Construção: uma arte dos trabalhadores

287

Por: Elem Fragoso – Fotógrafa e designer | elem@elemfragoso.fot.br | www.elemfragoso.fot.br

Como uma palavra tão pequena tem tanto significado? Quando ouvimos falar em construção, pensamos logo em um canteiro de obra com barulho, muitos trabalhadores e cachorro. Sim, pois toda obra de construção tem pelo menos um cachorro, que é o companheiro dos trabalhadores e guarda honorário do espaço.

Hoje falaremos sobre construções de uma forma diferente. Quero contar como acompanhar a construção de um prédio me tornou outra pessoa, uma pessoa muito mais amorosa e observadora. Posso dizer com certeza que me tornei uma pessoa admiradora do cotidiano dos trabalhadores. Depois disso, e hoje, vejo o mundo de uma forma diferente.

O ano era 2011, eu estava começando na fotografia, havia um pequeno shopping em construção na cidade onde moro, e eu prestava serviço para os proprietários. Lá estava eu com todas as minhas ideias e sonhos sobre fotografia. Achava que iria fotografar moda, natureza e todos esses tipos de fotografias que acho lindas, mas não consigo fazer, não por não saber ou não ter técnica, e sim por não ser meu estilo.

Eu comecei a ir para aquela construção e fazer algumas fotos; logo estava a conhecer as pessoas envolvidas na obra e, durante dois anos, estivemos juntos e misturados. Dividíamos experiências de vida, comíamos juntos, ríamos juntos e até ficávamos tristes juntos. Mas existia um rapaz que, toda vez que notava eu pegar a câmera para fotografá-lo, logo virava de costas, escondia-se e até ficava de cara fechada. Ele nunca conversava e estava sempre sozinho. Continuei tentando e um dia consegui fazer a foto dele – sem ele notar.

Quando já estava no final da construção, conversando com o proprietário eu comentei das fotos que fazia durante o período de obras. Curioso, ele viu as fotos e logo se apaixonou por elas, nascendo assim a exposição Labuta. Claro que não poderia ficar sem a foto que tanto tempo levou para ser feita.

Chegou o dia da inauguração do shopping e abertura da exposição. Todos os trabalhadores e pessoas envolvidas estavam presentes, e minha maior satisfação foi quando eles começaram a olhar as fotos e a gostar delas. O rapaz que sempre se escondia para não ser fotografado, quando viu sua foto que estava na parede, chorou.

Confesso, não esperava essa reação e, por um momento, pensei que ele não tivesse gostado. Mas, quando ele começou a falar e contar um pouco de sua vida, disse que, toda vez que notava eu fotografar, pensava não existir nada de bonito ali para fotografar, por isso não queria. Porém, quando viu o resultado e como a exposição exaltava e homenageava os trabalhadores, emocionou-se de uma forma muito grande e disse que nunca imaginara que seu cotidiano de trabalho pudesse ser belo.

Ele falava emocionado de sua foto colocada, como arte, na parede que ele ajudou a construir. A reação dele foi tão inesperada que tocou outras pessoas; e o proprietário, contagiado por tanta emoção, presenteou todos que apareciam nas fotos com as respectivas fotografias.

A exposição Labuta foi criada para mostrar a importância dos trabalhadores, para mostrar a história por trás das paredes de concreto. Ela nasceu durante a construção do prédio e mudou muita coisa em mim. Depois dela fiquei apaixonada pelo cotidiano, pelas pessoas, e hoje sei que existe beleza até mesmo no caos de uma construção, no dia a dia das cidades, na vida, no trabalho, na família, no tempo com os amigos – e na solidão, o tempo consigo mesmo.

A beleza das obras de arte nasce de uma relação entre o observador e elas. É no ato de admirar que nós construímos e atribuímos sentidos, significados e qualidades para a arte. É um processo contínuo, cultural, transformador e absolutamente humano. O processo de desenvolver a própria sensibilidade para enxergar o “belo” no mundo cotidiano é um exercício de desenvolvimento do próprio artista. Um processo que se desenvolve por toda a vida desse profissional. E ele é a grande mola mestra que impulsiona o fazer artístico.

Sobre as obras em si, aprendi muito mais. Hoje sei que por trás de uma construção existem pessoas que muitas vezes saem de casa para um dia normal de trabalho e, sem entender muito bem a importância que têm, ajudam a transformar sonhos em realidade; colaboram para uma família realizar o sonho da casa própria; para o sonho do empreendedor de concretizar a obra; para o sonho e a realização do arquiteto e engenheiro de verem seu projeto sair do papel.

Aos trabalhadores eu só tenho a agradecer por terem me feito ver o mundo com outros olhos e quero que saibam que vocês fazem toda a diferença e que o bom-dia, o obrigado e até mesmo um sorriso de vocês tiveram o poder de transformar muito mais que um dia meu!

 

 



Formada em Jornalismo (UDC) e pós-graduada em Relações Internacionais Contemporâneas (Unila), atualmente é jornalista e editora na Revista 100fronteiras.


Deixe um comentário