CriativAÇÃO

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Por: Carlos Alberto D’Andréa Ribeiro, arquiteto e jornalista

Costuma-se reconhecer uma pessoa criativa pelo que ela produz de diferente ou inovador. Isto até certo ponto é verdadeiro, porém acredito que podemos reconhecê-la por trabalhar e produzir muito, por acreditar naquilo que está fazendo e por persistir no aprimoramento e na qualidade, mas também na quantidade de material produzido.

Gênios como Picasso e Da Vinci não foram mais bem-sucedidos do que outros iguais, eles simplesmente produziram mais, por isso tiveram muito mais sucessos e fracassos do que seus colegas menos consagrados. A criatividade está condicionada à quantidade de trabalho produzida. Robert Sutton / As estranhas regras da criatividade. Revista Exame, ed. 749, set. 2001.

Na arquitetura, no design e até mesmo na tecnologia, a criatividade conectada à inovação é o ar que se respira. Se este faltar, a produção irá morrer por sufocamento oriundo da mesmice e da repetição sem fim de padrões ultraconhecidos. Foi Einstein quem disse “em tempos de crise, a imaginação é mais importante que o conhecimento”. Na produção de ideias, deve-se pensar estar sempre em crise, sempre buscando a perfeição, mesmo sabendo que ela é quase impossível, aquela solução ideal que irá satisfazer-lhe e dar-lhe uma sensação de êxtase que será inesquecível. Pode crer, já passei por isso.

“Se você acha que pode, ou se acha que não pode, depende só de você.” Henry Ford

Todos conhecem Steve Jobs, o genial criador da Apple e seus produtos maravilhosos que revolucionaram o mundo nos últimos 40 anos, mudando completamente nossas maneiras de trabalhar, de se divertir e de viver, mesmo com tantos recursos que há meio século seria impossível de se imaginar. Pois bem, quem conviveu de perto com ele (Steve) pôde ver o quanto incansavelmente ele perseguia seus objetivos, a concretização de suas ideias e a forma como elas se resolveriam e seriam produzidas e até mesmo embaladas. A sua satisfação vinha primeiro, o produto só poderia satisfazer aos consumidores se antes lhe satisfizessem. O seu segredo, em parte, foi trabalhar com pessoas também geniais e criativas e, sobretudo, por fazê-las trabalhar incansavelmente até atingir o grau de perfeição que o mestre exigia.

O objetivo que tenho em mente ao redigir este texto é o de trazer um pouco de claridade a este tema, que é o da criatividade conectada à ação, e assim estimular leitores interessados a produzir em suas vidas resultados melhores a partir desta abordagem da criatividade.

Para ser criativa, a pessoa deve começar por retirar totalmente o conceito de que existe na criação a “coisa” do certo e do errado, principalmente se a sua análise do fato for influenciada por agentes externos, família, amigos, parceiros de trabalho…

Não se deve ter medo de falhar, o que não se pode fazer é deixar de fazer, de tentar, de se arriscar, pois, como disse Robert Sutton no artigo da Revista Exame, “deve-se premiar tanto o sucesso quanto o fracasso”. Na atividade criativa, seja na arquitetura, em que atuo, seja em qualquer área de interesse, a autocrítica deve ser eliminada. O foco deve estar sempre no produto, em todo o tempo buscar o novo, procurando o resultado perfeito para o projeto.

“A criatividade é fruto da ação.” Dean Keith Simonton

Nas artes plásticas, especialmente, o artista não se dá por satisfeito até que seu projeto se transforme na obra perfeita, na composição jamais conseguida, nas proporções, detalhes. A ação, da qual falamos no início, deve ser constante, traços, esboços, materiais, tudo se movendo de forma integrada, ajustada à perfeição. Note que a perfeição de que falo não é simplesmente a da técnica, mas proveniente da alma que está envolvida na tarefa de expor o inimaginável, comunicar a si próprio a linguagem que emana do interior profundo do artista.

Bem, deixando a poesia um pouco de lado, vamos pensar o que é possível de se realizar melhor aplicando uma mentalidade de criativAção, como tenho chamado os nossos projetos de vida. Isto é, impulsionar nossas carreiras com muita atividade criativa, gerando muitas ideias e ideias diferentes. Nesse ambiente de ação, de competição e de busca de resultados, as melhores ideias acabarão prevalecendo.

