, ir na academia, sair acabava ficando em casa em um quarto escuro, com compressa na cabeça, dopada de remédios e com um mau humor que ninguém aguentava ficar perto. A dor era tanta que nem conversar eu conseguia, muitas vezes passava mal, náuseas, vômito, fraqueza, tontura. Depois de descobrir a possível causa da enxaqueca e fazer tratamento com remédios certos junto com terapia com psicólogos, posso dizer que tenho uma vida normal. Hoje já sei que, quando estou estressada ou ansiosa, aumenta a chance de me dar enxaqueca, então eu procuro mudar meus hábitos e tentar conviver com a enxaqueca da melhor maneira possível”, finaliza.  

O caso de Jéssica se originou de um fator específico – o acidente –, contudo existem muitas outras situações que provocam a enxaqueca, por isso é sempre muito importante procurar um especialista para receber o diagnóstico correto, assim iniciando de imediato o tratamento e aumentando as chances de reduzir as dores.  



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


Deixe um comentário