O enredo “Namastê: a estrela que habita em mim saúda a que existe em você” foi o ápice de brasilidade em função da valorização da formação da cultura brasileira dentre os enredos que passaram pela Marquês de Sapucaí durante o Carnaval 2018. Concebido pelo carnavalesco Alexandre Louzada na Mocidade Independente de Padre Miguel, escola da Zona Oeste do Rio de Janeiro, o enredo conduziu o espectador por sabores, olores e esplendores que unem Índia e Brasil.

Numa concepção inspirada, apresentou a reflexão de que as caravelas que aportaram por acaso ou por planejamento no Brasil estavam com as rotas “alteradas” pelos deuses. Foi bom para lembrar das aulas de História quando os coleguinhas não gostavam e eu amava. Cabe a memória de que boa parte de nossos “símbolos” como bananas, mangas, tamarindos, cocos e até a cana-de-açúcar foram trazidos às terras tupiniquins oriundas da Índia.  Dessa forma, a essência da estrela que habita em mim saudou a que existe em você. Concorda?

Abrindo o desfile estavam os monges e os deuses, com destaque para raios e trovoadas do deus Indra e a aparição solene de Madre Teresa de Calcutá e Gandhi numa coreografia brilhantemente conduzida pela dupla Saulo Finelon e Jorge Teixeira. Naquele jogo de cena contemplamos a formação da religiosidade da Índia. Fio condutor bem delineado e executado com maestria.

Os olhos de Deus, aves míticas. adornaram com suas plumas o figurino impecável do primeiro casal de Mestre Sala e Porta Bandeira, Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas. O segundo casal representou a Cana de Açúcar e as relações com o deus Kamadeva, deus hindu do amor, que possui arco de cana e flecha de mel. Figurinos de alto nível.

Enredo e desfile para disputar campeonato. A Mocidade Independente de Padre Miguel voltou a ser uma escola forte e com reconhecimento de público e crítica. Méritos ao trabalho desenvolvido pela diretoria, carnavalesco e setores da comunidade.

A religiosidade, formação da cultura popular, ideologias sociais e contrastes naturais estavam presentes em alegorias e fantasias. Flores, índios, temperos, luzes, elementos que nos dizem respeito e aos indianos também pois no cerne da questão estava valorizar a divindade, essência e luz que existe em ambos os povos. Emocionante contemplar o carro das especiarias, temperos e frutas, com a figura da Mãe Menininha do Gantois sendo representada pela Tia Nilda, matriarca que em sua presença representa a essência de Padre Miguel que saúda o bem e a essência que habitam em todos nós, admiradores da Escola de Samba que tem como símbolo a Estrela.

Alicerçado no bom gosto e delicadeza no uso da bem escolhida paleta de cores , o desfile foi pautado de cadência divinamente inspirada pela Bateria Não Existe Mais Quente, do Mestre Dudu. A voz de Wander Pires conduziu os desfilantes com empolgação. A rainha de bateria Camila Silva foi sem dúvida um dos grandes destaques do desfile.

O sagrado e o profano se irmanam numa festa de alegria, brilho e disputa de toadas entre os Bois. A figura de Kamadhenu surge como fio condutor ao congraçamento nesse âmbito festivo. Explico: A vaca sagrada do deus Indra, capaz de realizar qualquer desejo foi apresentada como laço poético. O Boi Zebu indiano que foi muito bem adaptado ao Brasil. Em terras tupiniquins se torna profano em folguedos populares.  Ritmo e colorido nas lendas e músicas que embalam os festejos em torno da figura indiana mais abrasileirada estiveram retratados num setor colorido e com figurinos leves.

Ao final do desfile, louvação à supremacia do povo num “Triunfo do Bem e da Fé”, suscitando reflexão acerca da tolerância ao enfatizar o papel de Madre Teresa de Calcutá, cuja trajetória de trabalho humanitário foi pautada no acolhimento sem distinção de castas.

A catarse provocada pelo samba dos compositores Altay Veloso, Paulo César Feital, Denilson do Rosário, Carlinhos da Chácara, Alex Saraiça, Leo Peres, Zé Glória e J. Giovani. Versos bem estruturados e melodia envolvente apresentaram e narraram o enredo de forma primososa. Ao convocar os componentes a cantarem “Bendita Seja a Santíssima Trindade” a música já iluminava os corações como estrelas fulgurantes para um  desfile saudando a mais sublime forma de partilhar a alegria:  o amor sem início, meio e fim.

Confira galeria com fotos do Fotógrafo Wigder Frota.

Desfile, público, crítica e sobretudo, o amor da torcida estão de parabéns.

Fotos: Wigder Frota.

Pedro Ferreira

Publicitário, professor universitário e editor de moda e estilo.

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