Primeira coisa, comece fazendo algo que você possa errar e fazer novamente, lembrando que você não precisa sempre acertar. Faça algo que cause algum impacto e, afinal, saiba por que você o está fazendo. Procure inspirar-se em algo que está funcionando ou em alguém que está tendo muito sucesso. Saiba que muitos artistas “ultrabem-sucedidos” iniciaram suas carreiras copiando alguém que eles admiravam.

A parte mais difícil é começar, mas logo que você supere o início vai perceber que tudo vai ficando mais claro e fácil. Saia por aí buscando inspiração. Uma frase que me lembro de ter lido é: “O melhor lugar para se inventar o futuro é longe da sua mesa”. Muitos falharam, mas muitos mais falharam por não terem começado.

Agora, pensa que é fácil? O trabalho para ser criativo exige que se tenha a mente aberta para as novidades, senão você acaba refugiando-se nos velhos padrões conhecidos. É necessário muito esforço e coragem para se criar e inovar, propondo nova visão de mundo, novos projetos, atitudes que estimulem sua rotina diária e muito mais.

É preciso praticar, treinar, estudar, buscar conhecimentos e técnicas. Do site português Seja um Vencedor, adaptei o seguinte: os criadores bem-sucedidos têm uma força dentro deles que os impele a tentar sempre fazer melhor que da última vez. Eles vão atrás das competências necessárias para realizar os seus sonhos. Não se deixam levar pelos seus erros, pois reconhecem que eles fazem parte da sua evolução, fazem parte do percurso para o sucesso. (https://www.miguellucas.com.br/wp-content/uploads/2015/07/sejaumvencedor.pdf)

Próximo passo, seja um eterno inconformado! Faça um tremendo esforço para sair do conformismo que nos assola diariamente. Como Davi, encontre um gigante e mate-o! Ser inconformado é não escolher as coisas fáceis; escolha envolver-se num projeto maior do que você, algo importante a ser resolvido. “Para quebrar o feitiço da inércia e da frustração, basta isso: agir como se fosse impossível fracassar.” (Dorothea Brand)

Criar é maravilhoso, mas somente aqueles que insistem em pensar e fazer diferentemente é que conhecem a realização e o prazer em ver sua obra realizada. Não espere a inspiração parado. “A inspiração existe, mas tem de te encontrar trabalhando.” Pablo Picasso

Fayga Ostrower, em Criatividade e Processos de Criação, considera a criatividade um potencial inerente ao homem, e a realização desse potencial uma de suas necessidades. (Ostrower, Fayga. Editora Vozes. RJ. 1977). Sendo assim, um potencial da nossa natureza, devemos encontrar um canal onde despejar toda a criatividade que está em nós, devemos trabalhar duro para tirar ideias da cabeça e transformá-las em realidade. Palavras e ideias podem nos inspirar, mas apenas a ação pode transformar!

Ação é não rejeitar o novo, o diferente, aquilo que incomoda. É estar sempre criando, questionando, renovando a forma de pensar, acreditar nos seus projetos, objetivos e resultados, sobretudo ter a coragem de assumir riscos em tomar decisões que contrariem o senso comum. Com nossas mentes focadas em criar, seja desenhar, pintar, esculpir ou projetar, o trabalho conectado com a emoção, o mundo será o espaço de criação, amplo e generoso, tendo os limites que nossa imaginação lhe der.

O escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) escreveu que “o mundo é uma tela para nossa imaginação”, ou seja, uma tela branca à espera da nossa composição, original e extraordinária.

Agora, se decidir colocar pra fora sua criatividade, acredite, você a tem, prepare-se para encontrar muitas dificuldades, mas tenha como certo que as dificuldades existem para possibilitar a criação do belo, do justo, do bem comum. O arquiteto paulista e ganhador do prêmio Pritzker de Arquitetura Paulo Mendes da Rocha disse: “As dificuldades são bem-vindas, o nirvana não existe”. Possivelmente ele se referia a dificuldades em se fazer boa arquitetura, mas podemos estender este pensamento a todas as atividades criativas.

Não pode haver criatividade sem vida, mas é importante dizer que não há vida sem criatividade. E você não precisa ser um gênio para criar, basta olhar para o que é velho e conhecido com um novo olhar (reciclagem, reaproveitamento).

Enxergar algo que você conhece de um jeito novo, jamais visto. Reinventar a lógica, incomodar o padrão existente, não se conformar com o velho, sujo e ultrapassado.

A criatividade genuína carece de ação e vai ao encontro da realidade, é um ato intenso de regozijo.



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


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